segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Presidente Nyusi, o omnívoro, com dificuldade em concretizar as suas boas intenções

Passam, nesta segunda-feira(15), três anos desde que Filipe Jacinto Nyusi tornou-se Presidente de Moçambique. “Pela forma como o mandato está a decorrer, nomeadamente pela visível dificuldade que o Presidente Nyusi tem revelado em concretizar as suas declarações de boas intenções, não vejo que lhe reste outra alternativa senão optar por uma liderança omnívoro”, avaliou em entrevista ao @Verdade o agora Professor Catedrático da Universidade Eduardo Mondlane(UEM) António Francisco que prognostica que “naquilo que depende mais dos agentes produtivos do que do Governo, acho que existem perspectivas para que 2018 seja melhor do que 2017”.O académico moçambicano que definiu o Presidente Joaquim Chissano como um herbívoro e Armando Guebuza como um carnívoro avalia o actual Chefe de Estado, “pela forma como o mandato está a decorrer, nomeadamente pela visível dificuldade que o Presidente Nyusi tem revelado em concretizar as suas declarações de boas intenções, não vejo que lhe reste outra alternativa senão optar por uma liderança “omnívoro”. Ou seja, ele não se pode dar ao luxo de ser um predador especializado e adaptado para ser meramente herbívoro ou ser somente carnívoro. Está a desenvolver uma capacidade oportunista e generalista, para metabolizar diferentes classes alimentícias”.
“Bem, eufemismos à parte, passados três anos de presidência, a estratégia de crescimento económico do Presidente Nyusi não é diferente da dos seus antecessores. Há três anos atrás, quando foi confirmado como Presidente da República, perguntaram-me quais eram as minhas expectativas para esta nova legislatura. A minha resposta foi que esperava e desejava que o Presidente Nyusi refreasse e contrariasse a estratégia predadora prevalecente. À partida, penso que Nuysi teria um mérito relativamente ao tipo de presidentes visionários utópicos, como Samora Machel e Armando Guebuza. Sabemos no que deram os projectos ou modelos visionários de ambos; no primeiro caso, convertendo-se numa engenharia social e idealista, do chamado Homem Novo; no outro, um visionário Político-empresário Glorioso” começa por analisar.
Para o Professor Catedrático em Economia, “Nuysi surge como Presidente da República, um homem mediano e despretensioso de qualquer visão utópica do mundo. Qual é o mérito disto? Espero que deixe as pessoas trabalhar mais livremente. Espero que o Presidente Nyusi não se convença ou não seja convencido pelo que o rodeiam, a inventar novas utopias visionárias. A humildade em vez de visões utópicas, será certamente a melhor atitude política e ética para Moçambique. Mas para que ele possa contribuir para uma maior e mais genuína liberdade económica, terá que perceber que o papel do Estado é garantir e proteger os direitos individuais e a propriedade privada dos cidadãos”.

“População moçambicana está mais empenhada em ser anti-frágil do que resiliente”

Entretanto o nosso entrevistado, que é também director de investigação e coordenador do Grupo de Investigação sobre a Pobreza e Protecção Social no Instituto de Estudos Sociais e Económicos(IESE), está “convencido que paralelamente aos efeitos negativos da crise político-militar e económico-financeira que temos vivido, existe uma outra face da moeda indicadoras de progressos positivos”.
“O regime político e económico iliberal e intervencionista prevalecente em Moçambique, erradamente designado liberal pelos antiliberais, desperdiça muitas energias a tentar adiar ou sabotar a edificação de uma “sociedade aberta”, com um regime político genuinamente liberal e de democracia representativa. Em contrapartida, a generalidade da população moçambicana está mais empenhada em ser anti-frágil do que resiliente. No passado, grande parte das pessoas muitas vezes quebraram, perderam tudo e tentaram refazer a vida; perante situações desafiantes, os moçambicanos, individualmente ou através de diferentes associações comunitárias, procuram soluções que melhorem e ampliem as suas oportunidades de sobrevivência”, explica António Francisco.
No entanto o economista afirma que “uma das consequências positivas das crises é permitir às pessoas perceberem que ninguém melhor do que elas próprias, deve apoderar-se das suas decisões e opções futuras. A ruptura com os modelos utópicos, mais ou menos idealistas ou megalómanos, permite aos cidadãos perceberem que tais modelos vazios, nuns casos imorais e noutros amorais, ou ambos. Nestas circunstâncias, não admira que muitas pessoas, sobretudo intelectuais e activistas cívicos, se sintam desorientados e órfãos de parâmetros éticos. Não é por acaso que muita gente acaba por buscar conforto na evangelização. Num ambiente de elevada instabilidade pública e privada, as pessoas comuns precisam de encontrar conforto, alento e energia psicológica para devolver alguma estabilidade familiar e individual, no quotidiano das suas vidas”.

“Temos o desenvolvimento humano refém de tréguas e conversas telefónicas”

Por outro lado o Professor António Francisco não tem dúvidas que “enquanto a sociedade moçambicana for frágil, do ponto de vista de cidadania individual e comunitária, não duvido que o partido Frelimo continue a empenhar-se em ser resiliente, mobilizando enormes energias para perpectuar seu controlo sobre o Estado. Volvidos cerca de três décadas, não obstante a introdução da Constituição da República de 1990, continua difícil estabelecer-se um ambiente constitucional e institucional, em que a sociedade deixe de ser orientada e tutelada por “força dirigente do Estado e da Sociedade” preconizada pela Constituição de 1975. Não há dúvida que este modelo gerou e continua a gerar benefícios para os directos zeladores da coisa pública, através de uma ampla usurpação do Estado”. Ler+

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