por Ana Cristina Câmara com Pedro Guerreiro
Se Hugo Kalumbo pudesse estar frente a frente com José Eduardo dos Santos, dir-lhe-ia apenas que «viesse a público pedir desculpa ao povo angolano pela sua incapacidade de cumprir o papel de Presidente e que deixasse o cargo à disposição dos que têm vontade de governar, de servir – e não de se servir».
O activista cívico de 23 anos foi um dos organizadores da manifestação de 22 de Dezembro, em Luanda, que exigia saber o paradeiro de dois companheiros desaparecidos em Maio de 2012. Kalumbo e outras sete pessoas foram detidas durante seis dias por alegados distúrbios na via pública e danos patrimoniais. Todos vão aguardar julgamento em liberdade.
Descontente com a situação política e social em Angola, Kalumbo e outros activistas fundaram, em 2011, o Movimento Revolucionário (MR), que organizou a manifestação contra o Governo de 7 de Março de 2011 e a subsequente marcha, a 2 de Abril do mesmo ano, pela liberdade de expressão no país. Na internet, contam com o site Central 7311 (em homenagem à manifestação de 7 de Março), plataforma online para dar voz aos insatisfeitos. «Não temos um número exacto, mas em Luanda seremos cerca de dois mil», adianta Kalumbo ao SOL.
Um movimento cívico
Salomão ‘Alemão’ Francisco, de 25 anos, outro detido do dia 22 de Dezembro, juntou-se ao MR na manifestação de 2 de Abril: «Revi-me nos ideais. É a questão da democracia, da liberdade, da paz, de ter água, luz eléctrica, mais educação, mais justiça social», relata. O jovem trabalhador e estudante, que quer «fazer parte deste grupo mesmo apanhando porrada e indo preso», esclarece que o MR «tem membros de todos os partidos políticos e membros apartidários». «São sobretudo jovens», conta.
À descrição, o colega Gabriel Chakussanga, ligado ao MR desde a sua fundação e também detido a 22 de Dezembro, acrescenta que o Movimento Revolucionário está representado «no Uíge, Benguela, Huambo e Luanda, não tem um líder nem contribuições financeiras de nenhum partido».
As duas versões da manif
O dia 22 de Dezembro começou com a concentração de cerca de 300 pessoas no Largo da Independência, em Luanda. A marcha, autorizada pelas autoridades, deveria ter seguido até ao Palácio da Justiça – mas, antes de chegarem ao destino, os manifestantes foram interceptados pela polícia antimotim, na Rua Presidente Marien Ngouabi, na Maianga.
Hugo Kalumbo estava na frente da manifestação, a «manter calmos os companheiros e a tentar localizar o responsável pela operação policial».
Segundo o activista, que já foi sete vezes detido, a Polícia «começou a espancar, com porretes, alguns manifestantes». Seguiram-se «lançamentos de bombas de gás lacrimogéneo, balas de borracha que atingiram manifestantes e balas reais, mas só para o ar».
Ao SOL, o comandante-geral da Polícia Nacional, Ambrósio de Lemos, defendeu a detenção dos suspeitos. O responsável declarou que a força foi levada a intervir após «actos de vandalismo como o arremesso de pedras contra viaturas e a obstrução da circulação» na Rua Presidente Marien Ngouabi. Ambrósio de Lemos negou ainda que a marcha pelo centro de Luanda tivesse decorrido sem acompanhamento policial. «Foram acompanhando à distância». Sol
ana.c.camara@sol.pt
pedro.guerreiro@sol.pt
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
Quando objectivos políticos escusos instrumentalizam uma causa justa
Aceite os meus agradecimentos pelo espaço que me concedeu, para a publicação da minha opinião sobre a anunciada greve dos médicos.
a) Passou a pagar um subsídio mensal de 2.000 USD (dois mil dólares norte-americanos), designado “topping up”, sobre o salário dos médicos especialistas que trabalham fora da cidade de Maputo;
b) Concluiu e submeteu a aprovação do governo, o estatuto do médico (que neste momento aguarda aprovação na Assembleia da República);
c) Como forma de melhorar a renda dos seus profissionais, passou a autorizar, a todos os hospitais, o atendimento personalizado, depois de cumprirem com zelo o atendimento público normal;
d) Autorizou que os médicos pudessem exercer actividade de carácter privado, fora do horário de trabalho;
e) Vários médicos beneficiaram de isenções fiscais na importação de viaturas pessoais; e
f) Passou a atribuir um subsídio de almoço (1.8), e casa própria, de função, aos médicos que trabalham nos distritos.
Estes progressos mostram que o ministério está consciente da necessidade de melhorar o quadro socioprofissional dos trabalhadores da saúde.
Mostram que há um diálogo permanente, e construtivo, entre o ministério e os seus colaboradores, sobretudo o entendimento recíproco de que as conquistas devem ser progressivas e, dentro de um quadro económico-financeiro, sustentável, ou seja, não se pode dar o que não há. – mesmo que sejam passaportes diplomáticos, o direito à não revista nos aeroportos, o direito de conduzir nas estradas em contra-mão, etc.
É considerando esta premissa que o presente movimento reivindicativo não pode deixar de ser visto como uma operação política que visa a desestabilização do Estado, e suas instituições, agora que se aproximam momentos eleitorais. Se ele não for travado os seus cabecilhas galvanizam-se penetrando, depois, a educação, a polícia, o transporte público, e outros sectores vitais, provocando a ingovernabilidade e o caos, no país.
Ele está claramente na esteira dos governos de transição, e outros estratagemas da mesma índole, que visam o poder, fora do quadro democrático.
A liderança da associação médica, a mando de um lobbie que, ou ela não percebe, ou ela abraça conscientemente, faz da justa luta dos médicos (profissionais honestos que fazem das tripas o coração, quando se trata de salvar vidas) um trampolim para objectivos políticos escusos, alheios aos interesses da classe. Em termos mais populares, alguém toma a dor do parto da senhora para parir ratos e quejandos, e não o fruto de uma gestação humana normal e, ainda diz ao pai da aberração: é tão parecido contigo!
É perante este quadro que a ANEMO, com muita maturidade, decidiu distanciar-se da greve. Os enfermeiros perceberam, acima de tudo, que um médico que valha não os exclui da sua luta, seja ela qual for, que um médico não precisa de passaporte diplomático, a não ser que a sua ONG queira fazer contrabando internacional, que nesta época de luta contra o terrorismo ninguém deve escapar ao scan nos aeroportos, mesmo que isso represente mostrar o tamanho dos seus genitais.
É justa a luta dos médicos, é justo, responsável e comedido, o esforço do MISAU para proporcionar melhores condições de vida e de trabalho aos seus profissionais, num sistema onde, ao nível do seu melhor hospital, morre em média uma pessoa em cada meia hora.
Do ponto de vista ético não posso convocar uma greve para um sector que não sirvo, a não ser que seja eu um partido político da oposição. Não posso convocar uma greve estando eu a servir, com zelo, um outro patrão, ainda por cima, uma ONG estrangeira. Um médico deve ter ética. Essa é uma condição sine qua non para o exercício dessa nobre profissão, e inspirar confiança aos pacientes cujas vidas estão em suas mãos. Notícias
- Samuel Mahazula
sábado, 5 de janeiro de 2013
"Moçambique é como um castelo de cartas que pode cair ao mínimo sopro"
Ana Dias Cordeiro
Querer saber se a Renamo tem armas seria o mesmo que perguntar “Quem matou Kennedy?” diz o académico moçambicano Elísio Macamo. “Nunca vamos ter resposta.” Mas apesar da fragilidade do país e das ameaças de Afonso Dhlakama, não acredita num regresso à guerra em Moçambique.
A África de muitas latitudes tem também várias camadas. Como o mundo inteiro. Ou um país apenas: Moçambique. África pode ser ilusão. Pelo menos como a conhecemos, ou seja, sob a forma de narrativas muito simples que escondem os efeitos acumulados de uma história complexa. As palavras são do académico moçambicano do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Basileia na Suíça Elísio Macamo que agarra esta imagem para explicar A Ilusão da África conhecida – título da sua apresentação em Lisboa na conferência O tratamento dado à informação sobre África pelos media inserida no programa Próximo Futuro da Fundação Calouste Gulbenkian no fim de Novembro.
Elísio Macamo falou mais tarde ao PÚBLICO desse fio de narrativas com o qual criamos “a ilusão que entendemos Moçambique”; da oposição política da Renamo que, nos 20 anos dos Acordos de Paz assinados a 4 de Outubro de 1992 em Roma, ameaça voltar à guerra; e de uma Frelimo dominante, produto de uma ideia fantástica porque sobre ela se projectam medos e esperanças. Uma Frelimo com um rosto: Guebuza que deixa a presidência do partido e do país em 2014. O sucessor (daquele que sucedeu a Joaquim Chissano) será uma escolha dentro da Frelimo. “Não da maioria, de uma minoria influente.”
Se a Frelimo é fantasia, será a Renamo ilusão? Ilusão por existir sem perspectiva, pelo menos para já, de vencer eleições gerais. “A Renamo não é uma ilusão”, salienta Elísio Macamo. Mas é à luz da ilusão e da fantasia que o académico doutorado em Sociologia olha para o seu país. As suas respostas podem ter “várias dimensões”; e a mesma pergunta receber um “sim” e um “não”. Como a questão de saber se as ameaças da Renamo, nos últimos meses, de um regresso à luta contra a Frelimo são para levar a sério. “Sim e não.”
Do lado do sim: “Moçambique é uma construção muito frágil. É como um castelo de cartas que pode cair ao mínimo sopro. Qualquer pessoa, qualquer grupo de pessoas, com vontade e com meios, pode inviabilizar um país como Moçambique. Esse é um perigo real.” Do lado do não: “Muita coisa mudou. A situação na região é muito diferente daquela que tivemos quando a Renamo foi criada, a África do Sul não é a mesma África do Sul, o Zimbabwe não é a Rodésia do Sul. Temos uma situação internacional completamente diferente. Os países que, no passado, deram apoio moral e material à Renamo estão hoje mais interessados em investir em Moçambique. Perante a actual explosão de recursos, ninguém está interessado em apoiar uma rebelião em Moçambique.”
A Renamo não é ilusão. Pelo contrário. “A Renamo existe verdadeiramente. Sentiram-se os efeitos da sua existência com a guerra civil em Moçambique mas também com a abertura do sistema político." A principal motivação da Renamo, porém, “não foi necessariamente” lutar pela democracia. “Essa é uma questão que não precisamos de discutir”, diz Elísio Macamo. O importante, acrescenta, é que “a Renamo existe pelos seus efeitos e esses efeitos são palpáveis”.
Na realidade, explica, “a Renamo foi algo muito mais ligado à geopolítica da região, à Rodésia do Sul, ao apartheid na África do Sul e também à Guerra Fria”. Noutra dimensão, foi mais do que isso. “Ela também se nutriu de problemas reais criados pelo totalitarismo da Frelimo nos anos imediatamente a seguir à independência. Isso também desempenhou um papel muito importante para, ao longo do tempo, conferir um cunho mais moçambicano à rebelião.”
Caixa negra da história
Querer saber se a Renamo tem armas seria o mesmo que perguntar “Quem matou Kennedy?” diz Elísio Macamo. “Nunca vamos ter resposta.” O problema é que às vezes convém ao líder da Renamo dizer que tem armas e outras vezes ao Governo dizer que a Renamo tem armas, refere. E homens? “Ele pode dizer que tem, mas não tem. Eu acho que ele nunca vai fazer nenhuma acção militar.”
Com ou sem alternância política, podemos imaginar estas ameaças da Renamo – a exigir o fim da partidarização do Estado e do domínio da Frelimo e uma alteração da Lei Eleitoral para, segundo diz, evitar fraudes nas eleições – a serem colocadas numa caixa negra que mistura tudo, ora ocultando ora expondo. Uma caixa negra, diz Macamo, que permita apenas a quem tenha acesso a ela entender Moçambique.
Mas entenderemos? Para além do que se vê, há a complexidade de efeitos acumulados do mosaico de acontecimentos passados: “Da história colonial, do namoro que houve em Moçambique com ideologias revolucionárias, de todos os conflitos provenientes da tensão da Guerra Fria. Os efeitos acumulados disso tudo produzem o pano de fundo, uma espécie de caixa negra. Só quem tem acesso a ela, pode entender Moçambique.”
Foi lá que Elísio Macamo nasceu – em Xai-Xai em 1964. Está lá o seu farol. Foi lá que começou os estudos antes de os prosseguir em Inglaterra e Alemanha onde vive.Todos os dias atravessa a fronteira com a Suíça, onde trabalha. É, desde 2009, director do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Basileia onde também é professor e dirige o Doutoramento e o Mestrado em Estudos Africanos. Talvez por isso seja capaz de olhar a Europa e a África quase em espelho, para apontar diferenças e semelhanças à vista de todos mas não vistas por todos.
A possibilidade de alternância
É esse “olhar o todo” que o leva a dizer que a ausência de alternância política não é necessariamente uma coisa má, desde que haja coerência “no agir político” e força da sociedade civil. Não é o que acontece em Moçambique. Mas podia ser. Por isso a sua resposta continua a ser que “a dominação de um partido não tem de ser uma coisa necessariamente má”.
Moçambique terá este ano eleições autárquicas. No próximo realizam-se as legislativas e presidenciais. As quatro últimas eleições gerais realizadas no país desde a paz em 1992 foram ganhas pela Frelimo, primeiro com Joaquim Chissano e depois Armando Guebuza que prepara a sucessão para abandonar o cargo em 2014.
“A alternância para mim é apenas uma possibilidade. A democracia não precisa necessariamente da alternância. A democracia precisa da possibilidade da alternância”, diz. E explica: “Temos experiências disso na Escandinávia, onde depois da II Guerra Mundial, a Suécia ou a Finlândia foram praticamente governadas por um único partido – o Partido Social Democrata.” Acrescenta o exemplo do estado alemão da Baviera governado por um único partido – a União Social Cristã (CSU), irmão da CDU – até 2008 e quase ininterruptamente desde o fim da II Guerra Mundial.
Em Moçambique, no entanto, “a dominação de um partido cria condições para a emergência de uma cultura cívica e política problemática em que as pessoas com melhor formação, por conveniência ou oportunismo, se associam a esta formação dominante e ajudam a perpetuar coisas nocivas para o país”.
Zonas rurais e redes sociais
Com a sua presidência aberta de Norte a Sul do país, Armando Guebuza, eleito pela primeira vez em 2004, tornou-se uma figura popular fora das cidades. Mas é também contestado nos debates e nas redes sociais, como o Facebook, onde se questiona o seu estilo de liderança, os seus interesses empresariais, a falta de transparência e a não distinção entre o público e o privado.
Guebuza sairá antes das eleições de 2014. A questão da sua sucessão foi deixada em aberto no Congresso de Novembro. Mas é ele quem está "numa posição forte para escolher o sucessor”, nota Elísio Macamo. E para a escolha, mais do que a eleição, o que conta é a negociação. “Nunca vai ser uma escolha da maioria. Vai ser sempre a escolha de uma minoria influente."
Pela história recente de Moçambique – com a luta de libertação nacional – e por ser um partido dominante, criou-se “uma ideia fantástica da Frelimo” como “força todo poderosa”, diz o académico. "Porque estamos a viver neste sistema dominado por um único partido, é muito difícil ver que este partido é feito de pessoas, de conflitos…e que não precisam dos desígnios maquiavélicos que temos por hábito projectar sobre eles", considera. "A Frelimo não é aquilo que muitos de nós, em Moçambique, pensamos que é. Com os nossos medos, a nossa autocensura, o nosso oportunismo, produzimos essa ideia fantástica da Frelimo. E é essa ideia que nos governa.” Público
Querer saber se a Renamo tem armas seria o mesmo que perguntar “Quem matou Kennedy?” diz o académico moçambicano Elísio Macamo. “Nunca vamos ter resposta.” Mas apesar da fragilidade do país e das ameaças de Afonso Dhlakama, não acredita num regresso à guerra em Moçambique.
A África de muitas latitudes tem também várias camadas. Como o mundo inteiro. Ou um país apenas: Moçambique. África pode ser ilusão. Pelo menos como a conhecemos, ou seja, sob a forma de narrativas muito simples que escondem os efeitos acumulados de uma história complexa. As palavras são do académico moçambicano do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Basileia na Suíça Elísio Macamo que agarra esta imagem para explicar A Ilusão da África conhecida – título da sua apresentação em Lisboa na conferência O tratamento dado à informação sobre África pelos media inserida no programa Próximo Futuro da Fundação Calouste Gulbenkian no fim de Novembro.
Elísio Macamo falou mais tarde ao PÚBLICO desse fio de narrativas com o qual criamos “a ilusão que entendemos Moçambique”; da oposição política da Renamo que, nos 20 anos dos Acordos de Paz assinados a 4 de Outubro de 1992 em Roma, ameaça voltar à guerra; e de uma Frelimo dominante, produto de uma ideia fantástica porque sobre ela se projectam medos e esperanças. Uma Frelimo com um rosto: Guebuza que deixa a presidência do partido e do país em 2014. O sucessor (daquele que sucedeu a Joaquim Chissano) será uma escolha dentro da Frelimo. “Não da maioria, de uma minoria influente.”
Se a Frelimo é fantasia, será a Renamo ilusão? Ilusão por existir sem perspectiva, pelo menos para já, de vencer eleições gerais. “A Renamo não é uma ilusão”, salienta Elísio Macamo. Mas é à luz da ilusão e da fantasia que o académico doutorado em Sociologia olha para o seu país. As suas respostas podem ter “várias dimensões”; e a mesma pergunta receber um “sim” e um “não”. Como a questão de saber se as ameaças da Renamo, nos últimos meses, de um regresso à luta contra a Frelimo são para levar a sério. “Sim e não.”
Do lado do sim: “Moçambique é uma construção muito frágil. É como um castelo de cartas que pode cair ao mínimo sopro. Qualquer pessoa, qualquer grupo de pessoas, com vontade e com meios, pode inviabilizar um país como Moçambique. Esse é um perigo real.” Do lado do não: “Muita coisa mudou. A situação na região é muito diferente daquela que tivemos quando a Renamo foi criada, a África do Sul não é a mesma África do Sul, o Zimbabwe não é a Rodésia do Sul. Temos uma situação internacional completamente diferente. Os países que, no passado, deram apoio moral e material à Renamo estão hoje mais interessados em investir em Moçambique. Perante a actual explosão de recursos, ninguém está interessado em apoiar uma rebelião em Moçambique.”
A Renamo não é ilusão. Pelo contrário. “A Renamo existe verdadeiramente. Sentiram-se os efeitos da sua existência com a guerra civil em Moçambique mas também com a abertura do sistema político." A principal motivação da Renamo, porém, “não foi necessariamente” lutar pela democracia. “Essa é uma questão que não precisamos de discutir”, diz Elísio Macamo. O importante, acrescenta, é que “a Renamo existe pelos seus efeitos e esses efeitos são palpáveis”.
Na realidade, explica, “a Renamo foi algo muito mais ligado à geopolítica da região, à Rodésia do Sul, ao apartheid na África do Sul e também à Guerra Fria”. Noutra dimensão, foi mais do que isso. “Ela também se nutriu de problemas reais criados pelo totalitarismo da Frelimo nos anos imediatamente a seguir à independência. Isso também desempenhou um papel muito importante para, ao longo do tempo, conferir um cunho mais moçambicano à rebelião.”
Caixa negra da história
Querer saber se a Renamo tem armas seria o mesmo que perguntar “Quem matou Kennedy?” diz Elísio Macamo. “Nunca vamos ter resposta.” O problema é que às vezes convém ao líder da Renamo dizer que tem armas e outras vezes ao Governo dizer que a Renamo tem armas, refere. E homens? “Ele pode dizer que tem, mas não tem. Eu acho que ele nunca vai fazer nenhuma acção militar.”
Com ou sem alternância política, podemos imaginar estas ameaças da Renamo – a exigir o fim da partidarização do Estado e do domínio da Frelimo e uma alteração da Lei Eleitoral para, segundo diz, evitar fraudes nas eleições – a serem colocadas numa caixa negra que mistura tudo, ora ocultando ora expondo. Uma caixa negra, diz Macamo, que permita apenas a quem tenha acesso a ela entender Moçambique.
Mas entenderemos? Para além do que se vê, há a complexidade de efeitos acumulados do mosaico de acontecimentos passados: “Da história colonial, do namoro que houve em Moçambique com ideologias revolucionárias, de todos os conflitos provenientes da tensão da Guerra Fria. Os efeitos acumulados disso tudo produzem o pano de fundo, uma espécie de caixa negra. Só quem tem acesso a ela, pode entender Moçambique.”
Foi lá que Elísio Macamo nasceu – em Xai-Xai em 1964. Está lá o seu farol. Foi lá que começou os estudos antes de os prosseguir em Inglaterra e Alemanha onde vive.Todos os dias atravessa a fronteira com a Suíça, onde trabalha. É, desde 2009, director do Centro de Estudos Africanos da Universidade de Basileia onde também é professor e dirige o Doutoramento e o Mestrado em Estudos Africanos. Talvez por isso seja capaz de olhar a Europa e a África quase em espelho, para apontar diferenças e semelhanças à vista de todos mas não vistas por todos.
A possibilidade de alternância
É esse “olhar o todo” que o leva a dizer que a ausência de alternância política não é necessariamente uma coisa má, desde que haja coerência “no agir político” e força da sociedade civil. Não é o que acontece em Moçambique. Mas podia ser. Por isso a sua resposta continua a ser que “a dominação de um partido não tem de ser uma coisa necessariamente má”.
Moçambique terá este ano eleições autárquicas. No próximo realizam-se as legislativas e presidenciais. As quatro últimas eleições gerais realizadas no país desde a paz em 1992 foram ganhas pela Frelimo, primeiro com Joaquim Chissano e depois Armando Guebuza que prepara a sucessão para abandonar o cargo em 2014.
“A alternância para mim é apenas uma possibilidade. A democracia não precisa necessariamente da alternância. A democracia precisa da possibilidade da alternância”, diz. E explica: “Temos experiências disso na Escandinávia, onde depois da II Guerra Mundial, a Suécia ou a Finlândia foram praticamente governadas por um único partido – o Partido Social Democrata.” Acrescenta o exemplo do estado alemão da Baviera governado por um único partido – a União Social Cristã (CSU), irmão da CDU – até 2008 e quase ininterruptamente desde o fim da II Guerra Mundial.
Em Moçambique, no entanto, “a dominação de um partido cria condições para a emergência de uma cultura cívica e política problemática em que as pessoas com melhor formação, por conveniência ou oportunismo, se associam a esta formação dominante e ajudam a perpetuar coisas nocivas para o país”.
Zonas rurais e redes sociais
Com a sua presidência aberta de Norte a Sul do país, Armando Guebuza, eleito pela primeira vez em 2004, tornou-se uma figura popular fora das cidades. Mas é também contestado nos debates e nas redes sociais, como o Facebook, onde se questiona o seu estilo de liderança, os seus interesses empresariais, a falta de transparência e a não distinção entre o público e o privado.
Guebuza sairá antes das eleições de 2014. A questão da sua sucessão foi deixada em aberto no Congresso de Novembro. Mas é ele quem está "numa posição forte para escolher o sucessor”, nota Elísio Macamo. E para a escolha, mais do que a eleição, o que conta é a negociação. “Nunca vai ser uma escolha da maioria. Vai ser sempre a escolha de uma minoria influente."
Pela história recente de Moçambique – com a luta de libertação nacional – e por ser um partido dominante, criou-se “uma ideia fantástica da Frelimo” como “força todo poderosa”, diz o académico. "Porque estamos a viver neste sistema dominado por um único partido, é muito difícil ver que este partido é feito de pessoas, de conflitos…e que não precisam dos desígnios maquiavélicos que temos por hábito projectar sobre eles", considera. "A Frelimo não é aquilo que muitos de nós, em Moçambique, pensamos que é. Com os nossos medos, a nossa autocensura, o nosso oportunismo, produzimos essa ideia fantástica da Frelimo. E é essa ideia que nos governa.” Público
Angola, paraíso do petróleo e dos bairros de lata
O país da África Austral é o segundo maior produtor de petróleo do continente e deverá começar a exportar gás natural. São os recursos naturais que impulsionam a economia, mas Angola ainda tem muitos contrastes.
Na cidade do Soyo, no norte de Angola, na fronteira do país ocidental africano com a República Democrática do Congo: de dois tubos horizontalmente colocados, sai uma labareda de vários metros de altura. Como na beira desta estrada, existem vários pontos no Soyo onde há queima de gás, um subproduto da exploração petrolífera na região.
Queimar o gás associado encontrado com o petróleo contribui para o efeito estufa, mas é uma das maneiras mais baratas de eliminá-lo. Por isso, todas as noites, as chamas iluminam o céu noturno do Soyo. "Aqui no Soyo, à noite, a cidade toda é escura. Até a pessoa que está a atravessar a rua, não tens o direito de lhe ver porque está escuro. Mas a cidade está cheia de petróleo. Em vez de levar a riqueza, [o petróleo] traz a pobreza", avalia o taxista Luciano Nzombo Madia, de 32 anos, enquanto manobra o pequeno carro ao longo de uma estrada esburacada.
Porém, logo Angola deverá deixar de queimar gás. É que o Soyo é a sede da primeira fábrica angolana de LNG – sigla inglesa de Gás Natural Liquefeito. O complexo de tubos e tanques de resfriamento começou a ser construído em 2008 e foi finalizado em 2012. A unidade tem o tamanho equivalente a cerca de 240 campos de futebol e pode ser considerada um pilar do desenvolvimento de Angola, que em 2002 encerrava uma guerra civil de 27 anos.
A produção do primeiro gás natural liquefeito estava planejada para o primeiro trimestre de 2012. Porém, segundo a DW África apurou no Soyo, a unidade ainda está em fase de testes. Por isso, não pudemos visitar a fábrica, que terá uma capacidade instalada para produzir 5,2 milhões de toneladas de LNG por ano, de acordo com o website da Angola LNG, a sociedade operacional.
Vice-campeão africano na exportação de petróleo, potencial para gás
Queimar o gás associado encontrado com o petróleo contribui para o efeito estufa, mas é uma das maneiras mais baratas de eliminá-lo. Por isso, todas as noites, as chamas iluminam o céu noturno do Soyo. "Aqui no Soyo, à noite, a cidade toda é escura. Até a pessoa que está a atravessar a rua, não tens o direito de lhe ver porque está escuro. Mas a cidade está cheia de petróleo. Em vez de levar a riqueza, [o petróleo] traz a pobreza", avalia o taxista Luciano Nzombo Madia, de 32 anos, enquanto manobra o pequeno carro ao longo de uma estrada esburacada.
Porém, logo Angola deverá deixar de queimar gás. É que o Soyo é a sede da primeira fábrica angolana de LNG – sigla inglesa de Gás Natural Liquefeito. O complexo de tubos e tanques de resfriamento começou a ser construído em 2008 e foi finalizado em 2012. A unidade tem o tamanho equivalente a cerca de 240 campos de futebol e pode ser considerada um pilar do desenvolvimento de Angola, que em 2002 encerrava uma guerra civil de 27 anos.
A produção do primeiro gás natural liquefeito estava planejada para o primeiro trimestre de 2012. Porém, segundo a DW África apurou no Soyo, a unidade ainda está em fase de testes. Por isso, não pudemos visitar a fábrica, que terá uma capacidade instalada para produzir 5,2 milhões de toneladas de LNG por ano, de acordo com o website da Angola LNG, a sociedade operacional.
Vice-campeão africano na exportação de petróleo, potencial para gás
Segundo informações da Organização de Países Exportadores de Petróleo (OPEP), depois da Nigéria, Angola é o segundo produtor de petróleo do continente africano, com uma produção diária de 1,62 milhões de barris. Também segundo a OPEP, Angola possuía 366 mil milhões de metros cúbicos em reservas de gás natural em 2011 – quase 20% do volume conhecido em 2010. Apesar de ter bem menos que a Nigéria (5 biliões), Angola é o quinto colocado em reservas de gás natural no continente africano entre os países listados pela OPEP em seu último relatório (com dados de 2011).
Soyo ainda não produz gás natural, mas já existem compradores interessados, como os Estados Unidos, que querem importar o produto.
No projeto LNG, a exploradora norte-americana Chevron participa com 36,4%, sendo o acionista principal do projeto. A estatal angolana Sonagás é o segundo maior acionista (22,8%), seguida da italiana ENI, da britânica BP e da francesa Total – cada uma detém, respectivamente, 13,6% do projeto.
Os benefícios do "boom" petrolífero...
O chamado "boom" do petróleo mudou muito no Soyo, relata o taxista Luciano. "Antes do início da guerra civil (1975), a estrada ali na frente já estava ruim", diz, mostrando a rua dos bancos na cidade, com asfalto novo. "Com o projeto Angola LNG, tudo foi renovado e muitas pessoas vieram para cá", afirma Luciano, traduzindo em palavras a mudança trazida pelo dinheiro do petróleo, já que logo após a guerra civil angolana era praticamente impossível circular pelo país – hoje, as estradas são transitáveis. "Antes, não havia muita gente no Soyo. Hoje, há pelo menos cinco bancos diferentes", conta Luciano.
Entre 2010 e 2011, Luciano, que é eletricista de formação, participou da instalação de parte dos gasodutos, inclusive aqueles que vão para o fundo do mar. Segundo Luciano, o gás natural será explorado de uma profundidade de até 1.700 metros. Mas, depois que a instalação dos dutos terminou, Luciano perdeu o emprego. Hoje, dirige um táxi que está pagando em prestações para um colega da Igreja Evangélica.
Segundo críticos do governo angolano, o setor petrolífero – que representa 98% das exportações do país – não emprega quase nenhuma população angolana. "Por exemplo, as estatísticas apontam que o setor petrolífero em Angola só representa 0,5% da força ativa de trabalho", diz Elias Isaac, diretor da organização de defesa dos direitos humanos Open Society.
Isaac considera o elogiado crescimento angolano um contrasenso. "Nós estamos a ter um crescimento económico – é só acumulação de capital financeiro. Não é o desenvolvimento e o melhoramento da vida das populações", opina, apesar de considerar que Angola está conseguindo reabilitar as próprias estruturas num curto espaço de tempo – dez anos – depois do fim da guerra civil, em 2002.
"O cessar da guerra aconteceu num momento oportuno porque Angola teve oportunidade de relançar várias estruturas, redimensionar os recursos que iam para o sustento da guerra e relançar a economia local com o regresso de mais de 4 milhões de deslocados internos às suas origens", enumera Isaac.
…vão para quem?
Soyo ainda não produz gás natural, mas já existem compradores interessados, como os Estados Unidos, que querem importar o produto.
No projeto LNG, a exploradora norte-americana Chevron participa com 36,4%, sendo o acionista principal do projeto. A estatal angolana Sonagás é o segundo maior acionista (22,8%), seguida da italiana ENI, da britânica BP e da francesa Total – cada uma detém, respectivamente, 13,6% do projeto.
Os benefícios do "boom" petrolífero...
O chamado "boom" do petróleo mudou muito no Soyo, relata o taxista Luciano. "Antes do início da guerra civil (1975), a estrada ali na frente já estava ruim", diz, mostrando a rua dos bancos na cidade, com asfalto novo. "Com o projeto Angola LNG, tudo foi renovado e muitas pessoas vieram para cá", afirma Luciano, traduzindo em palavras a mudança trazida pelo dinheiro do petróleo, já que logo após a guerra civil angolana era praticamente impossível circular pelo país – hoje, as estradas são transitáveis. "Antes, não havia muita gente no Soyo. Hoje, há pelo menos cinco bancos diferentes", conta Luciano.
Entre 2010 e 2011, Luciano, que é eletricista de formação, participou da instalação de parte dos gasodutos, inclusive aqueles que vão para o fundo do mar. Segundo Luciano, o gás natural será explorado de uma profundidade de até 1.700 metros. Mas, depois que a instalação dos dutos terminou, Luciano perdeu o emprego. Hoje, dirige um táxi que está pagando em prestações para um colega da Igreja Evangélica.
Segundo críticos do governo angolano, o setor petrolífero – que representa 98% das exportações do país – não emprega quase nenhuma população angolana. "Por exemplo, as estatísticas apontam que o setor petrolífero em Angola só representa 0,5% da força ativa de trabalho", diz Elias Isaac, diretor da organização de defesa dos direitos humanos Open Society.
Isaac considera o elogiado crescimento angolano um contrasenso. "Nós estamos a ter um crescimento económico – é só acumulação de capital financeiro. Não é o desenvolvimento e o melhoramento da vida das populações", opina, apesar de considerar que Angola está conseguindo reabilitar as próprias estruturas num curto espaço de tempo – dez anos – depois do fim da guerra civil, em 2002.
"O cessar da guerra aconteceu num momento oportuno porque Angola teve oportunidade de relançar várias estruturas, redimensionar os recursos que iam para o sustento da guerra e relançar a economia local com o regresso de mais de 4 milhões de deslocados internos às suas origens", enumera Isaac.
…vão para quem?
Na capital angolana, Luanda, a riqueza do petróleo é visível com a construção de arranha-céus, guindastes e o incessante barulho de serras cortando metal. A cidade cresce constantemente – no centro, a cada esquina tem-se a impressão que um prédio novo vai brotar do chão, ainda mais alto que o já existente.
Com cerca de cinco milhões de habitantes, Luanda é considerada uma das cidades mais caras do mundo. O aluguel de um apartamento pode custar cinco mil dólares ou mais. Num restaurante, uma refeição simples como um prato de sopa pode chegar a dez dólares.
A sede da petrolífera estatal Sonangol e do Banco Nacional de Angola ficam na Avenida 4 de Fevereiro, uma avenida marginal na Baía de Luanda. A avenida é impecavelmente asfaltada. Nas pistas largas, porém, só circulam poucos automóveis.
Mas, já nas ruas adjacentes, uma imagem recorrente é a do engarrafamento. Em várias ruas, o asfalto é esburacado, os carros avançam lentamente. Travam e avançam, parecendo imitar o funcionamento dos semáforos, que piscam com a luz amarela. Circular por alguns quilômetros já pode significar meia hora de trajeto.
Publicado em 2012, o mais recente relatório das Nações Unidas (ONU) sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, conclui que 37% da população angolana vive em situação de pobreza extrema, com menos de um dólar por dia. A taxa representa uma queda significativa de um terço em relação a 2000, quando a pobreza extrema em Angola atingiu 54%.
Segundo observadores, porém, essa diminuição da pobreza poderia ter sido maior, já que, segundo o Banco Mundial, o PIB per capita dos angolanos ficou oito vezes maior entre 2000 e 2011: passou de 660 dólares para 5.150 dólares. A explicação é simples: enquanto muitos pobres não mudaram de vida, os ricos ficaram muito mais ricos.
Para combater a realidade da pobreza, o vice-ministro angolano, Manuel Vicente, anunciou em novembro de 2012 o novo Plano Nacional de Desenvolvimento para o período entre 2013 e 2017. O objetivo principal do plano é "combater a fome e a pobreza" e assegurar a qualidade de vida dos angolanos. O Orçamento Geral de Estado de 2013 também deverá privilegiar os setores da saúde, da educação, do ensino superior, da habitação e da assistência social – além do setor de energia e águas, para melhorar o acesso da população a estes direitos básicos. Continue lendo aqui.
Com cerca de cinco milhões de habitantes, Luanda é considerada uma das cidades mais caras do mundo. O aluguel de um apartamento pode custar cinco mil dólares ou mais. Num restaurante, uma refeição simples como um prato de sopa pode chegar a dez dólares.
A sede da petrolífera estatal Sonangol e do Banco Nacional de Angola ficam na Avenida 4 de Fevereiro, uma avenida marginal na Baía de Luanda. A avenida é impecavelmente asfaltada. Nas pistas largas, porém, só circulam poucos automóveis.
Mas, já nas ruas adjacentes, uma imagem recorrente é a do engarrafamento. Em várias ruas, o asfalto é esburacado, os carros avançam lentamente. Travam e avançam, parecendo imitar o funcionamento dos semáforos, que piscam com a luz amarela. Circular por alguns quilômetros já pode significar meia hora de trajeto.
Publicado em 2012, o mais recente relatório das Nações Unidas (ONU) sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, conclui que 37% da população angolana vive em situação de pobreza extrema, com menos de um dólar por dia. A taxa representa uma queda significativa de um terço em relação a 2000, quando a pobreza extrema em Angola atingiu 54%.
Segundo observadores, porém, essa diminuição da pobreza poderia ter sido maior, já que, segundo o Banco Mundial, o PIB per capita dos angolanos ficou oito vezes maior entre 2000 e 2011: passou de 660 dólares para 5.150 dólares. A explicação é simples: enquanto muitos pobres não mudaram de vida, os ricos ficaram muito mais ricos.
Para combater a realidade da pobreza, o vice-ministro angolano, Manuel Vicente, anunciou em novembro de 2012 o novo Plano Nacional de Desenvolvimento para o período entre 2013 e 2017. O objetivo principal do plano é "combater a fome e a pobreza" e assegurar a qualidade de vida dos angolanos. O Orçamento Geral de Estado de 2013 também deverá privilegiar os setores da saúde, da educação, do ensino superior, da habitação e da assistência social – além do setor de energia e águas, para melhorar o acesso da população a estes direitos básicos. Continue lendo aqui.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
Jovens em Angola prometem novas manifestações
Jovens do Movimento Revolucionário de Angola não excluem a hipótese de realizar novas manifestações a qualquer momento. Os protestos dos jovens no país incentivam cada vez mais angolanos a sair às ruas, diz jornalista.
Em Angola, o Movimento Revolucionário não descarta a possibilidade de organizar uma nova manifestação contra o governo, mas garante que tal não será para breve. De acordo com o membro do movimento, Hugo Calumbo, agora o momento é de recarregar as baterias.
O grupo organizou uma manifestação no passado dia 22 de dezembro em Luanda para exigir da polícia uma explicação sobre o desaparecimento de Isaías Cassule e Alves Kamulingue, em maio do ano passado, durante uma manifestação contra o regime. Na última manifestação, foram detidos seis membros do Movimento Revolucionário.
O jovem ativista Hugo Calumbo falou à DW África.
Hugo Calumbo (HC): Ainda não está previsto sairmos à rua assim tão cedo. Há várias informações a circular que dizem que vamos sair às ruas daqui a uns dias, mas isso não é verdade. Saímos da cadeia há poucos dias. Estamos a tentar recuperar física e psicologicamente para depois nos engajarmos nos nossos compromissos.
Não está descartada a possibilidade de voltamos a sair à rua a qualquer momento. Mas ainda não há uma data prevista.
DW África: A manifestação, caso seja feita, será legal, tal como a primeira?
HC: Claro que sim. Nós sempre nos pautamos pelo cumprimento da lei. Caso haja uma manifestação, é evidente que nós o vamos anunciar às autoridades competentes, à luz da lei.
DW África: Apesar das manifestações e dos apelos da sociedade civil, a polícia nada diz sobre o paradeiro de Isaías Cassule e de Alves Kamulingue. Acha que eles ainda estão vivos?
HC: Eu, pessoalmente, tenho uma opinião diferente e acredito que ainda estão vivos. Falta apenas um pouquinho mais de pressão por parte da sociedade em geral para reivindicar que se faça tudo para se pronunciar sobre o paradeiro dos nossos companheiros.
Infelizmente, o medo domina a maior parte do povo angolano e, por isso, não temos conseguido arrancar uma resposta positiva por parte das entidades e do governo.
Opinião diferente sobre o destino dos dois desaparecidos tem o jornalista e um dos autores do livro “Os Meandros das Manifestações em Angola", Coque Mokuta:
Coque Mokuta (CM): Eu tenho feito investigações sobre os dois jovens constantemente e acredito que já não estão vivos. Agora, cabe às autoridades trazerem novos dados e informações mais concretas sobre o que na verdade lhes terá acontecido.
Os jovens têm parentes que dão alguma explicação sobre isto. Mas se José Eduardo dos Santos é um bom pai, deverá dar explicações aos seus filhos: "eles estão aí, eles morreram por isso, aconteceu isso com eles…"
Entretanto, momentos muito sensíveis, como o período eleitoral, já passaram e não trouxeram qualquer pista [sobre o paradeiro de Isaías Cassule e Alves Kamulingue]. Por isso é que acredito que eles já morreram.
DW África: As manifestações em Angola terminam quase sempre da mesma maneira. Ou são abortadas, antes mesmo de começarem, ou há detenções ou repressões. Acha que, ainda assim, elas conseguem atingir os seus objetivos?
CM: Os objetivos das manifestações são, normalmente, muito concretos. É, na verdade, para protestar sobre um determinado assunto. Quando os manifestantes dizem que vão protestar sobre o desaparecimento do Kamulingue e chegam até ao 1º de maio e são reprimidos, acabam por chamar a atenção em relação a isso. Por isso, acho que atingem os seus objetivos.
Agora, é de sublinhar que o movimento vai crescendo. As pessoas vão ficando cada vez mais esclarecidas sobre este fenómeno e a população manifestante vai aumentando. Daqui para a frente, as manifestações serão feitas de forma sectorial. Hoje mesmo, aqui na caixa social das Forças Armadas, os ex-militares voltaram a reclamar os seus direitos. Ou seja, os jovens deram uma luz e assim, de forma sectorial, vão existindo vários movimentos, que, possivelmente, ainda se vão alastrar. Deutsche Welle
Autora: Nádia Issufo
Edição: Guilherme Correia da Silva / António Rocha
Em Angola, o Movimento Revolucionário não descarta a possibilidade de organizar uma nova manifestação contra o governo, mas garante que tal não será para breve. De acordo com o membro do movimento, Hugo Calumbo, agora o momento é de recarregar as baterias.
O grupo organizou uma manifestação no passado dia 22 de dezembro em Luanda para exigir da polícia uma explicação sobre o desaparecimento de Isaías Cassule e Alves Kamulingue, em maio do ano passado, durante uma manifestação contra o regime. Na última manifestação, foram detidos seis membros do Movimento Revolucionário.
O jovem ativista Hugo Calumbo falou à DW África.
Hugo Calumbo (HC): Ainda não está previsto sairmos à rua assim tão cedo. Há várias informações a circular que dizem que vamos sair às ruas daqui a uns dias, mas isso não é verdade. Saímos da cadeia há poucos dias. Estamos a tentar recuperar física e psicologicamente para depois nos engajarmos nos nossos compromissos.
Não está descartada a possibilidade de voltamos a sair à rua a qualquer momento. Mas ainda não há uma data prevista.
DW África: A manifestação, caso seja feita, será legal, tal como a primeira?
HC: Claro que sim. Nós sempre nos pautamos pelo cumprimento da lei. Caso haja uma manifestação, é evidente que nós o vamos anunciar às autoridades competentes, à luz da lei.
DW África: Apesar das manifestações e dos apelos da sociedade civil, a polícia nada diz sobre o paradeiro de Isaías Cassule e de Alves Kamulingue. Acha que eles ainda estão vivos?
HC: Eu, pessoalmente, tenho uma opinião diferente e acredito que ainda estão vivos. Falta apenas um pouquinho mais de pressão por parte da sociedade em geral para reivindicar que se faça tudo para se pronunciar sobre o paradeiro dos nossos companheiros.
Infelizmente, o medo domina a maior parte do povo angolano e, por isso, não temos conseguido arrancar uma resposta positiva por parte das entidades e do governo.
Opinião diferente sobre o destino dos dois desaparecidos tem o jornalista e um dos autores do livro “Os Meandros das Manifestações em Angola", Coque Mokuta:
Coque Mokuta (CM): Eu tenho feito investigações sobre os dois jovens constantemente e acredito que já não estão vivos. Agora, cabe às autoridades trazerem novos dados e informações mais concretas sobre o que na verdade lhes terá acontecido.
Os jovens têm parentes que dão alguma explicação sobre isto. Mas se José Eduardo dos Santos é um bom pai, deverá dar explicações aos seus filhos: "eles estão aí, eles morreram por isso, aconteceu isso com eles…"
Entretanto, momentos muito sensíveis, como o período eleitoral, já passaram e não trouxeram qualquer pista [sobre o paradeiro de Isaías Cassule e Alves Kamulingue]. Por isso é que acredito que eles já morreram.
DW África: As manifestações em Angola terminam quase sempre da mesma maneira. Ou são abortadas, antes mesmo de começarem, ou há detenções ou repressões. Acha que, ainda assim, elas conseguem atingir os seus objetivos?
CM: Os objetivos das manifestações são, normalmente, muito concretos. É, na verdade, para protestar sobre um determinado assunto. Quando os manifestantes dizem que vão protestar sobre o desaparecimento do Kamulingue e chegam até ao 1º de maio e são reprimidos, acabam por chamar a atenção em relação a isso. Por isso, acho que atingem os seus objetivos.
Agora, é de sublinhar que o movimento vai crescendo. As pessoas vão ficando cada vez mais esclarecidas sobre este fenómeno e a população manifestante vai aumentando. Daqui para a frente, as manifestações serão feitas de forma sectorial. Hoje mesmo, aqui na caixa social das Forças Armadas, os ex-militares voltaram a reclamar os seus direitos. Ou seja, os jovens deram uma luz e assim, de forma sectorial, vão existindo vários movimentos, que, possivelmente, ainda se vão alastrar. Deutsche Welle
Autora: Nádia Issufo
Edição: Guilherme Correia da Silva / António Rocha
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Desastre de Luanda chama a atenção para crescimento da IURD em Angola
João Manuel Rocha
Chegado em 1992, grupo religioso fundado pelo brasileiro Edir Macedo reivindica meio milhão de seguidores no país africano.
O acidente que, no último dia de 2012, provocou a morte de 16 pessoas em Luanda, entre as quais três crianças, com idades entre três e quatro anos, chamou a atenção para o crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD): entrou em Angola há 20 anos e reclama já meio milhão de seguidores num país onde as confissões religiosas se multiplicam.
Chegada a Angola em 1992, a IURD, criada em 1977 no Brasil, tem conjugado a promoção do seu credo com projectos de carácter social. A sua presença na vida angolana é cada vez mais visível. Articula a componente confessional com projectos em áreas como a alfabetização, o combate à toxicodependência ou a promoção rodoviária. A cerimónia de segunda-feira, que ficou marcada pelo desastre, terá sido a sua acção pública mais participada.
O estádio da Cidadela Desportiva de Luanda, onde, junto a um dos portões de acesso, ocorreu o acidente, tem capacidade para 70 mil pessoas. Os números avançados pelo serviço de protecção civil angolano indicam que terão comparecido à Vigília da Virada – Dia do Fim, entre 250 mil e 280 mil. “Estimamos que estiveram na vigília acima de 250 mil pessoas”, disse também o bispo Felner Batalha, citado pela Rádio Nacional de Angola.
Transportados em autocarros alugados, muitos fiéis estavam no local desde manhã. Testemunhas disseram ao Jornal de Angola que todos os portões do estádio foram abertos e, a certa altura, a multidão concentrada junto a uma das entradas terá querido entrar para o espaço já lotado, causando o acidente.
Os médicos que socorreram os sinistrados disseram, citados pela imprensa angolana, que diversas mortes terão sido provocadas por asfixia. O número de feridos rondou os 120, mas a maior parte teve rapidamente alta.
O director do Complexo da Cidadela, Joaquim Muaxinika, afirmou ao diário angolano que a cerimónia foi autorizada depois de verificadas as condições de segurança. “Eles solicitaram o culto há mais de 20 dias, e, pelos documentos apresentados, estava tudo preparado.” Foi aberto um inquérito para apurar o sucedido.
Luanda já antes assistira a iniciativas da IURD, fundada pelo brasileiro Edir Macedo, mas nenhuma com tamanha afluência. Em Fevereiro do ano passado, cerca de 20 mil angolanos foram baptizados numa cerimónia colectiva nas praias do município de Belas, em simultâneo com acções semelhantes noutras províncias de Angola.
Segundo um vídeo disponibilizado no YouTube, em 2009 a IURD tinha em construção doze igrejas, quatro em Luanda, oito em províncias. No início de 2012, organizou uma conferência sobre a situação socioeconómica do país e anunciou a construção de uma universidade em Luanda.
O site Clube-K, não alinhado com o poder político angolano, escreveu há poucas semanas que o crescimento patrimonial da IURD em Luanda “é inquestionável”. “Nenhuma instituição angolana, pública, privada ou mista, acumulou tanto património quanto a igreja do bispo Macedo nos últimos anos.”
Angola tem sido terreno fértil para novos grupos religiosos e o site Maka Angola, do activista Rafael Marques, denunciou no ano passado que a “relação promíscua” entre o MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola, partido no poder, e as seitas religiosas “ganhou um cunho mais público” nos últimos anos.
Presente em numerosos países de vários continentes, a IURD diz ter mais de oito milhões de seguidores em todo o mundo. Público
Chegado em 1992, grupo religioso fundado pelo brasileiro Edir Macedo reivindica meio milhão de seguidores no país africano.
O acidente que, no último dia de 2012, provocou a morte de 16 pessoas em Luanda, entre as quais três crianças, com idades entre três e quatro anos, chamou a atenção para o crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD): entrou em Angola há 20 anos e reclama já meio milhão de seguidores num país onde as confissões religiosas se multiplicam.
Chegada a Angola em 1992, a IURD, criada em 1977 no Brasil, tem conjugado a promoção do seu credo com projectos de carácter social. A sua presença na vida angolana é cada vez mais visível. Articula a componente confessional com projectos em áreas como a alfabetização, o combate à toxicodependência ou a promoção rodoviária. A cerimónia de segunda-feira, que ficou marcada pelo desastre, terá sido a sua acção pública mais participada.
O estádio da Cidadela Desportiva de Luanda, onde, junto a um dos portões de acesso, ocorreu o acidente, tem capacidade para 70 mil pessoas. Os números avançados pelo serviço de protecção civil angolano indicam que terão comparecido à Vigília da Virada – Dia do Fim, entre 250 mil e 280 mil. “Estimamos que estiveram na vigília acima de 250 mil pessoas”, disse também o bispo Felner Batalha, citado pela Rádio Nacional de Angola.
Transportados em autocarros alugados, muitos fiéis estavam no local desde manhã. Testemunhas disseram ao Jornal de Angola que todos os portões do estádio foram abertos e, a certa altura, a multidão concentrada junto a uma das entradas terá querido entrar para o espaço já lotado, causando o acidente.
Os médicos que socorreram os sinistrados disseram, citados pela imprensa angolana, que diversas mortes terão sido provocadas por asfixia. O número de feridos rondou os 120, mas a maior parte teve rapidamente alta.
O director do Complexo da Cidadela, Joaquim Muaxinika, afirmou ao diário angolano que a cerimónia foi autorizada depois de verificadas as condições de segurança. “Eles solicitaram o culto há mais de 20 dias, e, pelos documentos apresentados, estava tudo preparado.” Foi aberto um inquérito para apurar o sucedido.
Luanda já antes assistira a iniciativas da IURD, fundada pelo brasileiro Edir Macedo, mas nenhuma com tamanha afluência. Em Fevereiro do ano passado, cerca de 20 mil angolanos foram baptizados numa cerimónia colectiva nas praias do município de Belas, em simultâneo com acções semelhantes noutras províncias de Angola.
Segundo um vídeo disponibilizado no YouTube, em 2009 a IURD tinha em construção doze igrejas, quatro em Luanda, oito em províncias. No início de 2012, organizou uma conferência sobre a situação socioeconómica do país e anunciou a construção de uma universidade em Luanda.
O site Clube-K, não alinhado com o poder político angolano, escreveu há poucas semanas que o crescimento patrimonial da IURD em Luanda “é inquestionável”. “Nenhuma instituição angolana, pública, privada ou mista, acumulou tanto património quanto a igreja do bispo Macedo nos últimos anos.”
Angola tem sido terreno fértil para novos grupos religiosos e o site Maka Angola, do activista Rafael Marques, denunciou no ano passado que a “relação promíscua” entre o MPLA, Movimento Popular de Libertação de Angola, partido no poder, e as seitas religiosas “ganhou um cunho mais público” nos últimos anos.
Presente em numerosos países de vários continentes, a IURD diz ter mais de oito milhões de seguidores em todo o mundo. Público
Arcebispo de Nampula acusa políticos de não lutarem para manter a paz
Faizal Ibramugy
Segundo Dom Tomé Makhweliha, os políticos moçambicanos usam maior parte do seu tempo para proferirem ameaças
NAMPULA — Falando na sua primeira homilia do ano, perante os crentes católicos que encheram Sé Catedral de Nampula, Dom Tomé Makhweliha disse que da mesma maneira que a paz falta nalguns países e nalgumas famílias moçambicanas, falta aos partidos políticos e seus líderes.
Como resultado disso, segundo Makhweliha, os políticos moçambicanos usam maior parte do seu tempo para proferirem ameaças ao invés de organizar seus partidos no sentido de se tornarem mais fortes.
Makhweliha disse que durante 2013 a Igreja católica em Nampula estará a direccionar as suas orações para os líderes políticos para Deus lhes conceda a paz dentro dos seus corações.
“A paz nasce do coração” disse Makhweliha para quem todos devem começar no inicio do ano rezar para que Deus lhe conceda a paz nos seus corações pois segundo referiu, ela é indispensável para a felicidade de uma família e ou de um pais.
Importa referir que Moçambique vai iniciar este ano um ciclo eleitoral com a realização das quartas eleições autárquicas, numa altura em que alguns líderes de partidos políticos tem de forma sistemática a lançar discursos com mensagens consideradas ameaçadoras se considera que o país, ficou em paz em há sensivelmente 20 anos. Voz da América
Segundo Dom Tomé Makhweliha, os políticos moçambicanos usam maior parte do seu tempo para proferirem ameaças
NAMPULA — Falando na sua primeira homilia do ano, perante os crentes católicos que encheram Sé Catedral de Nampula, Dom Tomé Makhweliha disse que da mesma maneira que a paz falta nalguns países e nalgumas famílias moçambicanas, falta aos partidos políticos e seus líderes.
Como resultado disso, segundo Makhweliha, os políticos moçambicanos usam maior parte do seu tempo para proferirem ameaças ao invés de organizar seus partidos no sentido de se tornarem mais fortes.
Makhweliha disse que durante 2013 a Igreja católica em Nampula estará a direccionar as suas orações para os líderes políticos para Deus lhes conceda a paz dentro dos seus corações.
“A paz nasce do coração” disse Makhweliha para quem todos devem começar no inicio do ano rezar para que Deus lhe conceda a paz nos seus corações pois segundo referiu, ela é indispensável para a felicidade de uma família e ou de um pais.
Importa referir que Moçambique vai iniciar este ano um ciclo eleitoral com a realização das quartas eleições autárquicas, numa altura em que alguns líderes de partidos políticos tem de forma sistemática a lançar discursos com mensagens consideradas ameaçadoras se considera que o país, ficou em paz em há sensivelmente 20 anos. Voz da América
Fiscalização florestal no norte de Moçambique ainda é fraca
Apesar do número insuficiente de fiscais, a Direcção Provincial da Agricultura promete continuar a fiscalizar e a punir as ilegalidades praticadas por madeireiros da província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique.
A legislação florestal de concessão de licença simples aos cidadãos nacionais para exploração e venda de recursos florestais entrou em vigor nos últimos dez anos. Como consequência, verificou-se o corte e exportação excessiva de madeira, sem obediência da legislação florestal vigente em Moçambique e sem respeito pelo meio ambiente, explica o coordenador do Fórum Terra de Cabo Delgado, Assane Simão, que dá “nota zero” à conservação de florestas na província. “Não há conservação, só há exploração desenfreada e corte excessivo de madeira e das florestas de diferentes espécies, que são cortadas e exportadas”, sublinha.
Para combater o contrabando na exploração dos recursos florestais, as autoridades do sector da agricultura não cessam esforços, assegura Mariano Jone, director provincial de Agricultura da província de Cabo Delgado. Jone promete não dar tréguas aos operadores que violam a lei de exploração dos recursos florestais em Moçambique.
Número insuficiente de fiscais
O director provincial de Agricultura precisou que dos 200 fiscais necessários para garantir a cobertura efetiva no processo de fiscalização, a província possui apenas 100 fiscais. Quanto à alegada “atuação exagerada” por parte dos fiscais, defende que é necessário apresentar “factos concretos” que consubstanciem essas alegações.
Assane Simão, do Fórum Terra, entende que não há espaço para a reclamação dos madeireiros por alegado exagero na atuação dos fiscais. Para Simão, o sistema de fiscalização está, na verdade, fragilizado. Além disso, considera insuficiente o número de fiscais na província. “Se formos a ver quantos fiscais existem num distrito onde há essa exploração, talvez encontremos dois. Um distrito inteiro é muito extenso. Os madeireiros e outros têm vários caminhos que esse fiscal até pode desconhecer”, explica.
Fraca fiscalização
A fiscalização também tem uma cobertura fraca e os fiscais estarão envolvidos em esquemas de falsificação de registos do volume de madeira autorizada, alega Vivaldino Banze, da Associação Amigos do Ambiente. “Não temos situações manifestas de operadores madeireiros que publicamente reclamam por um processo forte de fiscalização. Eles têm sempre algum espaço de manobra para contornar qualquer esquema legal ligado à fiscalização”, salienta.
Vivaldino Banze afirma ainda que a conservação na província também não existe. “A maior parte das concessoes ou empresas que têm concessões raramente obedecem ao seu plano de maneio”, afirma, acrescentando que não existe um processo de reflorestamento. Deutsche Welle
Autor: Eleutério Silvestre (Pemba)
Edição: Madalena Sampaio/António Rocha
Para combater o contrabando na exploração dos recursos florestais, as autoridades do sector da agricultura não cessam esforços, assegura Mariano Jone, director provincial de Agricultura da província de Cabo Delgado. Jone promete não dar tréguas aos operadores que violam a lei de exploração dos recursos florestais em Moçambique.
Número insuficiente de fiscais
O director provincial de Agricultura precisou que dos 200 fiscais necessários para garantir a cobertura efetiva no processo de fiscalização, a província possui apenas 100 fiscais. Quanto à alegada “atuação exagerada” por parte dos fiscais, defende que é necessário apresentar “factos concretos” que consubstanciem essas alegações.
Assane Simão, do Fórum Terra, entende que não há espaço para a reclamação dos madeireiros por alegado exagero na atuação dos fiscais. Para Simão, o sistema de fiscalização está, na verdade, fragilizado. Além disso, considera insuficiente o número de fiscais na província. “Se formos a ver quantos fiscais existem num distrito onde há essa exploração, talvez encontremos dois. Um distrito inteiro é muito extenso. Os madeireiros e outros têm vários caminhos que esse fiscal até pode desconhecer”, explica.
Fraca fiscalização
A fiscalização também tem uma cobertura fraca e os fiscais estarão envolvidos em esquemas de falsificação de registos do volume de madeira autorizada, alega Vivaldino Banze, da Associação Amigos do Ambiente. “Não temos situações manifestas de operadores madeireiros que publicamente reclamam por um processo forte de fiscalização. Eles têm sempre algum espaço de manobra para contornar qualquer esquema legal ligado à fiscalização”, salienta.
Vivaldino Banze afirma ainda que a conservação na província também não existe. “A maior parte das concessoes ou empresas que têm concessões raramente obedecem ao seu plano de maneio”, afirma, acrescentando que não existe um processo de reflorestamento. Deutsche Welle
Autor: Eleutério Silvestre (Pemba)
Edição: Madalena Sampaio/António Rocha
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Participação do cidadão no governo local
Em ano eleitoral, achei melhor discutir a governação local. Inspirei-me num estudo divulgado recentemente no contexto do programa “Diálogo Local para Boa Governação”,financiado pela Agência Britânica de Desenvolvimento, por conter aspectos importantes para a cidadania.
Torna-se curioso quando um estudo conclui não haver “evidências de participação do cidadão de forma estruturada, desde a planificação à auditoria, nos programas municipais, isto porque os órgãos municipais não se mostram ser abertos para que isso aconteça” na cidade da Beira.
Porquê? Tão simples quanto isto: um governo local, numa situação normal, seria o mais próximo dos cidadãos. Se isso não acontece, há equívoco. E isso pode significar que os titulares de cargos autárquicos, generalizando, demoram a compreender o que é um governo local, podendo assumir posturas contrárias ao espírito desse tipo de governos.
Existe o perigo de, até no discurso, os governos locais imitarem as autoridades centrais, para não falar da prática. Isso se pode notar através da forma como tais autoridades se relacionam com os munícipes e o estudo vem consubstanciar essa dura e crua realidade.
Certa vez achei estranho quando num debate televisivo se formaram duas alas de munícipes, quando, dado que se tratava de discutir os problemas da cidade, o normal era que os cidadãos da autarquia se unissem e os discutissem em vez de uma delas se assumir como o próprio governo da autarquia.
Diz o estudo que há tendência de partidarização do município (da Beira, no caso). O tal exemplo de debate televisivo foi revelador dessa tendência, pois os presentes esqueceram-se do que estava em causa e perderam mesmo a oportunidade de ajudar o executivo no diagnóstico dos problemas.
Parece-me que levaremos tempo a perceber isso. Uma vez alguém dizia que um dos presidentes de município cessante, dos tantos deste país, não tinha sido tão criticado como o actual. Para esse cidadão, as críticas eram infundadas. Nada mais infundado do que o que dizia, pois esse tal antecessor se tinha apercebido, por hipótese, do grau de insatisfação dos munícipes. O que pode acontecer para esse sentimento: ou a filiação partidária cega, capaz de levar o membro do partido a pensar que não se deve discutir os problemas porque quem governa é o seu partido ou, o que seria grave, ignorância do que é cidadania.
Em algum momento sinto que temos défice de cidadania, mas, na verdade, se não discutimos os problemas da cidade, quem sofre no final do dia somos nós e não nenhuma outra pessoa. Se vivo numa cidade como a Beira – passe o exemplo – e tenho medo de dizer que as valas de drenagem não são funcionais ou são poucas, quando chove quem sofre sou eu e não os titulares de órgãos autárquicos.
O défice de cidadania é tal que uma verdade é transformada em mentira a olhos vistos.
Que soluções? É difícil pensar nisso, mas a educação para a cidadania é importante. Antes de sermos membros de partidos políticos somos cidadãos e temos que perceber o que é ser cidadão, sobretudo nos aspectos de deveres e obrigações. Se isso não acontecer, será fácil a manipulação.
Uma outra coisa que me parece importante é o facto de as eleições municipais estarem abertas a organizações que não sejam apenas os partidos políticos. Quando se avançou na municipalização, muitas organizações da sociedade civil disputaram assentos nas autarquias, mas com o tempo vão abdicando desse privilégio e deixam tudo para as organizações exclusivamente políticas.
Uma organização da sociedade civil, em determinado momento, se apresenta melhor, quanto à satisfação das necessidades grupais, em relação aos partidos políticos.
Por isso, em ano eleitoral como o presente (2013), as diversas organizações nacionais, sobretudo as das cidades e vilas autárquicas, deveriam pensar se não valeria a pena participar nas eleições locais.
É importante assinalar que as organizações políticas têm uma aspiração nacional, mas as da sociedade civil não são obrigadas a ter essa dimensão.
Os governos locais devem ser locais e não outra coisa. Uma autarquia não se pode surpreender com situações graves porque está sempre no terreno, através dos seus órgãos. Mas a minha experiência revela que muitos conselhos municipais não sabem o que se passa nas cidades. É estranho porque temos vereadores e membros das assembleias. Não vou dar um exemplo de uma surpresa das tantas conhecidas simplesmente porque não é esse o meu propósito. Diário de Moçambique
Torna-se curioso quando um estudo conclui não haver “evidências de participação do cidadão de forma estruturada, desde a planificação à auditoria, nos programas municipais, isto porque os órgãos municipais não se mostram ser abertos para que isso aconteça” na cidade da Beira.
Porquê? Tão simples quanto isto: um governo local, numa situação normal, seria o mais próximo dos cidadãos. Se isso não acontece, há equívoco. E isso pode significar que os titulares de cargos autárquicos, generalizando, demoram a compreender o que é um governo local, podendo assumir posturas contrárias ao espírito desse tipo de governos.
Existe o perigo de, até no discurso, os governos locais imitarem as autoridades centrais, para não falar da prática. Isso se pode notar através da forma como tais autoridades se relacionam com os munícipes e o estudo vem consubstanciar essa dura e crua realidade.
Certa vez achei estranho quando num debate televisivo se formaram duas alas de munícipes, quando, dado que se tratava de discutir os problemas da cidade, o normal era que os cidadãos da autarquia se unissem e os discutissem em vez de uma delas se assumir como o próprio governo da autarquia.
Diz o estudo que há tendência de partidarização do município (da Beira, no caso). O tal exemplo de debate televisivo foi revelador dessa tendência, pois os presentes esqueceram-se do que estava em causa e perderam mesmo a oportunidade de ajudar o executivo no diagnóstico dos problemas.
Parece-me que levaremos tempo a perceber isso. Uma vez alguém dizia que um dos presidentes de município cessante, dos tantos deste país, não tinha sido tão criticado como o actual. Para esse cidadão, as críticas eram infundadas. Nada mais infundado do que o que dizia, pois esse tal antecessor se tinha apercebido, por hipótese, do grau de insatisfação dos munícipes. O que pode acontecer para esse sentimento: ou a filiação partidária cega, capaz de levar o membro do partido a pensar que não se deve discutir os problemas porque quem governa é o seu partido ou, o que seria grave, ignorância do que é cidadania.
Em algum momento sinto que temos défice de cidadania, mas, na verdade, se não discutimos os problemas da cidade, quem sofre no final do dia somos nós e não nenhuma outra pessoa. Se vivo numa cidade como a Beira – passe o exemplo – e tenho medo de dizer que as valas de drenagem não são funcionais ou são poucas, quando chove quem sofre sou eu e não os titulares de órgãos autárquicos.
O défice de cidadania é tal que uma verdade é transformada em mentira a olhos vistos.
Que soluções? É difícil pensar nisso, mas a educação para a cidadania é importante. Antes de sermos membros de partidos políticos somos cidadãos e temos que perceber o que é ser cidadão, sobretudo nos aspectos de deveres e obrigações. Se isso não acontecer, será fácil a manipulação.
Uma outra coisa que me parece importante é o facto de as eleições municipais estarem abertas a organizações que não sejam apenas os partidos políticos. Quando se avançou na municipalização, muitas organizações da sociedade civil disputaram assentos nas autarquias, mas com o tempo vão abdicando desse privilégio e deixam tudo para as organizações exclusivamente políticas.
Uma organização da sociedade civil, em determinado momento, se apresenta melhor, quanto à satisfação das necessidades grupais, em relação aos partidos políticos.
Por isso, em ano eleitoral como o presente (2013), as diversas organizações nacionais, sobretudo as das cidades e vilas autárquicas, deveriam pensar se não valeria a pena participar nas eleições locais.
É importante assinalar que as organizações políticas têm uma aspiração nacional, mas as da sociedade civil não são obrigadas a ter essa dimensão.
Os governos locais devem ser locais e não outra coisa. Uma autarquia não se pode surpreender com situações graves porque está sempre no terreno, através dos seus órgãos. Mas a minha experiência revela que muitos conselhos municipais não sabem o que se passa nas cidades. É estranho porque temos vereadores e membros das assembleias. Não vou dar um exemplo de uma surpresa das tantas conhecidas simplesmente porque não é esse o meu propósito. Diário de Moçambique
“Quem anuncia o fim dos problemas não é uma igreja, é um charlatão” (*)
por Eugénio Almeida
Luanda (Canalmoz) - Lamentável que o final do ano termine tão mal em Luanda, mais concretamente no Estádio da Cidadela. Segundo Coque Mukuta e citado no blogue Universal terá ocorrido uma tragédia no Estádio da Cidadela. Esta notícia recebi-a, primeiro, a partir de Berlim:
“Mais de 12 fiéis maioritariamente crianças morrem por asfixia na vigília da igreja universal na cidadela. A propaganda daqueles dirigentes religiosos era “o fim dos seus problemas”, afinal os problemas só acabam mesmo com o fim da vida? O recinto está lotado e o pessoal vai caindo. São encaminhados para o Américo Boavida e muitos deles acabam por morrer. Fala-se já em 12 mortos”
Lamentável como se usa o dogmatismo religiosos para fins pouco admissíveis ou sem se cuidar, devidamente, da segurança de fieis e, principalmente, do das crianças!
Ontem, a TPA (Televisão Pública de Angola) no noticiário da hora de almoço já avançava com 13 vítimas mortais, sendo que 12 parecem ter dado entrada no Américo Boavida.
Como é possível que os nossos concidadãos ainda vão na onda de uma igreja - com “i” muito pequeno - que mais não demonstra ser que um receptáculo de dinheiro e pouca religião.
Quem faz uma propaganda de “Fim” e anuncia o fim dos problemas não é uma igreja nem um visionário; é um charlatão.
Para isso há os psicólogos clínicos que, mesmo eles, não acabam com os problemas, ajudam a lidar com estes!
Aos familiares das vítimas o meu lamento e os meus sentimentos. Ao Governo e às autoridades que da próxima vez que autorizarem estas “manifestações” obriguem ao acompanhamento de apoios médicos, bombeiros e autoridades. Canalmoz
(Eugénio Almeida) *Título adaptado
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