Desta harmonização feita com base na iniciativa da bancada maioritária de rever a Constituição, surgiu o ante-projecto de revisão constitucional que agora vai a debate público, cujas linhas de forca são a introdução de alterações em doze títulos, nomeadamente, Direitos, Deveres e Liberdades Fundamentais; Organização Económica, Social, Financeira e Fiscal; Organização do Poder Político; Presidente da República; Governo; Tribunais; Ministério Público; Conselho Constitucional; Administração Pública, Polícia, Provedor de Justiça e Órgãos Locais do Estado; Defesa Nacional e Conselho Nacional de Defesa e Segurança e Poder Local.
Neste contexto, são aspectos centrais da revisão o reforço da garantia de acesso aos tribunais e à justiça; promoção da cultura de trabalho e do empreendedorismo; redefinição do papel das autoridades comunitárias; melhoria do sistema orgânico dos órgãos do judiciário; estabelecimento de um período fixo para a data da realização de eleições; ampliação das atribuições do Conselho do Estado; melhoramento e clarificação das competências da Assembleia da República; inclusão dos vice-ministros na composição do Governo; melhoramento e ampliação das competências do Conselho Constitucional e maior garantia dos direitos dos cidadãos através do mecanismo da queixa constitucional; consagração de governos locais na Constituição; e reforços das garantias e intervenção do Provedor de Justiça.
Necessário debater sistema de governação - afirma Gilles Cistac, Constitucionalista
Ele explicou que no programa de acção ontem divulgado, destacam-se pelo menos dois aspectos fundamentais. O primeiro é que a comissão “Ad-hoc” está aberta a propostas que vão ser apresentadas no decurso dos debates a nível provincial e distrital. “Em consequência disso, é preciso reconhecer que a proposta avançada pela bancada da Frelimo vai sofrer bastantes alterações, porque se trata de uma proposta mínima de revisão da Constituição que vai ser discutida publicamente”.
O segundo aspecto, de acordo com o nosso interlocutor, tem a ver com o número de comissões de trabalho propostas para levar a cabo este processo de revisão. “As comissões de trabalho criadas foram constituídas tendo como base o texto de revisão constitucional apresentado pela bancada parlamentar da Frelimo – a proponente do processo. Isto significa que alguns aspectos muito importantes não são abrangidos nestas comissões de trabalho. Por exemplo, a questão da mudança do sistema de governação. A questão que se deve aqui colocar é se queremos continuar com sistema presidencialista de governação ou queremos passar para o sistema parlamentar. Isso não está evocado nas comissões de trabalho criadas”, sublinhou.
Gilles Cistac considerou também importante a realização de uma discussão em torno da mudança ou não do sistema eleitoral, de modo a se definir, de acordo com a realidade política nacional, um modelo que seja baseado na representação proporcional, que é o que actualmente está vigente no país, ou se se julga necessário introduzir um outro que assente na representação maioritária.
“Portanto, as comissões criadas não reflectem a resposta de debate destas questões”, frisou, considerando ser pertinente a criação de mais uma ou duas comissões que possam potenciar a discussão destes temas, à semelhança das outras criadas para assuntos como a transformação ou não do Conselho Constitucional em Tribunal Constitucional, a que discutirá a questão da liberdade de imprensa e de informação; Juventude; aspectos económicos; direitos humanos; entre outros previstos neste programa da AR.
Revisão visa adequar o texto à realidade – segundo António Chipanga , jurista e docente
Disse também que uma lei não deve ser estática, “ ela deve ser dinâmica no sentido de ir acompanhando a evolução histórica, política, económica e cultural de tudo que ocorre numa sociedade” .
“O que se está a fazer neste momento, é exactamente a consagração daquilo que são conquistas, quer ao nível nacional, quer ao nível internacional, fazendo-se um ajustamento de tal modo que o que está na Constituição corresponda ao modo de vida do povo e das instituições”, disse.
Acrescentou que se não se fizer tal exercício, os moçambicanos irão encontrar uma Constituição que não tem nada a ver com as instituições e não tem nada a ver com povo.
Sobre o conteúdo do documento lançado como base para o debate público, a nossa fonte considerou toda a informação que está lá contida como importante. “Frisar aqui que o que foi lançado é um projecto. São ideias. O mais importante é o debate à volta dessas ideias que, no seu final, vamos produzir uma conclusão”, afirmou Chipanga.
Instado a pronunciar-se sobre os aspectos que, por ventura, considera serem importante incluir nesta revisão, ele afirmou que ao longo dos debates vai se encontrar aquilo que é mais importante deste conjunto todo. “Poderá haver aspectos que não estão devidamente enquadrados e outros que podem estar mas que precisam de ser ponderados, daí que o debate público é importante para se aflorar e em devido tempo vai ser considerado e tido em conta”. Continue lendo aqui.