sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Depreciação do metical face ao rand agrava ainda mais a crise em Moçambique

Comerciantes informais e transportadores em Maputo enfrentam dificuldades por causa da subida do rand. Situação é ainda mais complicada depois do aumento do preço de combustíveis.

A crise económica moçambicana enfrenta agora a depreciação do metical em relação ao rand, moeda da África do Sul. Muitos comerciantes informais que dependem da compra de produtos no país vizinho têm dificuldades em continuar as suas importações. Transportadores que costumavam fazer o trajeto para Joanesburgo, com a alta do rand, também já amargam dificuldades, que podem ser agravadas devido ao recente aumento de preço dos combustíveis no país.
No maior terminal rodoviário de Maputo, capital moçambicana, encontramos Carlos Matavele. Ele é mukherista, o nome pelo qual são conhecidos os importadores informais.  Matavele vai a África do Sul comprar produtos para revender em Moçambique, mas queixa-se da constante depreciação do metical face ao rand, que está a afetar o seu negócio.
"O rand subiu tanto. Para apanharmos no câmbio informal está por aí 5 a 5,6 meticais. Infelizmente esse custo do rand nada nos ajuda, porque mesmo aqui em Moçambique as coisas subiram de preço”, desabafa o trabalhador.
Antes da subida do rand, Matavele utilizava a sua própria vitaura para fazer compras na África do Sul, mas agora isto é quase um sonho."Temos de deixar o automóvel em casa e arranjar um transpote semicoletivo. Não vale a pena levar o seu carro porque os gastos serão ainda maiores”.
Carlos Mataleve também relata que muitos clientes estão deixando de comprar, pois sentiram o aumento nos preços dos produtos. "Nas nossas vendas nem ganhamos o valor investido. Quanto mais produtos metemos na barraca com novo preço, mais as pessoas não compram porque habituaram os preços antigos. Com esta situação é difícil”, diz.

Subida de preços 

O fato é que muitos importadores informais já não fazem o seu negócio com frequência. É o que acontece agora com Maria de Lurdes."Está tudo péssimo. Tudo está alto, nada está baixo. Vamos tentar desafiar vendendo. É como nos arranjamos”.Segundo a comerciante, "o (preço do) combustível veio a piorar a situação”.
Maria de Lurdes também chama atenção para outro problema cada vez mais frequente com a crise económica: a fome. "Choramos muito por causa da fome. Um dinheiro para comprar um saco de arroz (25kg) era o preço que pagava outros produtos”, lamenta.
Também por causa da depreciação do metical face ao rand, Daniel Alexandre, transportador do trajeto Maputo-Joanesburgo, diz que já não há tantos clientes querendo fazer a viagem.
"Não há movimento. Dificilmente temos os passageiros por causa do câmbio do rand que está muito elevado. Os carros estão vazios por causa do rand. Na altura, tirávamos por dia 20 carros e agora apenas seis ou oito carros. Não está assim tão fácil”, acrescenta.

Aumento do combustível pode encarecer tarifa

A agravar este cenário está o recente aumento de preço dos combustíveis em Moçambique. Com este reajuste, o litro da gasolina passou dos 47,52 meticais (0,54 cêntimos do euro) para 50,02 meticais (0,57 cêntimos ), o gasóleo de 36,81 meticais (0,41 cêntimos) para 45,83 meticais (0,52 cêntimos) o litro e o petróleo de iluminação, usado pela maioria da população moçambicana, de 28,64 meticais (0,32 cêntimos) o litro para 33,06 meticais (0,41 cêntimos).
Por causa deste reajuste, os transportadores semicoletivos em Maputo pressionam o Governo para aumentar a tarifa de transporte. Mas, caso a solicitação seja atendida pelas autoridades, os preços dos produtos da primeira necessidade poderão subir ainda mais. O estudante Edmundo Manhique diz que os cidadãos já não aguentam mais os preços altos.
"Acho que esta decisão não apareceu no momento certo. Agora temos que ver o que vai acontecer e o que pode mudar. Com esta nova tarifa as coisas vão piorar”, afirma o estudante.
Além do estudante, a vendedora Fátima Sónia também vê com preocupação a situação económica enfrentada pelos cidadãos. Segundo ela, o bolso dos moçambicanos não está preparado para mais um aumento de preços.
"Tem que baixar os preços. O Governo tem que fazer isso. Já não há trabalho e nem dinheiro. Não há emprego hoje em dia, estamos a viver mal. Já não conseguimos comprar um saquinho de arroz (de 25kg). Só conseguimos apenas 10 quilos. Como vamos viver sem comer”, questiona-se Fátima Sónia.

Governo compesaria transportadores

Com a atual subida dos preços de combustíveis, o Governo veio a público anunciar que os transportadores serão compensados. Entretanto, a Federação dos Transportes de Moçambique (FEMATRO) afirma que apenas os transportes urbanos é que devem se beneficiar das compensações.
"Nós temos que estar cientes de que o transporte interdistrital não é compensado, o transporte interprovincial também não é compensado. Esses transpores, logicamente em coordenação com os governos locais, terão de sofrer alguma alteração. A menos que o Governo esteja disposto a compensar a todo transportador nacional”, diz o presidente da FEMATRO, Castigo Nhamala.
Em Moçambique, os transportes semicoletivos dominam o negócio, daí que, em caso do aumento da tarifa, os cidadãos serão os primeiros a sentir no bolso a diferença. Deutsche Welle

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