terça-feira, 24 de julho de 2018

Autárquicas em Maputo: Antevisão de uma disputa renhida

Analistas dizem que o cenário das eleições continua a ser de incerteza na capital moçambicana, perante as últimas movimentações no "xadrez político", como o anúncio de Venâncio Mondlane como cabeça de lista da RENAMO.

Aumenta a expectativa em relação às próximas eleições autárquicas, à medida que se ultima o processo de escolha dos candidatos a cabeças de lista das formações políticas concorrentes.
Analistas ouvidos pela DW África destacam que os cenários possíveis quanto aos resultados destas eleições continuam a ser  de incerteza, quando faltam apenas cerca de dois meses e meio para a realização do escrutínio.
As formações políticas concorrentes nas eleições autárquicas de 10 de Outubro já estão a divulgar timidamente os cabeças de lista, numa altura em que se aguarda o anúncio do prazo para a apresentação das candidaturas à Comissão Nacional de Eleições.
A grande expectativa em relação ao desfecho  destas eleições reside no facto de que, pela primeira vez desde 2008, todos os partidos vão participar no próximo pleito eleitoral depois do boicote do maior partido da oposição, a RENAMO.

Frenesim na capital

Os últimos dias foram marcados pelo anúncio por parte da RENAMO de que a sua lista de candidatos a edis inclui três figuras influentes que abandonaram o MDM, nomeadamente o atual edil de Quelimane, Manuel de Araújo, e os deputados Venâncio Mondlane e Ricardo Tomás, que vão concorrer, respetivamente, pelos municípios de Maputo e Tete.
Por seu turno, o comité da cidade da FRELIMO terá submetido à Comissão Política três nomes para a escolha do candidato a edil de Maputo: Eneas Comiche, atualmente deputado e antigo presidente do município desta cidade, Fernando Sumbana, ex-ministro do Turismo, e Razaque Manhique, vice-presidente da Assembleia Municipal.
O analista Moisés Mabunda considera que é difícil prever o desfecho das eleições em Maputo, esperando-se uma disputa muito renhida. "Se olharmos para o discurso da FRELIMO, por exemplo,  ainda capitaliza muito o factor de ter trazido a independência. Ora, o grosso do eleitorado, hoje, já não é propriamente aquele que vem de antes da independência", considera Mabunda. Para o analista, "Venâncio  Mondlane [candidato da RENAMO]  é um jovem, tem um discurso novo, tem uma mensagem diferente  e portanto será interessante ver como é que se vai situar".
Este facto explica, por exemplo, o frenesim que se regista na indicação do candidato da FRELIMO na capital, acrescentou Moisés Mabunda.

Aposta na FRELIMO

Já o analista Egídio Vaz não tem dúvidas de que, mesmo com Venâncio Mondlane como candidato da RENAMO, a FRELIMO vai ganhar as eleições na capital não só por razões históricas mas também porque "o desempenho da RENAMO, nos últimos 20 anos, tem sido muito fraco em termos de crescimento ao nível da cidade de Maputo".
Egídio Vaz lembra que "neste momento, [a RENAMO] situa-se  mais ou menos nos 16% e, no máximo, de 20 a 25%".
"Não julgo que a RENAMO seja capaz de sair desta tendência para eventualmente duplicar. Se fosse uma coligação, até poderíamos pensar em outros cenários", acrescenta.
Egídio Vaz vai mais longe, considerando que, ao nível do país, a FRELIMO e a RENAMO vão dividir entre si os municípios, enquanto o MDM vai perder as eleições ou, no mínimo, não irá aumentar o número das actuais autarquias sob a sua governação.
"Se tivermos em conta os resultados das ultimas eleições gerais, está muito mais que claro que,  por exemplo, Quelimane, Gurué, Milanje, Nampula, todos estes municípios antes dominados pelo MDM vão passar automaticamente para a RENAMO. Ficará uma grande incógnita se fica com o MDM ou se gravita para a RENAMO ou para a FRELIMO", considera.

Um sistema bipartidário?

Egídio Vaz defende que a RENAMO está decidida a enfraquecer outros partidos da oposição para se instituir em Moçambique um bipartidário, ou seja um regime democrático onde apenas dois partidos, a FRELIMO e a RENAMO, vão alternar entre  si o poder.
De igual modo, o analista Moisés Mabunda  admite que o MDM vai ressentir-se da deserção de figuras influentes do partido para a RENAMO nas eleições que se avizinham.
"Trata-se de figuras de muito peso que davam outra consistência ao MDM. Penso que isto vai ressentir-se grandemente dentro do próprio MDM, porque não há nenhuma força, nenhuma instituição que perde figuras de peso e se mantem no mesmo ritmo, na mesma performance, e na mesma produtividade", diz o analista.
As próximas  eleições autárquicas vão decorrer num contexto em que se registam divergências no seio da FRELIMO no processo para a escolha dos candidatos a cabeças de lista. Informações indicam que a proposta do Comité da cidade de Maputo exclui figuras como Samora Machel Júnior, filho do primeiro Presidente do Moçambique Independente.
Júnior é citado como estando a considerar a possibilidade de manter a sua candidatura por outras vias, caso a decisão da Comissão Política não recaia sobre si. DW

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