domingo, 10 de junho de 2018

De onde veio o extremismo islâmico que ameaça Moçambique?

Há meses que se registam vários ataques com carimbo radical islâmico no Norte de Moçambique. Só agora as atenções se viram para este problema que nasceu de dentro. 

Nas últimas duas semanas dois ataques no Norte de Moçambique, que fizeram quase 20 mortos, fizeram soar os alarmes.
Ambos apresentaram traços de extremismo islâmico, cuja presença nesta região era desconhecida para muitos. Mas os sinais de alerta começaram há pelo menos um ano e, se a situação se expandir, tal como vem acontecendo, estão até em risco investimentos que ascendem aos milhares de milhões de dólares numa das zonas mais pobres de África Oriental.

No início da semana passada, pelo menos sete pessoas foram mortas por atacantes armados com catanas no distrito de Macomia, na província de Cabo Delgado, que faz fronteira com a Tanzânia. Os atacantes incendiaram mais de cem casas.
As autoridades suspeitam que estes atacantes pertençam ao mesmo grupo que, a 27 de Maio, decapitou dez pessoas na cidade de Palma, também em Cabo Delgado.
Estes dois ataques não estão incluídos nos outros 20 contabilizados pelo Consórcio de Pesquisa e Análise Terrorista (TRAC), que ocorreram desde o início deste ano em Moçambique e que tiveram elementos de extremismo islâmico.
A sombra do radicalismo islâmico paira sobre aquele país há mais tempo. E a violência que daí decorre também.

 Quem são 

A população local apelida-os de “al-Shabab” (“juventude”). Porém, não há qualquer ligação directa conhecida com o grupo terrorista com a mesma denominação que actua na Somália. Porém, de acordo com um estudo publicado em Maio da autoria do clérigo muçulmano Saide Habide e dos académicos João Pereira e Salvador Forquilha, o grupo suspeito de ser o responsável pelos ataques em Moçambique denomina-se Ahlu Sunnah Wa-Jammá (adeptos da tradição profética e da congregação).
Segundo este estudo, o grupo nasceu como uma organização religiosa, num país onde cerca de 20% da população é muçulmana — apesar de a comunidade islâmica garantir que a percentagem é maior —, na remota região rural do Norte de Moçambique. A partir do final de 2015, o grupo começou a incorporar células militares e levou a sua actuação para outro patamar. Calcula-se que a organização conte com cerca de cem células, sendo impossível contabilizar quantos militantes tem nas suas fileiras.
No início de Outubro de 2017, o grupo islamista começou a fazer sentir a sua presença com um ataque contra esquadras da polícia e edifícios governamentais e civis, no distrito de Mocímboa da Praia, em Cabo Delgado.
Em Dezembro desse ano, as tropas moçambicanas bombardearam a vila de Mitumbate, em Mocímboa da Praia, matando 50 pessoas. Outras 200 pessoas foram detidas. Até Março deste ano, quase 500 pessoas foram detidas por suspeitas de ligação ao grupo radical, sendo muitas delas estrangeiras.
As autoridades deram por esta altura a situação como controlada, tentando afastar quaisquer tipo de receios. Os dois últimos ataques vieram desmenti-los.
Os objectivos do Ahlu Sunnah Wa-Jammá são semelhantes à generalidade das organizações terroristas islâmicas. Querem impor a sua versão ultraconservadora da sharia (a lei islâmica), lutando contra as comunidades locais e contra o Governo que, dizem, não respeitam os verdadeiros ensinamentos do profeta Maomé.
O grupo dominava duas mesquitas em Mocímboa da Praia. E como notam os analistas Gregory Pirio, Robert Pittelli e Yussuf Adam num artigo publicado pelo think-thank African Center for Strategic Studies, “as crianças que estudaram nestas e noutras mesquitas fundamentalistas surgidas nos últimos anos, chegaram à idade de participação nas milícias”.
Há meses que se registam vários ataques com carimbo radical islâmico no Norte de Moçambique. Só agora as atenções se viram para este problema que nasceu de dentro.
No ano passado, as autoridades encerraram estas mesquitas, mas pode ter sido demasiado tarde. Segundo o estudo dos três investigadores, o recrutamento é feito directamente nas zonas rurais desta região moçambicana. Há porém relatos de vários jovens se juntarem à organização voluntariamente. Muitos partem para países como a Tanzânia, o Quénia ou Somália, através de recursos próprios ou de bolsas de estudo fictícias, para aí serem treinados.

Objectivos ocultos 

Apesar de objectivos mais gerais que se inspiram na jihad internacional, os autores do estudo dizem que a verdadeira meta é outra: “O objectivo último não é ocupar Cabo Delgado ou criar um estado islâmico no Norte do país. O objectivo é criar oportunidades de negócio para as elites informais da região de Cabo Delgado. Pelo menos, os dados assim o mostram. De acordo com os interesses regionais e internacionais destes negócios ilícitos, estes são os objectivos imediatos”.
O estudo toca em vários pontos que podem explicar a presença e expansão do Ahlu Sunnah Wa-Jammá em Moçambique.
A província de Cabo Delgado é um caldeirão onde estão praticamente todos os ingredientes necessários à proliferação do radicalismo: tem a maior taxa de iliteracia de Moçambique, atingindo em média os 64.8%, sendo que em cidades como Palma chega aos 90%; a taxa de desemprego, principalmente jovem, é muito elevada, tal como no resto do país; há forte presença do crime organizado (e da corrupção), especialmente o tráfico de droga, de armas e de outros produtos como os rubis, a madeira ou o marfim, materiais em abundância na região; há conflitos étnicos, nomeadamente entre os mwani, os makonde e os makua.
Recentemente foram descobertas algumas das maiores reservas de gás do mundo nesta região. Alguns analistas dizem que esta descoberta pode tornar Moçambique o terceiro maior exportador mundial de gás natural liquefeito.
A província de Cabo Delgado transformou-se imediatamente no alvo de planos de avultados investimentos para a extracção não só de gás mas também de petróleo, safiras e rubis.
Com a perspectiva da entrada de milhões, a esperança na resolução dos problemas de região aumentou. No entanto, a chegada das empresas internacionais não gerou grande compensação para os cidadãos, nem fez reduzir a taxa de emprego, apesar das construções que estão planeadas.
Alex Vines, analista da Chatham House, diz à Al-Jazira que este boom só aumentou a percepção da desigualdade em Cabo Delgado o que que, em última análise, “tem sido uma das causas para o crescimento da militância jovem”.
Para piorar o clima, têm aumentado as acusações de violações dos direitos humanos por parte das empresas que ali se estabeleceram, incluindo suspeitas de expropriação ilegal de terras. Os negócios e as desigualdades podem ajudar a explicar o alastrar do radicalismo no Norte de Moçambique. Ao mesmo tempo, os ataques do grupo radical islâmico estão a pôr esses negócios em risco. O que pode não ser uma boa notícia para o país — segundo a Bloomberg, estão em risco cerca de 30 mil milhões de dólares em investimento.
Mocímboa da Praia e Palma, locais onde se iniciou a vaga de violência, estão a apenas 80 quilómetros das reservas de gás que estão a começar a ser exploradas por empresas como a Eni, ExxonMobil e a Anadarko. Algumas destas organizações começaram já a retirar trabalhadores, temendo mais ataques.
“Este problema não vai desaparecer e está a tornar-se cada vez mais um problema regional”, diz à Bloomberg Nigel Morgan, director da Rhula Intelligent Solutions, empresa sediada em Maputo e que presta serviços de gestão de risco a multinacionais. “Isto é um risco para os investidores de petróleo e gás em Cabo Delgado”.

Raízes históricas 

O historiador Eric Morier-Genoud propõe olhar para trás para encontrar explicações para este fenómeno. “O Islão tem uma presença muito antiga em Moçambique, particularmente na costa e nas zonas Norte do país. Existiram vários sultões e xeiques antes de Portugal ocupar o território no final do século XIX”, escreve num artigo de 2017 publicado no site de notícias independente The Conversation.
Depois da independência moçambicana em 1975, e da consequente instauração do marxismo-leninismo no país pelas mãos da Frelimo, todos os credos foram reprimidos, mas o islamismo com particular intensidade.
Apesar de o país ter avançado para o multipartidarismo e para a tentativa de pacificação com as comunidades religiosas (uma das medidas foi o reconhecimento dos feriados muçulmanos), a população muçulmana nunca deixou de se sentir marginalizada em relação ao resto da população. Assim, este sentimento de insatisfação encontra-se num ciclo crescente desde há anos e, agora, com todos os problemas económicos e sociais que afectam as populações de maioria muçulmana no Norte de Moçambique, o terreno ficou aberto para o radicalismo.
Os três analistas do African Center for Strategic Studies dizem que com as “narrativas de vingança actuais, é um desafio desfazer os ressentimentos para encontrar uma solução negociada”. Além disso, os autores referem que “os militantes justificam as suas acções com uma posição de superioridade moral” afirmando-se “vitimizados e humilhados”. Explicam que também as forças de segurança se sentem “lesadas e vitimizadas”. “Isto cria um cenário no qual o ciclo vai apenas escalar”.
Morier-Genoud defende que o “Governo tem de preparar uma resposta cuidadosa e bem preparada para esta nova ameaça”.
O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, e o Governo têm sido criticados pela ausência de resposta política a este problema. E para o próximo ano estão marcadas eleições gerais (presidenciais e legislativas) e provinciais. Para além das autárquicas, que estão agendadas para Outubro deste ano. Público

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