terça-feira, 24 de abril de 2018

Exonerações em Angola não ficam por aqui, diz analista

Em entrevista à DW África, o professor Eugénio Almeida afirma que a exoneração do General Sachipengo Nunda “é natural”. Já a saída do embaixador angolano em Lisboa, poderá ser uma “dica” para Portugal, diz.

O Presidente angolano, João Lourenço, exonerou, esta segunda-feira (23.04), 22 altos responsáveis, sobretudo oficiais superiores, em funções entre o Estado-Maior das Forças Armadas Angolanas (FAA) e a Casa de Segurança, entre os quais, o Chefe do Estado-Maior General das FAA, Geraldo Sachipengo Nunda.
Substituído pelo general António Egídio de Sousa Santos, Sachipengo Nunda, que ocupava este cargo desde 2010, já havia afirmado em novembro de 2017, que era "candidato para a reforma”, pois já havia completado 65 anos – quando a lei do serviço militar diz que o chefe do Estado-Maior General se pode reformar entre os 58 e os 60 anos de idade.
Mais recentemente, em março deste ano, foi constituído arguido num processo de alegada tentativa de burla de 50 mil milhões de dólares ao Estado angolano,  por parte de um suposto fundo tailandês.
Em entrevista à DW África, o analista Eugénio Almeida, afirma que a saída de Sachipendo Nunda do cargo de  Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas "é natural”, não devendo ser entendida como o afastamento do Governo de mais um dos aliados de José Eduardo dos Santos. O também professor do Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa (CEI-IUL) chama a atenção para o facto de algumas das mudanças levadas a cabo no Governo de João Lourenço não poderem ser consideradas "exonerações”, mas sim”recolocações” e afirma que as alterações não ficarão por aqui.
Já no que toca à exoneração de José Marcos Barrica do cargo de embaixador da República de Angola em Portugal, anunciada também esta segunda-feira (24.04), Eugénio Almeida afirma que pode ser "uma dica” de Angola a Lisboa relacionada com a operação Fizz que envolve Manuel Vicente, ex vice-Presidente angolano.

DW África: João Lourenço exonerou hoje o Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, um dos homens fortes do Governo do ex-Presidente José Eduardo dos Santos. Como vê esta exoneração?

Eugénio Almeida (EA): Natural, creio que inclusivamente o general Sachipendo Nunda estava já a atingir o limite de idade e como tal era perfeitamente natural. Acresce, até para salvaguarda da sua integridade militar e moral, que ele supostamente estaria pendente de processo judicial, o que faz com que enquanto estivesse como Chefe do Estado- Maior estaria um pouco condicionado para poder defender-se justamente. Creio que estes dois fatores poderão ter pesado na decisão do Presidente João Lourenço.

DW África: Este general era um dos pesos pesados que ainda restavam no Governo de João Lourenço como herança de José Eduardo dos Santos...

EA: Eu não colocaria a situação nesses termos, até porque logo quando foi da tomada de posse do Presidente João Lourenço, quando ele começou a fazer algumas alterações, e mesmo a nível das Forças Armadas, um dos nomes que logo à cabeça começou a surgir como possível candidato a exoneração ou substituição foi precisamente o Sachipengo Nunda, e isso não aconteceu por duas razões: primeiro porque é um militar que, tal como João Lourenço foi, é respeitado no seio das Forças Armadas e também pelo facto de enquanto João Lourenço foi ministro da Defesa do anterior Governo de José Eduardo dos Santos, ter havido sempre uma relação cordial, e também de amizade, entre os dois. E portanto, penso que isso foi um factor que levou [João Lourenço] a não fazer [a exoneração] logo no momento e esperar pelo momento certo.

DW África: Como avalia os nomes que têm sido escolhidos para substituir estes responsáveis nomeados por José Eduardo dos Santos?

EA: Alguns não têm sido claramente substituições, têm sido mais recolocações. Há casos concretos que sim, foram substituídos por outras pessoas e como tal há que ter em linha de conta aquilo que eram e aquilo que demonstraram para ocupar os cargos que estavam a ocupar. Há outros que, como se tem visto, até ao nível do Governo, têm sido, na opinião do Presidente João Lourenço, recolocados em sítios mais propícios ou que se coadunam mais como a sua situação. Portanto, em muitos casos, eu diria que não tem havido uma substituição mas mais uma recolocação.

DW África:Também foi exonerado hoje o Embaixador de Angola em Lisboa, Portugal...

EA: Sabemos que há, neste momento, um esfriar de relações [entre Angola e Portugal] relacionado com o processo Fizz. Esta poderá ser uma forma do Presidente João Lourenço dar uma indicação ao Ministério dos Negócios Estrangeiros português e ao Governo português que o assunto, ainda que haja total separação de poderes entre a justiça e o governo, mas que o Ministério dos Negócios Estrangeiros pode entrar em contacto com a colega da Justiça e agilizar o assunto, no sentido de verificar quais são as situações. Até por que, como se sabe, cada vez que o processo vai à barra do tribunal vem sempre qualquer coisa nova, e ultimamente as coisas novas relacionam-se com Manuel Vicente ser cada vez mais "branqueado” do que afundado no processo, portanto, pode ser também uma dica a Lisboa nesse sentido.

DW África: Acha que João Lourenço dará por encerradas as exonerações?

EA: Não creio. Para já, a nível de MIREX [ Ministério das Relações Exteriores, o ministro Miguel Augusto já tinha dito que vai haver muitas alterações. Eu sei de casos de pessoas que, em maio ou junho, vai regressar a Luanda e não sabem onde vão ser recolocadas. Portanto, naturalmente haverá sempre rotações, o que implica exonerações e alterações. Quanto a outras exonerações mais específicas, por exemplo a passagem à reserva de Vieira Dias Júnior "Kopelipa" que foi elevado a general e passado à reserva, é um indício de que ainda há muita coisa para ser feita. E depois há a situação em que ele neste momento ainda está constrangido com as normas que o MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola -determina e neste momento quem ainda é presidente do partido é José Eduardo dos Santos e que ele, como vice-presidente do partido, e de acordo com as normas dos estatutos do MPLA, tem de se subordinar ao MPLA, embora procure claramente não estar nesse sentido. DW

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