terça-feira, 6 de março de 2018

Adelino Timóteo percorre os labirintos da História com Uria Simango

É o 15º livro de Adelino Timóteo. Depois de tanto navegar pela prosa e pela poesia, desta vez, o escritor resolveu seguir um caminho diferente do habitual: o percurso da História, a qual é feita de várias estórias. Assim, como culminar de um trabalho de pesquisa aturado, Timóteo prepara-se para lançar o seu mais recente livro, intitulado Os últimos dias de Uria Simango. A cerimónia de lançamento está marcada para o Novo Cine, na Beira, e vai arrancar às 16:30h.
Os últimos dias de Uria Simango é um ensaio biográfico em que o escritor se centra na trajectória de vida social e política de Uria Simango, desde os seus primórdios até ao seu exílio no Zimbabwe, a sua integração na UDENAMO e o seu envolvimento na fundação da FRELIMO, sem deixar de lado as desavenças no movimento de libertação que culminaram com o seu fim.
Conforme conta o autor, a pesquisa permitiu-lhe reconstituir a trajectória de Uria Simango e, ao mesmo tempo, estruturar todo o seu perfil. Graças a esse procedimento, Timóteo deitou abaixo todas as conotações e carga negativa à volta de Simango. “Pude perceber, ao longo da minha pesquisa, que Uria foi vítima de uma cabala, de uma trama. Em condições normais, uma pessoa com aquele perfil nacionalista jamais mereceria a morte que encontrou”, afirmou o escritor que acaba de abandonar as baixas temperaturas na Europa para vir lançar a sua obra na terra natal.
Um facto curioso. Antes de Adelino Timóteo resolver escrever sobre Uria Simango, primeiro quis retratar em livro a vida do seu pai. Numa dessas ocasiões em que esteve em Lisboa (Portugal), o escritor procurou nos arquivos da PIDE algo que lhe revelasse em que medida o seu progenitor esteve envolvido na luta armada. “A mim também me mataram o pai. Então, quando me vi em Lisboa, quis perceber as razões que levaram à morte do meu pai. “Chegado aos arquivos da PIDE, encontrei uma fotografia do meu pai, mas, em termos de informação, fui confrontado com muita matéria sobre Uria. Assim, compilei toda a informação que encontrei”. Adiando a pretensão de escrever sobre o pai, Adelino Timóteo começou a seguir, entre várias fontes, despachos da PIDE que faziam referência quase diária do que acontecia dentro da FRELIMO. Aí os escritor conheceu as várias faces de Uria Simango: nacionalista, diplomata, religioso e combatente. “Capitalizei isso tudo dentro dos despachos. Uria tinha muitos pseudónimos, como Uria Simanta, Simangão, John Goddy, e era uma figura interessante que encontrava vários meios para ludibriar a PIDE, que o policiava 24h por dia”. A ideia de escrever sobre o pai, morto há mais de quarenta anos, era a de eternizar a sua história. “Sou escritor, mas nem sempre devo escrever sobre ficção. Tenho também de dar aso às minhas inquietações. Com isso, julgo que o livro pode interessar a vários moçambicanos, estudantes e sociedade em geral. De facto, há muita coisa em comum entre Uria Simango e meu pai. Ambos foram mortos por uma causa política, mas nunca explicadas. Eles foram sumariamente executados num estado independente”, afirmou Adelino Timóteo.
O novo livro de Adelino Timóteo tem 200 páginas, e foi escrito entre 2012 e 2014, em Portugal.
Esta primeira publicação de Os últimos dias de Uria Simango sai sob a edição do autor, mesmo porque, de acordo com Adelino Timóteo, toda a gente a quem manifestava o interesse de lançar o livro virava-lhe as costas. “Ainda há muito receio de se falar de Uria Simango, e muita censura. “Mas eu não tenho medo, acho que tenho um compromisso social. Sou moçambicano e muito empenhado. Amo Moçambique e amo os homens. Há necessidade de pacificar, porque muitas pessoas, inclusive as que estão envolvidas em assassínios, não estão bem com elas mesmas”.
Nesta obra, Adelino Timóteo gostava que o leitor encontrasse uma certa pulsação de sentimentos, que o tornou bastante sensível, relacionada com a injustiça de um homem contra outro homem, porque nenhum ser humano tem direito de tirar a vida do outro. “Como diz Gabriel Garcia Márquez, um homem não deve olhar a outro para o rebaixar, mas sim para o ajudar”.
Para o autor, esta é uma obra de escrita difícil, pois teve de ler vários livros sobre Uria, de modo a cruzar informação, inclusive, da CIA e Interpol, no sentido de iluminar algumas zonas de penumbra. “Na ficção há mais liberdade. Aqui não tive a liberdade de dizer o que me aprova, tudo estava condicionado pela informação documental. Fui muito aos arquivos dos jornais desde os anos 60. Foi um trabalho muito minucioso. Poderia ser fácil se as fontes orais colaborassem, mas elas franquearam-me as portas porque têm o receio de sofrer um ajuste de contas”. O País

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