quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Política moçambicana privilegia bens materiais e não cria utopias

Com mais de 20 anos na Educação e mais de 15 estudos nas ciências sociais, José Castiano faz o retrato do ensino superior e da política no país 

A grande tarefa dos docentes universitários e da instituição universitária é contribuir através da produção do conhecimento e tecnologia que possam fazer diferença na sociedade moçambicana. Quem assim o diz é o filósofo e docente universitário com larga experiência, José Paulino Castiano, que, na entrevista que se segue, fala do papel e dos desafios do ensino superior, em particular da Universidade Pedagógica (UP).

De que forma o pensamento científico contribui para que haja a consolidação da democracia? 

O que há de comum entre democracia e ciência é que são actividades que põem no centro o pensamento do indivíduo. A ideia de uma democracia que tem como possibilidade um indivíduo eleger com base na sua consciência é a mesma ideia que norteia o pensamento científico.

A democracia em Moçambique tem sido ameaçada de forma recorrente. De que forma o conhecimento científico ou as universidades podem contribuir para o alcance da paz no país? 

Moçambique, como todos outros países, tem sido vítima do neoliberalismo ou do mercado. O que acontece é que Moçambique e os outros países africanos, sendo Estados novos e fracos, a acção governativa e as eleições dependem dos recursos materiais, recursos esses que não temos. Temos que pedir emprestado ou fazer dívida e acabamos caindo nessa escalonada da dívida. O segundo aspecto é o que chamamos de psicopolítica, o predomínio de uma vida virtual provocada pelo novo espaço que surge: a internet e as redes sociais. Este novo espaço ocupado pelos internautas interfere mais do que pensamos na virtualidade do fenómeno político. Daí que se pode entender que muitos debates se fazem por via da televisão ou da internet, onde se veiculam informações que saem do estado clássico e que, por isso, já não há controlo sobre eles. Também a nossa política moçambicana caiu numa virtualidade, onde interessa o espectáculo da televisão do que o real. A política moçambicana neste momento é caracterizada por uma dependência forte aos bens materiais, aos bens de consumo, mas não deixa de ser uma política que no fundo está para gerir recursos e esquece-se do importante, que é fazer utopias. E, por outro lado, estamos reféns desta explosão das redes sociais que veiculam realidades virtuais. Perante isso, Moçambique apresenta-se como Estado fraco, porque não tem recursos. É preciso que a gente produza mais para nos tornarmos autónomos ou soberanos. Ler+

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