quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

“Visita de Erdogan visava convencer Nyusi a ‘entregar inimigos’ da Turquia”, Paulo Uache

Uache defende que Erdogan veio ao país em busca de ajuda para neutralizar seus opositores 

Paulo Uache, professor de Estudos da União Europeia, no Instituto Superior de Relações Internacionais em Maputo, não tem dúvidas em relação à visita histórica de Erdogan ao nosso país: “tinha duas perspectivas: uma económica, que era compensatória, e uma perspectiva política, que era uma espécie de combate ao terrorismo na sua percepção de terrorismo”.
“Ainda ontem (antes de ontem), deu uma entrevista a um canal a dizer que tinha duas perspectivas: uma económica, que era compensatória, e uma perspectiva política, que era uma espécie de combate ao terrorismo na sua percepção de terrorismo, porque, a partir de 2013, Erdogan entra em desavenças com Gulam, um homem influente do ponto de vista económico, religioso, e até é acusado pelo próprio Erdogan de estar a patrocinar o movimento PKK, que é um partido curdo na Turquia.
Agora, o cenário é que a Turquia tem dificuldade de identificar os amigos. Temos visto o que acontece com a Rússia, com os Estados Unidos, acusados de apoiar movimentos rebeldes dentro da Turquia, mas, mais do que isso, é que não se entende com a própria União Europeia. Com Moçambique, concretamente, é esta percepção de que aqui existem aqueles que são apoiantes do Gulam e que estão a investir em outras áreas, como a económica, turística e até mesmo a educação. Estes elementos todos fazem com que Erdogan faça esta ofensiva, não só em Moçambique. eu acho que é uma ofensiva política para África, no sentido de identificar os países, pedir colaboração, como ele diz, para que se afastem. Daí que traz também empresários, na minha percepção, são empresários compensatórios, no sentido de que ‘afastem esses, e eu hei-de dar-vos o que eles já vos dão com estes meus’. Só que a política externa de um Estado não se faz assim, porque Erdogan não é eterno no poder.
Portanto, se não é eterno, nós não podemos estar a mudar de política em função da liderança que está lá. Temos que encontrar parcerias duradouras. Não podemos nos afastar só porque o investidor ou Erdogan não concorda com uma certa perspectiva dentro do país dele e nós temos que aderir automaticamente.
Temos que reflectir, temos que olhar, temos que perceber quais são as tendências dentro da Turquia, e eu penso que ele não tem grandes chances de repetir o mandato dentro do seu país, pela forma como aborda as questões políticas, tanto com os vizinhos, como a nível interno. É uma questão muito forte e difícil com que lidar, mas, diplomaticamente, teremos que encontrar saídas para lidar com a situação. Em diplomacia, o princípio básico é nunca dizer ‘não’. Mas isso não significa ‘sim’.
É sempre encontrarmos uma fórmula de lidarmos com todos os parceiros que achamos relevantes para o nosso desenvolvimento, porque, se ele está aqui, é pelo interesse nacional do país dele, e o nosso interesse nacional onde é que fica? Ler+

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