quarta-feira, 4 de abril de 2018

Ungulani Ba Ka Khosa. “A memória é sempre costurada. É preciso escangalhá-la para abrir caminhos”

Neste novo romance, o escritor moçambicano volta ao personagem de Gungunhana. Agora pela voz e trajetos das suas mulheres

Há uma ideia de que não basta resgatar a memória, é mesmo perceber que a mentira está dentro dela. Para chegar a um vislumbre de uma qualquer verdade é preciso multiplicar as janelas sobre a História, fazer com que a ficção nos devolva a parte do humano que escapou aos relatos oficiais das marchas a passo de ganso.

Quando era criança vi uma vez uma garrafa de vinho do Porto que era a figura do Gungunhana de robe verde e agarrado a uma garrafa de bebida. A imagem que os portugueses davam do Gungunhana era de um homem dissoluto e bêbado. Nos seus livros, ele não é muito diferente.

Não é assim tão diferente. Eu começo este livro com um personagem que usei no “Ualalapi”, em que pela primeira vez mostro uma imagem do Gungunhana muito diferente do discurso oficial [moçambicano], em que ele aparecia como um herói da resistência. No meu livro, ele é um dissoluto que corresponde à imagem popular que ficou dele. Era um grande ditador.

Porquê essa trajetória oficial? Era necessário à FRELIMO reinventar um passado e criar um herói da resistência?

Eu sigo uma linha não oficial, mas parece-me óbvio que a ideia era criar esses pequenos mitos da chamada resistência anticolonial para, depois, isso legitimar a história da gesta nacionalista. O Gungunhana emerge como esse grande mito. Mas para a população que foi espezinhada por este império de Gaza, ele foi sempre um ditador. Acho que é interessante termos estas vozes diferentes sobre a História. É esta diversidade que nos permite não ter uma visão monolítica da História.

Começa, aliás, o livro com duas vozes completamente opostas: Ayres d’Ornelas, que vê em Gungunhana um chefe belo, inteligente e com uma enorme grandeza, e o Dr. Liengne, que lhe chama um bêbado inveterado capaz de todas as bestialidades.

O primeiro, Ayres d’Ornelas, é militar e admira toda aquela organização guerreira; mas o Dr. Liengne, que esteve na corte e o viu como pessoa, achou-o uma criatura pavorosa.

Não há uma certa injustiça nessa apreciação? Não estamos a tirar o homem da época em que viveu? Era comum nos reis europeus, numa certa fase do seu poder, exercerem o poder com uma grande crueldade, como o Ivan o Terrível, por exemplo, para construírem os seus impérios. Aquele império só se mantinha pela força? Não havia nenhuma outra forma de coesão e legitimidade?

Estamos em sintonia. O que eu quis, na verdade, foi entrar pelo lado do homem, e não na versão que ficou na História. Eu, quando comecei a escrever os meus livros, era professor de História, e na altura dava o império de Gaza em cerca de seis aulas. No livro tentei dar uma outra versão, uma que fosse além das obras da historiografia oficial, que fosse para além até dos factos históricos e que fosse capaz de dar o lado humano e pessoal que se esconde por detrás dessas narrativas. Acho que, se há a possibilidade de abrir várias janelas na História, isso é que é positivo.

Uma das coisas que coloca no livro é que a memória é sempre palco de um combate mas, mesmo sendo “pura”, ela é sempre, de alguma forma, mentira, como quando cita a frase de Kundera em que este diz que se deve criticar os que deformam o passado, mas não se deve esquecer que mesmo a memória humana falsifica esse passado.

A memória é sempre costurada. Por vezes é preciso escangalhar tudo para abrir outros horizontes, janelas e caminhos. A literatura joga um papel fundamental nisso, para conseguir de alguma forma ultrapassar os alinhamentos da História, que é uma ficção controlada, como dizia Agustina Bessa-Luís. A literatura abre as portas e as janelas.

A sua vinda para o campo da literatura tem que ver com o seu convívio em Cabo Delgado e Niassa com a realidade dos campos de reeducação e a necessidade de escutar outras versões da História, dessas pessoas que estavam detidas. 

Essa experiência foi logo no início quando fui colocado, em 1978, quando comecei a trabalhar na província mais a norte, o Niassa, uma província normalmente desconhecida e esquecida. Até se dizia no tempo colonial: “O Niassa, esse desconhecido.” E confrontei-me lá com outras realidades que não havia nas páginas dos jornais, que eram os campos de reeducação para transformar o homem. E a realidade com que me deparei era bastante cruel. É óbvio que eu não fui para os campos, mas a capital da província, Lichinga, era uma zona de trânsito quer dos que vinham dos campos, quer ainda os que iam para os campos. E essa realidade marcou-me, eu era jovem, tinha 20 ou 21 anos, de tal maneira que senti a necessidade de aprender e escrever para um dia poder dar voz a essa realidade. Mas não foi o tema da minha primeira obra. Só consegui escrever sobre isso muito tempo depois. O meu primeiro livro [”Ualalapi”, de 1987] é já sobre Gungunhana.

Naquela altura, a existência de campos de reeducação não estava afastada de uma perspetiva de engenharia social. Lembro-me que havia noutras áreas ideias de reorganizar a vida dos camponeses com as chamadas aldeias comunais, por exemplo.

Havia a tal engenharia social, como diz, um termo muito bonito. Isso era uma perspetiva que o governo tinha de urbanizar o campo, o que era muito difícil. Como sabe, da perspetiva do próprio camponês existe essa grande ligação à terra que torna muito difícil retirá-lo daquele espaço. Isso foi um sistema que também falhou. Os campos de reeducação tinham outra perspetiva: propunham--se acabar com a prostituição, a criminalidade e outros comportamentos através do confinamento e da reeducação das pessoas. Sem critério nenhum, levavam as pessoas, destituíam-nas de tudo o que lhes conferia a sua cidadania e direitos, ficavam até sem os documentos. De 1975 até 84 houve um grande período de grande destabilização social. Nas grandes cidades, como Maputo e Beira, as pessoas não sabiam da dimensão dessa realidade que então se vivia nas províncias. A mim, marcou-me isso até hoje. Mas demorei a escrever sobre isso. Não sabia como pegar o assunto. Só depois, no “Entre as Memórias Silenciadas”, 2013, é que venho a pegar no assunto e retratar esse mundo.

É também por isso que se entende que tendo começado a luta da FRELIMO em Cabo Delgado e nas províncias mais distantes, a RENAMO também vá aparecer aí?

A RENAMO começa fundamentalmente na zona centro. Mais tarde há a tentativa da RENAMO de libertar os presos dos campos de reeducação, como o Uria Simango [pastor presbiterano que chegou a vice-presidente da FRELIMO e que foi preso e executado depois da independência, quando era dirigente do Partido da Convergência Nacional, alegadamente criado pelo agente de Salazar Jorge Jardim] e a esposa, entre outros. Não há dados que possam comprovar, mas terá havido uma tentativa de os resgatar desses campos. Os campos dos presos políticos estavam todos no Niassa. Diz-se que eles foram liquidados para que não pudessem vir a incorporar as forças da RENAMO. Não há dados que possam comprovar isso porque a história oficial não se refere e esconde esse tipo de acontecimentos, de tal modo que sobre a liquidação dos opositores da FRELIMO nunca foi dada nenhuma justificação.

A certa altura coloca um discurso final no Gungunhana em que ele, depois da queda, amaldiçoa os seus inimigos e prevê as desgraças que se vão suceder depois, acabando por dizer que as terras a que corresponde hoje Moçambique nunca terão paz, nem depois de os negros voltarem a mandar. Estão condenados?

Temos 42 anos de independência, já se vislumbra este espaço de paz para Moçambique. Agora, na zona dos grandes recursos, como Cabo Delgado, começam a surgir alguns pequenos focos que dizem estar ligados a gente com os mesmos princípios do Daesh. Se não se tomarem medidas, voltaremos a ter um conflito.

Existem muitos muçulmanos em Moçambique.

Quase toda a região norte, sobretudo a parte costeira, é islamizada, tem uma forte presença de muçulmanos. Sobretudo Nampula, Cabo Delgado e parte do Niassa. Isso deve-se ao facto de o Índico ser uma espécie de zona de trânsito do comércio e das pessoas.

Na segunda parte do romance reinventa uma memória, recriando a vida das mulheres do Gungunhana depois da sua prisão. Porque sentiu essa necessidade?

Quando estive aqui em 2014, para o lançamento do “Chiriro”, disse ao meu editor [João Rodrigues] que queria escrever sobre as mulheres do Gungunhana, porque sabia que umas quatro delas tinham regressado a Moçambique. Na altura comecei a fazer uma investigação para tentar saber quem eram elas. Em 2015, quando voltei cá, depois de já ter anunciado em Moçambique que ia escrever sobre as mulheres do imperador, eu já estava à rasca, não conseguia descobrir nada sobre elas. A coisa não deslocava. Não encontrava nada sobre elas nos arquivos de Moçambique e de São Tomé.

Coloca mesmo no romance que o editor do jornal, que era mestiço, não noticia o regresso das mulheres a Moçambique. 

Isto apesar de os jornais terem o hábito de noticiar os passageiros que desembarcavam. Foi o João Rodrigues que depois me conseguiu fazer chegar os documentos dizendo quais foram as mulheres que tinham regressado. Foi a partir de 2016 que comecei a trabalhar. Até um historiador brasileiro que fez uma tese em Moçambique não percebia o meu esforço e dizia: “Isto é ficção, podes colocar o que quiseres.” E eu contrapunha que pelo menos alguns factos verdadeiros deviam estar na base dessa ficção. A partir dos nomes reais consegui entrar e começar a escrever. Já tinha o cenário de São Tomé: tinham estado na roça tal, e a partir da roça eu podia fazer com que viajassem para Moçambique.

Foi complicada essa colocação dentro da cabeça das mulheres?

Foi um pouco. Elas eram quatro e tinha de encontrar diferenças neste mundo feminino. Mas acho que elas me acompanharam e permitiram que eu pudesse caminhar. Senti-me feliz por estar com elas e levá-las até Maputo [Lourenço Marques na altura]. Uma coisa interessante: Ler+

Sem comentários:

Enviar um comentário