quinta-feira, 23 de maio de 2013

AINDA O CASO DE JOVENS DE MAGUDE - Governo mexe-se para desencorajar caça furtiva

O GOVERNO da Província de Maputo reage à Reportagem sobre “Luto por um corno”, publicada pelo nosso Jornal recentemente, afirmando que tem estado a dar de tudo aos jovens do distrito de Magude para que não abracem a caça furtiva no Kruger Park, na África do Sul mas, infelizmente, muitos ainda não perceberam a mais valia que os projectos de financiamento trazem.

Através de Lúdgero Gemo, chefe de departamento da Juventude na Direcção Provincial da Juventude e Desportos de Maputo, ficámos a saber que o envolvimento dos jovens na caça furtiva e, com muitos deles a perderem a vida nas densas matas do Kruger Park, não estão associadas à falta de iniciativas juvenis, mas sim pelo desinteresse de muitos em  aderir aos vários projectos de financiamentos colocados à disposição desta camada naquele distrito.
A título de exemplo, ao que explicou, em 2012 o Governo do Distrito de Magude financiou 16 projectos que beneficiaram directamente os jovens. O dinheiro foi empregue em iniciativas de emprego e auto-emprego. Ainda no ano passado e no que concerne ao Financiamento do Fundo de Desenvolvimento Distrital, foram aprovados 24 projectos o equivalente a mais de um milhão e 500 mil meticais, tudo direccionado para os jovens.
No ano em curso já foram aprovados 70 projectos ligados ao desenvolvimento distrital e 42 de financiamento ao fundo de desenvolvimento distrital, só para jovens.
“Portanto, só estes projectos mostram o quanto temos feito para esta camada. O seu envolvimento na caça furtiva é um caso novo e que precisa de ser bem estudado. Queremos que eles não só tenham ocupação, mas também formas de como viver sem incorrer em delitos” – explicou Lúdgero Gemo.
Por outro lado, ele fez saber que 20 por cento do valor global alocado pelo Governo Provincial a cada distrito é para iniciativas da juventude, a mesma percentagem atribuída pelo distrito aos projectos dos jovens nas localidades. Ainda, 20 por cento do número de terrenos demarcados para a prática da agricultura e outras iniciativas é atribuída aos jovens.
O chefe de departamento da Juventude na Direcção Provincial da Juventude e Desportos de Maputo disse ainda terem sido demarcados 256 talhões para habitação, sendo 135 para os jovens, o que equivale a 57 por cento.
“Particularmente em Magude e como forma de assegurar a sua representatividade, os jovens são convidados a participar na tomada de decisões. Dos 200 membros que compõem o Conselho Consultivo, 36 são jovens.
“Eles estão no centro de tomada de decisões, por isso não encontramos razões para que não apostem numa vida sem riscos, quando comparado com o envolvimento na caça furtiva. Temos feito muito para que eles não enveredem por práticas ilegais e arriscadas”, explicou Gemo.

Turismo no lugar de caça

HÁ dias a Direcção Provincial da Juventude e Desportos reuniu-se com os jovens do Distrito de Magude no sentido de abordar a questão da caça furtiva no Kruger Park, e que está a semear luto. Uma das decisões saídas do encontro é que parte da juventude devia ser vigilante para aqueles que rumam ao Kruger e, juntamente com a comunidade, denunciá-los imediatamente à Polícia para a tomada de medidas.
Aliás, a Polícia já assegurou estar a enfrentar sérias dificuldades para obter dados precisos da população sobre quem são as pessoas envolvidas na caça dos cornos, uma vez que muitos não aceitam falar sobre o assunto.
Paralelamente, segundo Lúdgero Gemo, o sector que dirige está a orientar os jovens no sentido de, no lugar de caçarem os rinocerontes, optarem por fazer turismo de gestão comunitária junto às zonas de conservação. Como o Kruger Park está dentro da zona de conservação do Limpopo, os jovens são convidados a aproveitar esta zona para desenvolver actividades turísticas, muito mais frutuosas e de gestão limpa, quando comparado com a caça furtiva. Outras iniciativas de ocupação da juventude estão a ser implementadas, como é o caso do projecto desportivo denominado “Kavela Maputo”.

Finalidade dos cornos!

JÁ é sabido que o Vietname, Índia e a China são os potenciais destinos dos cornos exportados ilegalmente a partir de Moçambique, em particular, e de África, em geral. O Aeroporto Internacional de Maputo tem sido uma das portas do tráfico de cornos de rinoceronte para fora do país.
No Vietname, um grama de corno de rinoceronte chega a ser vendido ao preço de cinco mil dólares americanos. Segundo soubemos, neste país o corno é usado como símbolo de estatuto social e um produto de luxo.
O uso do chifre de rinoceronte, segundo a Agência Internacional para Pesquisa do Cancro do Vietname, tem uma história antiga, parcialmente ligada à medicina tradicional da vizinha China. A medicina tradicional no Vietname é praticada pelo menos em 48 hospitais e institutos, em mais de 240 departamentos em hospitais centrais e provinciais, e mais de 9.000 de centros de saúde. A lista de doenças tratáveis ​​varia de febre alta, delírio e dor de cabeça severa, ao sarampo, convulsões, epilepsia e derrame cerebral. Entre 2002 e 2007, pelo menos cinco vietnamitas foram abrangidos pelas secções de chifre de rinoceronte na medicina.
Na verdade, segundo dados apresentados na Conferência Internacional Contra o Tráfico de Rinocerontes realizada em Joahannesburgo, em Setembro de 2011, o chifre do rinoceronte é agora promovido como tratamento para doenças potencialmente fatais como o cancro, e este comércio é sustentado pelo mito urbano persistente e duvidosas curas milagrosas. Aliás, o uso de chifre de rinoceronte para tratamento do cancro e de outras doenças graves foi reconhecido pelas autoridades vietnamitas na reunião Contra o Tráfico de Rinocerontes realizada em Joahannesburgo, em Setembro de 2011.
Segundo a Agência Internacional para Pesquisa do Cancro do Vietname, o cancro causa a morte de cerca e 82 mil vietnamitas a cada ano, e é, indiscutivelmente, uma das principais preocupações de saúde crescente. Essencialmente, eles são constituídos por creatina, um aminoácido presente nas unhas humanas e com poderes para curar cancros e aumentar a potência sexual.
Todavia, não há nenhuma evidência clínica de chifre de rinoceronte ter qualquer valor farmacológico para tratamento do cancro em outras partes do mundo. Apesar de chifre de rinoceronte continuar a ser amplamente associado ao tratamento do cancro no Vietname, algumas ONG’s locais, incluindo a Educação Para a Natureza, indicam que há limitações que tal uso pode ser eficaz como inicialmente foi indicado. Continue lendo aqui.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Rumo ao desenvolvimento: Moçambique está a trilhar caminho certo

O SECRETÁRIO-GERAL das Nações Unidas, Ban Ki-Moon termina hoje a sua visita de dois dias ao país, a convite das autoridades moçambicanas.

Na sua passagem por Moçambique manifestou a sua satisfação e orgulho por poder testemunhar que o país está a trilhar o caminho certo rumo ao desenvolvimento, ao mesmo tempo que se tem esforçado pela melhoria das condições de vida da sua população, cuja metade vive na pobreza, isto apesar dos dados macroeconómicos indicarem que a economia, na última década, tem tido um desempenho positivo na ordem dos 7 por cento anuais.
 No primeiro dia participou numa mesa redonda organizada pela FDC intitulada “O Futuro que Queremos – O Período Pós-Objectivos de Desenvolvimento do Milénio em 2015 e a Agenda 2025”. A anfitriã, Graça Machel, na sua alocução destacou que nos últimos anos a pobreza baixou significativamente, apesar dos esforços que estão sendo feitos pelo governo e pelo povo. Segundo ela a culpa de tudo e a existência de um défice de implementação das politicas traçadas pelo executivo.

Construindo um futuro de Esperança

Ban Ki-moon começou por dizer às centenas de pessoas que acorreram ao Centro de Conferencias Joaquim Chissano que as últimas décadas foramVinte anos de paz. Vinte anos de progresso. Vinte anos de desenvolvimento. Vocês estão construindo as bases para um futuro de esperança. Eu gostaria de falar sobre esse futuro”.
Lembrou que no ano passado, durante a conferência Rio+20, os governos do mundo reafirmaram o seu compromisso com o desenvolvimento sustentável. O documento final - um roteiro de longo prazo - é denominado de "o futuro que queremos".
Como ponto de partida, questionou afinal “qual é o futuro que queremos?”.
Segundo ele o mundo quer um futuro de paz e estabilidade, onde todas as pessoas possam desfrutar de seus direitos humanos fundamentais, livre da pobreza extrema e da fome, de oportunidades iguais para todos e prosperidade num planeta saudável.
“ O futuro que nós queremos é uma visão global. Todos os países têm um papel a desempenhar. Todas as pessoas podem se beneficiar. Em que aqueles que se beneficiam são a maioria - aqueles que estão com necessidade mais urgente - são as pessoas dos países menos desenvolvidos - países como Moçambique”.
Frisou que estava feliz porque a sua história de Moçambique nas últimas duas décadas tem todos os esses condimentos - os desafios e as soluções - para inspirar um mundo que quer saber que o desenvolvimento sustentável é possível, mesmo com percalços pelo meio como foi o caso do país que depois da independência em 1975, enfrentou um conflito armado de 16 anos e ainda, uns anos mais tarde, quando o país estava a se reerguer das cinzas, sofreu as piores cheias de que há memória, em 2000.

Críticos dos ODMs estavam errados

“Moçambique sofreu as suas piores inundações há sua historia. Em todo o mundo, as pessoas ficaram paralisadas ​​pelas imagens de televisão mostrando pessoas lutando para escapar da subida das águas - amontoados em pequenas manchas de terras mais altas, em telhados, mesmo em árvores.
A sua situação de desespero foi uma lembrança comovente da fragilidade do desenvolvimento - a facilidade com que os ganhos duramente conquistados podem se reverter”, indicou. Como as águas das cheias se diminuindo, uma outra história se desenrolava ao redor do mundo. A Cimeira do Milénio, realizada em 2000, deu à luz os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio - oito metas concisas com metas e padrões de referência. Os ODM foram uma promessa - uma promessa mundial - para ajudar países como Moçambique para reduzir drasticamente a pobreza e a fome, reduzir a vulnerabilidade, capacitar mulheres e meninas, melhorar a saúde das pessoas e o meio ambiente.
“Alguns cínicos esperavam que os ODM fossem abandonados. Alguns disseram que eles eram muito ambiciosos. Estavam errados. Os ODM têm mobilizado governos, como nunca antes. Eles catalisam novas parcerias dinâmicas. E, o mais importante, eles têm conseguido resultados.
Hoje, seiscentos milhões de pessoas saíram da pobreza extrema. As condições são melhores para 200 milhões de pessoas que vivem em bairros de lata, um número recorde de crianças estão na escola primária - com um número igual de meninos e meninas pela primeira vez, mais mulheres e bebes não morrem durante o parto, os investimentos no combate à malária, HIV / AIDS e tuberculose salvaram milhões de vidas, sublinhou Ban Ki-moon.
Ban argumentou que “aqui em Moçambique, a maioria das crianças está recebendo escolarização na infância. As mulheres estão se tomando o poder como nunca antes. Quase 40 por cento dos parlamentares e 30 por cento dos ministros e vice-ministros de Moçambique são do sexo feminino. Duplicou o número de crianças que vivem para além da idade de cinco anos. Melhorou o acesso à água e saneamento”.
Em todo o mundo, onde quer que olhemos, os ODM têm trazido sucesso. Mas o sucesso não é completo. As conquistas variam entre os países. Globalmente, está-se mal em algumas metas - especialmente de saneamento, o que representa uma grande ameaça para a saúde das pessoas e o meio ambiente.

Pedra a pedra construindo o novo dia

Quando olhamos para a frente a agenda de desenvolvimento pós-2015, a nossa primeira tarefa é cumprir - tanto quanto possível - a promessa dos ODM. Falam menos de 1.000 dias pela frente antes do final de 2015. São Menos de 1.000 dias de acção. Devemos nos concentrar em onde estamos falhando e acelerar o impulso.
“Em Moçambique, apesar de seus sucessos, mais de metade da população está abaixo da linha da pobreza nacional. Mais de 40 por cento das crianças são raquíticas ou subnutridas. Metade de todas as mulheres não sabem ler. O HIV / AIDS ainda é um grande desafio. E muitas mulheres ainda morrem desnecessariamente durante o parto”.
A vantagem, segundo indicou o SG da ONU, é que o país conhece os seus desafios. O povo e o Governo estão actuando sobre esses desafios e as Nações Unidas têm o orgulho de trabalhar ao seu lado. “Eu vou levar a vossa inspiração comigo para outros países queremos ajudar a promover a paz e acelerar o desenvolvimento. Moçambique têm demonstrado que é possível recuperar de um conflito e progredir para o alcance dos ODM. Os ODM têm dado foco e impulso para o desenvolvimento da África. Nossa tarefa agora é aproveitar esse impulso.”
Ban Ki-moon destacou que no quadro da agenda pos-2015 deseja que este seja o processo de desenvolvimento global mais inclusivo que o mundo já conheceu. Desenvolvimento, afinal, é sobre as pessoas. As pessoas devem estar na liderança e suas vozes precisam ser ouvidas. Suas aspirações e ambições devem moldar as nossas políticas e metas.
“O caminho para o futuro que queremos será longo e difícil. Como vocês cantam no vosso hino nacional: 'Pedra a pedra Construindo Um Novo dia'. Ele vai exigir o compromisso dos líderes em todos os lugares - desde as nações mais poderosas para os países menos desenvolvidos. Vai precisar do engajamento de todos os actores da sociedade - de chefes de aldeia para líderes políticos, desde os jovens aos chefes de corporações multinacionais”.
Para se alcançar este desiderato a sociedade civil terá um papel importante a desempenhar - tanto na responsabilização dos governos e na obtenção de apoio entre as comunidades para as transformações que serão necessárias. Cada país tem sua própria agenda, as suas próprias prioridades que apontam para uma visão holística pós-2015 visão.
Os países desenvolvidos precisam alterar os padrões insustentáveis ​​de consumo e produção e reduzir as emissões de gases de efeito estufa que estão aquecendo o planeta. Os países em desenvolvimento precisam encontrar um caminho de desenvolvimento sustentável, que reduz a pobreza e aumenta o bem-estar para todos, sem sobrecarregar ainda mais o planeta.
Moçambique está no caminho certo, e as Nações Unidas se comprometem a caminhar com o país, lado a lado, de mãos dadas. Continue lendo aqui.

Líder da UNITA entende que Portugal devia "questionar origem" do dinheiro angolano

Presidente do maior partido da oposição disse que está a ser preparado um pedido de “investigação judicial” em Angola às ligações financeiras da família de José Eduardo dos Santos.

Isaías Samakuva, líder do principal partido da oposição em Angola, a UNITA, considera que é “responsabilidade” das autoridades portuguesas “questionar a origem” do dinheiro de investimentos angolanos em Portugal.
“Pelo que se conta, são histórias do dia-a-dia, pelo menos em Angola, esse dinheiro vem em malas, em aviões que aterram em Lisboa, e são descarregadas sem que ninguém diga alguma coisa. É verdade?... Não é verdade?...”
Numa entrevista à SIC Notícias, segunda-feira à noite, o presidente da UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) disse que interessa investigar essas situações, “até para a credibilidade dos visados”. Questionado sobre a eventual existência de “laxismo” na matéria, Samakuva respondeu: “Acho que sim, tanto da parte das autoridades portuguesas como também da comunidade internacional”.
Samakuva, que está em Portugal no final de uma digressão internacional iniciada nos Estados Unidos, disse também que o seu partido tem em preparação um pedido para uma “investigação judicial” às ligações financeiras da família do Presidente angolano, José Eduardo dos Santos. “Primeiro, temos necessidade de saber a verdade. E em segundo penso que é injusto que o senhor Presidente e a sua família sejam acusados por algo que talvez não tenha sido provado. Então, para o benefício do próprio Presidente haverá necessidade de fazermos esta diligência e chegarmos a uma conclusão”, disse, aludindo ao “facto” de a família do Presidente, designadamente a filha Isabel dos Santos, ser “mencionada pela imprensa como tendo participações bastante importantes um pouco por toda a parte”.
“Não sabemos se os investimentos que às vezes se fazem em nome de Angola são realmente do Estado ou de indivíduos que gerem o Estado angolano e se estão a aproveitar da oportunidade que têm para fazer essas movimentações”, disse também, noutro passo da entrevista.
Também à agência Lusa o presidente da UNITA se mostrou “curioso” sobre a origem do capital angolano utilizado na aquisição recente de bens e serviços na economia portuguesa. “Quando actividades desta natureza se realizam num clima de transparência” legal “não há receio nenhum”, afirmou. Mas “quando as coisas se fazem como são feitas, isso é preocupante para Angola, sobretudo porque não sabemos se essas compras” são feitas “em nome do Estado angolano ou em nome de pessoas individuais”.
Na SIC Notícias, o político angolano alertou para a “tensão social entre o povo e o Governo”, que “não consegue resolver problemas básicos da população”. “O conflito social a que me refiro agora em Angola já não é UNITA contra Governo” é “entre a população, o povo, e o MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola, no poder], entre o povo e o Presidente José Eduardo dos Santos”, disse Samakuva, que referiu problemas como o abastecimento de água e electricidade e a falta de medicamentos e cuidados médicos. Público

Custo de vida em Angola pode aumentar ainda mais

Angola prevê aumentar as taxas alfandegárias de 30% para 50% ainda este ano. Cerveja, água e produtos agrícolas são alguns dos bens que deverão ver o imposto aumentar. Más notícias para os consumidores, avisa economista.

Angola é atualmente um dos países mais caros do mundo. Em 2010 e 2011, a capital, Luanda, estava no topo da lista das cidades do planeta onde o custo de vida é mais elevado, de acordo com um ranking elaborado anualmente pela consultora britânica Mercer.
Para 2013 prevê-se uma nova subida. Os angolanos vão passar a pagar ainda mais por bens como cerveja, água, refrigerantes e produtos agrícolas, entre outros produtos importados. O aumento dos preços será uma consequência da subida das tarifas aduaneiras de 30% para 50% ainda durante este ano, segundo revelou o ministro da Economia de Angola, Abrahão Gourgel, em entrevista à agência financeira Bloomberg. O objetivo deste agravamento não é aumentar as receitas tributárias, mas proteger as fronteiras do país.
Porém, o mais afetado será, desde logo, o bolso dos consumidores, explica o economista angolano Filomeno Vieira Lopes.

"Uma vez que também não há planos para poupar nos outros custos que formam o preço, certamente vai ter um impacto direto no consumidor, o que naturalmente, pelo nível de rendimentos que as populações em Angola têm, vai criar problemas difíceis relativamente ao nível de vida", diz o economista. "Desta vez, não tenhamos dúvidas: vamos ficar à frente de Tóquio. Luanda será a cidade mais cara do mundo por muito tempo."

Segundo o economista, a indústria alimentar angolana deverá ser a mais atingida por esta medida, uma vez que o setor faz sobretudo a importação de alimentos.

Porquê preços tão altos?

Filomeno Vieira Lopes lembra, no entanto, que se Angola tem preços muito altos neste momento, isso não se deve só a questões relacionadas com a fronteira.
"Isso está relacionado com a estrutura de custos, problemas de desorganização, questões de insegurança e com o facto de Angola não ter um mercado financeiro suficientemente desenvolvido, sendo que muitos empresários são forçados a investir eles próprios." Segundo Lopes, os altos preços também estão relacionados com "problemas de corrupção".

O economista critica o facto de não se estar a atacar verdadeiramente as causas do encarecimento dos produtos. "Está-se a tentar uma via que vai sobrecarregar ainda mais os consumidores."

Importação do protecionismo?

Nos anos 70, foi implementado na América Latina um amplo programa de substituição de importações. Acreditava-se, nessa altura, que o desenvolvimento dos países do terceiro mundo passava necessariamente por medidas como essa. Mas o programa, cujo objetivo era a criação de um setor industrial, fracassou. Para trás ficaram indústrias pouco competitivas.

Serão os atuais planos de Angola uma réplica dessa política de substituição? Em certa medida, responde Filomeno Vieira Lopes. Ou seja, tenta-se também em Angola "substituir importações, mas não pela via mais correta, que é a via da criação de indústrias competitivas a nível nacional. Agora, se as taxas aduaneiras foram alteradas nalguns produtos, isso poderá ter um certo efeito inverso."
Segundo o economista, "há um grande trabalho de organização que tem de ser feito sobretudo no setor produtivo para fazer com que os produtos tenham alguma competitividade."

Vieira Lopes defende ainda que é preciso desenvolver duas indústrias em Angola: a indústria agroalimentar e a indústria de construção de materiais.

Outra questão que se põe é até que ponto o elevado protecionismo da indústria nacional poderá eliminar a possibilidade desta concorrer nos mercados internacionais: "Esta indústria vai ter certamente produtos mais caros. E se não existirem manobras a nível da taxa de câmbio, não haverá competitividade externa. A menos que isso possa depois ser compensado na base de variações na taxa de câmbio", diz Filomeno Vieira Lopes. Deutsche Welle

terça-feira, 21 de maio de 2013

Reflexão sobre a greve dos médicos

SR. DIRECTOR!

Fiquei tentado a escrever o meu pensamento sobre a primeira greve dos médicos, mas achei por bem abdicar desse direito de emitir opinião.

Contudo, ao anunciar-se a segunda greve e, observando o movimento que antecede a mesma, sou tentado a emitir a minha opinião.
Mas antes permitam-me recorrer a algumas estrofes de uma música do falecido músico Joaquim Macuácua que dizem: “filha! Dizes que amas um doutor? Havemos de comer bisturis, ligaduras e doentes aqui em casa! Vá amar o trabalhador das minas da África do Sul para trazeres pão de forma, capulanas e outros bens; vá amar o padeiro para trazeres pão aqui para casa ou então vá amar um velho branco para trazeres sacos de arroz, açúcar e outros bens para casa”. Esta é a tradução livre da letra da música de changana para português. Pretendo com isso é que entendam a mensagem.
Ora, esta música foi interpretada por aquele músico moçambicano há muitos anos e fez sucesso. Contudo, a sociedade e os governantes, em particular, nunca reflectiram sobre o seu alcance. Joaquim Macuácua não era nenhum médico, como é óbvio, no entanto olhava para a sociedade de forma crítica e através da sátira procurava chamar atenção sobre algumas injustiças cometidas à classe médica, tão importante para a nossa vida que, no entanto, era negligenciada! Hoje, infelizmente, a abordagem aos problemas desta classe continua negligenciada, provavelmente porque não haja clareza sobre a colocação institucional. Esclareçam-me quem deve resolver o problema levantado pelos médicos? A Saúde? Função Pública? Ministério das Finanças? Ordem dos Médicos? Sim, refiro-me à Ordem dos Médicos no sentido de estabelecer diferentes categorias dentro da mesma classe. Continuamos a lidar com esta classe como se procurássemos determinar o salário mínimo. Isso é um erro crasso!
Os próprios médicos, provavelmente, não estão claros quanto as suas pretensões. Se estão claros, no mínimo podem não saber como alcançar esse objectivo. E cito o que oiço: “exigimos aumento em 100 por cento”. Este aumento incide sobre o salário de que médico? Aquele acabado de se licenciar? Aquele que fez alguns anos de carreira afecto num distrito? Qual deles? É aqui, na minha opinião, que a Ordem dos Médicos é chamada a intervir se quisermos resolver este problema em definitivo. Esta organização profissional é chamada a dar o seu  contributo para que se encontre uma saída para o problema dos médicos, ou então, havendo um gestor de Recursos Humanos capacitado para lidar com estas matérias dentro do MISAU poderá contribuir, sem no entanto prescindir da intervenção da Ordem dos Médicos, da própria Associação dos Médicos de Moçambique, pelo que a simples intervenção do director da Área de Finanças não é, em minha opinião, suficiente. Os médicos devem saber que os seus salários provêm do Orçamento do Estado aprovado pela Assembleia da República, não é por aí que devemos enveredar, vamos concentrar pessoas que possam ajudar a sair desta situação e todos somos poucos para evitar o colapso.
Quando olho para as reacções em torno da convocação da greve quer da sociedade, quer dos governantes, sinto que o elemento humano do pessoal da saúde é demasiadamente descurado. Descura-se a ideia de que o médico entra no mesmo supermercado, na mesma boutique, na mesma sapataria, na mesma loja de brinquedos para os filhos, na mesma loja de electrodomésticos, ou seja, não existe em Moçambique uma loja que atenda o pessoal da Saúde. Isto pode parecer demagogia mas, no fundo, é aquilo que não estamos a compreender como sociedade sobre o “grito” dos médicos ou pessoal da Saúde, que são marido, pai, avó, filho, esposa com obrigações inerentes a essa categoria social. Dispamos os complexos e desconfianças e enfrentemos o problema com realismo.
É bom que fique claro que os médicos, igualmente, precisam de muita reflexão. Por exemplo, sobre a obrigatoriedade de prestar serviço público. Penso que é o mínimo quando se é formado por uma instituição pública, ou então não concorra, porque de contrário deve saber que terá obrigações também. E aqui se calhar questiona-se: os formados em Direito e Engenharia qual é a contrapartida que oferecem ao Estado? Os informáticos e outras especialidades não terão eles obrigação para com o Estado?! Notícias

  • Adelino Buque

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Greve não pode virar “moda”

SR. DIRECTOR!

Em primeiro saúdo a vossa Excia. por ter aceite publicar este artigo na página dedicada aos leitores. Antes de entrar no cerne deste artigo, é preciso salientar que a greve ou reunião é um direito constitucional preconizado na nossa lei mãe no seu artigo 51: “Todos os cidadãos têm direito à liberdade de reunião e manifestação nos termos da lei.” 

A greve pode ser entendida como a cessação colectiva e voluntária do trabalho realizado por trabalhadores como o propósito de obter benefícios, como aumento de salário, melhoria de condições de trabalho ou para evitar a perda de benefícios.
Posto isso, gostava de fazer algumas ilações sobre o cenário que temos estado a vivenciar quase que de forma consistente na nossa sociedade. O ano 2013 iniciou com uma situação que não vai se apagar facilmente da memória de muitos moçambicanos, falo concretamente da eclosão da greve dos médicos que durou mais de uma semana e que cessou algum tempo depois com o prévio acordo entre o Governo e a Associação Médica de Moçambique. Este cenário da greve trouxe consigo uma instabilidade na prestação dos diversos serviços de assistência sanitária entre outros cuidados da responsabilidade dos homens da bata branca. Tem-se verificado ao longo desses tempos que esse elemento de recorrer à greve parece estar a tomar contornos alarmantes, na medida em que qualquer meio de poder se fazer ouvir perante a quem é de direito a única forma tem sido a greve. Falo isso na medida em que para além dos médicos, vivenciamos constantemente manifestações vindas de seguranças de empresas privadas, paralisação de actividades por parte dos professores, o braço de ferro entre empresas de exploração mineira e camponeses/oleiros em Tete e até greve dos profissionais de cabine da companhia de transporte aéreo de bandeira nacional.
Não quero em nenhum momento com este artigo descredibilizar qualquer que sejam as reivindicações que dei exemplo anteriormente, quero apenas referir-me que o caminho mais adequado quando não há entendimento entre duas partes beligerantes é o diálogo com vista a se estabelecer uma solução. Num processo de negociação sempre existirão casos onde um das partes deve ceder à outra, e isto é que importa numa negociação e a via de consenso é o diálogo.
O nosso país não pode continuar a ser palco de sucessivas greves e ameaças a estabilidade social dos moçambicanos, porque os reflexos destes acontecimentos têm sido sentidos por parte daquele cidadão que nada tem a ver com estes impasses, e este inúmeras vezes é que fica prejudicado. O cidadão fica sem cuidados médicos porque o médico está em greve, são alunos que ficam sem aulas porque o professor não veio, estes são apenas alguns exemplos da repercussão nefasta que as greves em Moçambique têm trazido a sociedade nos últimos dias.
Quero desta forma apelar que antes de se pensar primeiro em fazer uma greve, que se olhassem para as consequências da mesma que por vezes são mais nefastas que as próprias reivindicações. 
O mesmo apelo alastra-se a quem é de direito para que dentro do quadro legal e económico deste país encontre meios eficientes de resolver qualquer instabilidade porque uma das funções principais do Estado é a garantia da estabilidade social para todos.
Mais não disse! Notícias

  • Dércio Ernesto J. Tsandzana

DIREITOS HUMANOS - Comissão clama por estatuto constitucional

O PRESIDENTE da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, Custódio Duma, disse, em Maputo, que não será fácil à sua instituição responder aos desafios dos direitos humanos no país, enquanto o organismo não obter uma consagração constitucional e ser independente do Governo.

Falando numa Mesa Redonda, realizada semana finda, e subordinada ao tema “A questão dos Direitos Humanos na Revisão da Constituição da República”, Custódio Duma afirmou que a força e eficácia, efectivas ou potenciais, da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, dependem directamente do mandato jurídico que lhe for conferido, da dignidade que é conferida aos seus membros, da independência em relação ao Governo do dia e do respeito que lhe é dado pelos outros órgãos do Estado.
Segundo disse, uma instituição nacional cuja lei constitutiva a torna fraca ou ineficaz só pode desenvolver a sua competência técnica, na medida em que forem introduzidas alterações legislativas significativas.
De acordo com Duma, a matéria dos direitos humano é muito sensível para todos. É uma área em que dificilmente se chega a consensos, em parte porque se tem pouco conhecimento sobre ela, ou porque a matéria colide com interesses individuais ou colectivos.
“Na nossa realidade, onde abundam os “ismos”, tais como: clientelismo, materialismo, o populismo ou onde os interesses políticos e económicos de grupos se sobrepõem às agendas de inclusão, de participação e da defesa de um Estado de Direito, onde todos tenham espaço e vejam seus direitos individuais garantidos e protegidos, os direitos humanos serão sempre um grande desafio a proteger e salvaguardar”, acrescentou.
Referiu que com a criação da Comissão Nacional dos Direitos Humanos, composta por onze membros, todos eles altamente qualificados e dispostos a servir o país, promovendo e defendendo os direitos humanos, foram criadas no seio dos cidadãos enormes expectativas.
“Ao mesmo tempo que temos que gerir as expectativas de dentro da comissão e fora dela, temos que dialogar com o Governo no sentido de criar as condições mínimas que precisamos para trabalhar. É que, embora tenhamos uma comissão que no seu mandato e na sua gestão é independente do Governo, é o Executivo que aprova os seus procedimentos de funcionamento, é o Governo que aprova o seu quadro de pessoal e é ainda o Conselho de Ministros que aprova os direitos e as regalias dos seus membros. Hoje, passados mais de sete meses, ainda aguardamos por essas aprovações”, queixou-se para depois defender a ideia de se consagrar, a nível constitucional, a criação, composição, mandato e funcionamento da Comissão Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), à semelhança do que acontece, por exemplo, com o Provedor de Justiça.
De acordo com Duma, preocupa aos membros da CNDH a independência total do órgão em relação ao Governo. “Não se pode ter uma comissão realmente actuante se ela, no fim do dia, deve ir rogar ao Governo para que lhe facilite a atribuição de uma sede, que lhe facilite a abertura de uma conta bancária, e até mesmo, ter que bajular determinado director nacional para que seja alocado pelo menos uma viatura a comissão”, disse.
Disse que não se pode ter uma comissão que promove e defende os direitos humanos quando o tratamento que a ela se dá é dimensionado em pessoas concretas que compõem ou dirigem o órgão.
“A comissão é um órgão do Estado, os seus membros devem ser tratados com essa dignidade e as suas matérias também. Só assim que ela pode cumprir com o seu mandato”, defendeu aquele jurista para depois explicar que o trabalho do órgão que dirige, enquanto comissão, é de contribuir para a protecção da dignidade humana e evitar que casos de violações de direitos humanos ocorram”.
“Por isso precisamos contribuir para a formação e desenvolvimento de um movimento nacional pelos direitos humano. Um movimento que não seja feito por um só indivíduo, nem por uma só instituição, ou por um só programa ou discurso, mas um por movimento de todos, criado por todos, sustentando a todos e beneficiando a todos os moçambicanos”, apelou Custódio Duma.
É por isso que, segundo disse, foram convidados a participar nesta mesa redonda o Provedor de Justiça (que primou pela ausência) e algumas organizações da sociedade civil para darem a sua contribuição e experiência na promoção e defesa dos Direitos Fundamentais dos cidadãos.

Alargar os Direitos Humanos na Constituição

A Comissão Nacional dos Direitos Humanos defende o alargamento das questões relacionadas com os Direitos Humanos em sede da Constituição da República.
Intervindo na Mesa Redonda sobre a matéria, o presidente deste organismo do Estado, Custódio Duma, referiu que as propostas avançadas pela sua instituição têm por objectivo reforçar a Igualdade de Género, das garantias de protecção dos Direitos dos Cidadãos e a eficácia local das Convenções Internacionais e seu enquadramento no ordenamento jurídico nacional.
As ideias avançadas têm também em vista retirar os termos discriminatórios ou com carga preconceituosa; ampliar a capacidade das instituições e dos cidadãos na promoção e defesa dos Direitos Fundamentais; para além de reforçar a capacidade dos cidadãos de participarem na vida política dos cidadãos.
Neste contexto sugeriu, por exemplo, que no artigo três do Ante-projecto de Revisão da Constituição que acrescesse a expressão “a dignidade humana” no articulado sobre respeito e garantia dos direitos e liberdades fundamentais “da pessoa humana”.
Para o artigo quarto do referido documento, a CNDH sugere que este passe a ser redigido da seguinte maneira: “O Estado reconhece os vários sistemas normativos e de resolução de conflitos que coexistem na sociedade moçambicana na medida em que “respeitam os direitos humanos” e não contrariam os valores e princípios fundamentais da Constituição.
Outro destaque que se pode fazer nas propostas do CNDH tem a ver com a salvaguarda da orientação sexual. Assim, o artigo 39 da nova Constituição da República deverá estar redigido tendo em conta esta questão, passando, assim, a ler-se que “todos os actos visando atentar contra a unidade nacional….ou discriminação com base na cor, raça, sexo, 'orientação sexual'”.
Outro assunto levantado pelo CNDH e que suscitou acesos debates durante a Mesa Redonda tem a ver com a expressão “portadores de deficiência”, para alguns discriminatória. Contudo, neste aspecto não se chegou a consenso, muito embora todos os participantes terem considerado pertinente salvaguardar os direitos humanos deste grupo social.
Outra inovação do encontro poderá ter sido a questão a ideia de se acrescer um artigo ao texto do projecto de Revisão da Lei Mãe sobre o direito à alimentação. Assim, este dispositivo terá a redacção que se segue: “Todo o cidadão tem o direito a uma alimentação adequada, sendo dever do Estado criar as condições institucionais, políticas e normativas para a sua efectivação.”
A CNDH defende, na sua proposta, a introdução na Lei Fundamental um dispositivo que clarifica o facto de na República de Moçambique o Ensino Primário Básico seja Gratuito.
 A Comissão dirigida por Custódio Duma quer, igualmente, ver alterada a composição do Tribunal Constitucional, prevista no projecto de revisão da Lei Mãe proposto pelo Parlamento. Assim, pretende-se que órgão do Estado passe a ser constituído por nove membros em vez dos actuais sete, sendo os três “novos” um Juiz Conselheiro que é nomeado pelo Presidente da República; um juiz Conselheiro designado pela Ordem dos Advogados e um Juiz Conselheiro seleccionado por concurso público.
A este artigo acrescenta-se que o Presidente do tribunal é eleito pelos seus pares e não pelo Presidente da República como acontece actualmente e está no projecto da AR.
Ainda no que concerne ao Tribunal Constitucional, a proposta do CNDH defende o alargamento das instituições que podem pedir a verificação da constitucionalidade de uma lei ou norma, inserindo neste rol as bancadas parlamentares da Assembleia da República, Ordem dos Advogados e organizações da sociedade civil. Actualmente este direito é reservado a Presidente da República, deputados da Assembleia da República, Governo e um grupo de dez mil cidadãos. Continue lendo aqui.

sábado, 18 de maio de 2013

Carta Aberta sobre a Situação Explosiva na Saúde, por Parlamento Juvenil

Excelência,

1. Queira aceitar, antes de mais, as mais cordiais saudações e votos de óptimo trabalho.
2. O Parlamento Juvenil de Moçambique (PJ), movimento de advocacia em prol dos direitos e prioridades da juventude, apreensivo em relação a informação segundo a qual os médicos e os profissionais de saúde irão levar a cabo a sua 2a GREVE GERAL EM MOÇAMBIQUE e, ao abrigo do artigo 79 da Constituição da República de Moçambique, interpela à V. Excia. para expressar o seu ponto de vista quanto ao assunto em epígrafe, tomando o ensejo de apelar ao vosso ponderoso critério de análise, a procedência da inquietação apresentada por via da qual se pretende fazer regular a nobre tarefa de servir à nossa pátria.
3. Diante dos factos que nos são apresentados, emerge a convicção de que estamos perante o preocupante situação da descredibilização do Estado Moçambicano quando viola, de forma injustificada, memorandos e compromissos que assumiu formal e publicamente.
Considerando,
Que à 15 de Janeiro de 2013 foi assinado um Memorando de Entendimento entre o Ministério da Saúde, em representação do Governo, e a Associação Médica de Moçambique que estabelecia: (i) a ausência de represálias aos médicos e médicos estagiários, (ii) a necessidade de um salário digno e diferenciado para o médico baseado no princípio de equidade com efeitos a partir de Abril de 2013, (iii) a aprovação do estatuto do médico na 1a sessão da Assembleia da República de 2013 e, (iv) a manutenção de uma plataforma contínua de diálogo – acordo este escamoteado pelo Governo;
Lembrando que,
A Carta Africana da Juventude, na sua página 9, nota com preocupação a situação dos jovens africanos cuja maioria se encontra marginalizada em relação à sociedade devido a desigualdade dos rendimentos, ao subemprego e ao acesso precário aos serviços de saúde; A Carta Africana da Juventude, no seu artigo 15 sobre os Meios de Subsistência Sustentáveis e Emprego para Jovens, defende que todos os jovens têm direito a: (i) um emprego remunerável, (ii) protecção contra a exploração económica e o exercício de funções perigosas susceptíveis de prejudicar a sua saúde e, (iii) garantia pelo Estado do acesso equitativo ao emprego e à remuneração;
Inspirado,
No artigo 89 da Constituição da República, sobre o Direito à Saúde, segundo o qual “Todos os cidadãos têm o direito à assistência médica e sanitária, nos termos da lei, bem como o dever de promover e defender a saúde pública”;
Acreditando que,
Não constitui sinal de fraqueza por parte de um Estado ceder às exigências e aspirações do povo que o elegeu; Recordando, Que o artigo 58 da Constituição da República, sobre o Direito à Indemnização e Responsabilidade do Estado, defende que “À todos é reconhecido o direito de exigir, nos termos da lei, indemnização pelos prejuízos que forem causados pela violação dos seus direitos fundamentais e; O Estado é responsável pelos danos causados por actos ilegais dos seus agentes, no exercício das suas funções, sem prejuízo do direito de regresso nos termos da lei”. Excelência,
4. O Parlamento Juvenil acredita que esta greve é justa e carregada de pleno sentido de consciência do que significa ser cidadão, dos seus direitos e deveres, bem como do seu lugar dentro da sociedade por parte da parte da classe de profissionais da saúde.
5. Ao redigirmos esta missiva ao Senhor Presidente para mostrar o nosso desagrado em relação ao incumprimento por parte do Governo do Memorando assinado com a Classe Médica aquando da 1a greve, estamos conscientes que a classe médica, os médicos estagiários e os profissionais de saúde no país têm vivenciado situações de miséria estrutural e violência simbólica permanente.
6. Acreditamos que um Estado que não respeita a classe de profissionais ligados à saúde, é um estado inconsequente e incongruente porque mais do que humilhar aos profissionais dessa área, violenta ao povo.
7. Se olharmos para a precariedade da vida dos médicos em comparação com as suas contrapartes noutras partes do mundo, emerge-nos o sentido social e revolucionário desta greve como a culminância de um processo que numa primeira fase se mostrou incapaz de ser resolvido por meio de diálogo institucional.
8. Ademais, quando olhamos para as regalias dos ministros, vice-ministros, deputados, magistrados e de outros agentes do Estado, vislumbramos alternativas possíveis para satisfazer às exigências dos médicos, reajustando as regalias dos retros mencionados ou racionalizando os recursos numa óptica redistributiva, eliminando o ostracismo social em relação aos médicos e a classe de profissionais de serviços básicos.
9. Não pretendemos de modo algum propor a “elitização” da classe dos médicos ou dos profissionais nacionais tal como não somos pela “elitização” dos nossos governantes e representantes na Assembleia do povo, mas pretendemos o resgate da dignidade e auto-estima dos profissionais de saúde como elemento indispensável para a qualidade de vida e segurança de todo o Moçambicano.
10. Distanciando-se de qualquer acto que possa ter como consequência a perda de vidas humanas, o Parlamento Juvenil se solidariza em relação ao discurso da Associação Médica de Moçambique segundo o qual os médicos e os profissionais de saúde serão vítimas de uma “escravatura moderna” à luz do artigo 28 da proposta do Estatuto dos Médicos que obriga a prestação de serviço ao Estado em condições de remuneração não condignas – o que, num cenário de pauperização das classes profissionais essenciais para a vida e dignidade humana constituídas por médicos, professores e polícias, põe em causa o discurso do Governo que tem defendido peremptoriamente o combate à pobreza.
11. Julgamos que as reivindicações dos profissionais de saúde não têm nada de anormal num país normal. Se o nosso país não for normal, consideraremos estas reivindicações anormais, mas como esperamos que Moçambique seja um país normal queremos acreditar que se levará em alta consideração as nobres reivindicações destes profissionais dentro das capacidades do Estado, luta esta que remonta desde os tempos em que o Professor Doutor Zilhão liderava a Ordem dos Médicos.
12. Importa referir que o Parlamento Juvenil colheu com satisfação a Comunicação de Sua Excelência na XVII Sessão Ordinária da Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da União Africana no tema sobre Juventude, onde em sábias palavras definiu a juventude como “o outro nome do nosso futuro” e evocou ao saudoso Presidente Samora Machel para definir a juventude como “a seiva da Nação”.
Na ocasião, referiu e passamos a citar: “A qualidade da seiva depende da qualidade dos nutrientes que a planta absorver do solo. De igual modo, a qualidade da intervenção da nossa juventude será determinada pelo investimento que para ela direccionarmos.” Hoje, o Parlamento Juvenil evoca igualmente estes inteligentes ensinamentos para acrescer que a qualidade dos serviços de saúde, dependerá também da qualidade dos nutrientes que os profissionais da saúde poderem absorver da sociedade.
13. Esperamos que se considere que os médicos são tão importantes quanto outras classes favorecidas, por isso apelamos que, no âmbito da promoção da auto-estima dos Moçambicanos, se solidarize com a causa da Associação Médica e da Comissão dos Profissionais de Saúde.
14. Esta carta Sr. Presidente, constitui um apelo aos bons ofícios de Vossa Excelência no sentido de se sensibilizar em relação ao que os médicos e os profissionais de saúde solicitam, mesmo que seja necessário cortar as regalias dos ministros, vice-ministros, magistrados, deputados, entre outros para se repartir com as outras classes profissionais – recuperando o discurso do saudoso Presidente Samora Machel quando nos intimava a sermos “os primeiros nos sacrifícios e os últimos nos benefícios”. E nós reforçamos, “que haja algo para todos e não tudo para alguns”.
Excelência,
15. Estamos convictos de que a juventude e o povo Moçambicano aceitará com maior agrado a resposta positiva da Vossa parte considerando que esta greve pode não prejudicar as grandes elites capitalistas que têm meios para recorrer às clínicas privadas mas sem dúvida, irá afectar ao povo no geral.
16. Assim, disciplinadamente, submetemo-nos ao veredicto de Vossa Excelência que tem autoridade para o proferir, na expectativa de que esta mereçá a devida atenção de Vossa parte e manifestando desde já a nossa mais profunda solidariedade em relação à causa dos profissionais de saúde e do povo Moçambicano.
17. Exigimos justiça na saúde! @Verdade

Saudações revolucionárias,

“JUVENTUDE, UM PODER EM MOÇAMBIQUE”

Maputo, aos 16 de Maio 2013

Identidade narrativa, a ética, a Europa e a esperança

por ANSELMO BORGES

Se fosse vivo, teria feito 100 anos no passado dia 27 de Fevereiro. É um dos maiores filósofos do século XX, que "se tornou filósofo para se não tornar esquizofrénico".

Refiro-me a Paul Ricoeur, sendo o que aí fica, evitando tecnicismos, uma homenagem ao grande pensador humanista e cristão, que também influenciou a teologia, com a hermenêutica.
1. Pergunta nuclear da filosofia é: o que é o Homem?, quem sou eu? Ora, não se pode duvidar do facto de que eu sou; mas quem sou, o que é que eu sou: isso é duvidoso. O Homem não é transparente a si próprio. Para chegar a si mesmo, tem de fazer um grande desvio de interpretação, passando pelas obras da cultura: a literatura, as artes, as religiões, as ciências naturais - no quadro das neurociências, em diálogo com J.-P. Changeux, fez questão de acentuar a distinção fundamental entre o conhecimento científico e a experiência vivida: o sujeito não é redutível a dados empíricos -, as ciências humanas... É mediante esse percurso que o Homem vem a si próprio; reconhece-se, narrando a sua própria história, sempre aberta e em transformação. A identidade humana é narrativa.
2. A ética ocupa lugar central no pensamento ricoeuriano. É famoso, neste campo, o seu triângulo ético: a ética é "o desejo da "vida boa" com e para outrem em instituições justas". Tudo arranca do desejo: o esforço de existir, a capacidade de querer e agir, ser. Mas "eu" (primeira pessoa) não sou sem o outro, sem o "tu" (segunda pessoa), que me solicita: "O outro é meu semelhante. Semelhante na alteridade, outro na semelhança." O encontro, porém, dá-se no contexto de um "ele", "ela" (terceira pessoa), que remete para o impessoal e institucional (instituições justas).
3. A sua filosofia está profundamente enraizada. Di-lo também um texto sobre a Europa, numa entrevista de 1997, agora publicada pela Philosophie Magazine: "Estamos em guerra económica. É um problema muito perturbador, sobre o qual nunca tinha dito nada. É hoje o problema de toda a Europa ocidental. Onde, para sobrevivermos, devemos manter uma ética e uma política da solidariedade. O combate a travar tem duas frentes: por um lado, as nossas economias têm de permanecer competitivas; por outro, não podem perder a alma - o seu sentido da redistribuição e da justiça social. Um problema enorme, quase tão difícil de resolver como a quadratura do círculo...
Ainda não acabámos com a herança da violência e da última guerra. Nem com a dureza e a brutalidade do sistema capitalista, que deu KO ao comunismo, ficando sem rival. É hoje a única técnica de produção de riqueza, mas com um custo humano exorbitante. As desigualdades, as exclusões são insuportáveis.
Estou um pouco tentado por uma solução que se poderia dizer cínica. Pode causar-lhe espanto da minha parte, mas enquanto este sistema não tiver produzido efeitos insuportáveis para um grande número, continuará o seu caminho, pois não tem rival... Penso que vamos conhecer na Europa ocidental uma travessia no deserto extremamente dura. Porque já não somos capazes de pagar o preço que os mais pobres do que nós pagam. A ascensão das jovens economias asiáticas, concretamente a da China, supõe um custo que seremos incapazes de suportar. Não só não queremos isso, mas não devemos fazê-lo. Não vamos voltar aos tempos do trabalho infantil!... É por isso que eu sou tão fortemente pró-europeu; só uma economia de grande dimensão permitirá à Europa sair disto."
4. "O Homem é a Alegria do Sim na tristeza do finito." Ricoeur sabe da finitude e do mal e da violência e da morte. Mas, em primeiro lugar, há a vida e o seu esforço de ser: "a morte não é eu como a vida, é sempre a estrangeira." Aqui, radica a esperança como sentimento fundamental: "a esperança diz: o mundo não é a pátria definitiva da liberdade; consinto o mais possível, mas espero ser libertado do terrível." Assim, na última página da sua última grande obra: La Mémoire, l"Histoire, l"Oubli (2000), publicada aos 87 anos, deixou este texto que dá que pensar e que assinou pelo próprio punho: "Sob a história, a memória e o esquecimento. Sob a memória e o esquecimento, a vida. Mas escrever a vida é uma outra história. Inacabamento. Paul Ricoeur." Diário de Notícias

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Cadê a solidariedade entre nós?!

SR. DIRECTOR!

Mais uma vez obrigado pela oportunidade que dá para publicar uma carta neste espaço do leitor. O ser humano é complicado! Tão complexo que nós não conhecemos nem 50 por cento daquilo que nós somos/de que é constituída a matéria humana, tanto a nível psicológico como espiritual! Por isso, ninguém está, ou devia estar em condições de/posição de julgar o outro!

Isto quando este falha/cai em qualquer que seja a situação, sem primeiro procurar perceber as circunstâncias, o contexto em que o nosso próximo se move/vive! Na verdade, o homem não aprendeu a apreciar o seu próximo como a si mesmo, não aprendeu a seguir a máxima bíblica já secularizada que diz: “ama o seu próximo como a si mesmo”. Quando o fazemos, é da boca para fora, são palavras vazias, palavras sem acção!
Quando alguém falha várias vezes, seja com relação à escola, ao trabalho, à família, à amizade, etc., o que recebe das pessoas à sua volta, sejam-lhe estas próximas ou não, na maior parte das vezes é zombaria, gozação, sorrisos disfarçados e murmúrios pelas costas. Ninguém procura saber do outro como ele está, quais as dificuldades que tem e se está a precisar de ajuda! A única coisa que as pessoas sabem fazer é julgar!
Não conseguimos ver a beleza do ser humano, a sua complexidade, a necessidade de aproximarmo-nos de nós mesmos para que nos conheçamos! Pelo contrário, preferimos nos estranhar, e pensar que eu sou melhor que aquele lá que passa a vida a falhar/chumbar nos testes, nos exames, sem ao menos parar um pouco para reflectir, se perguntar o que se passa com este meu companheiro, colega, e depois procurar ajudá-lo! Nestas situações/circunstâncias, é onde se vê a hipocrisia e cinismo das pessoas/ser humano em acção directa! É isto que tenho estado a constatar a partir de um cenário, “a faculdade”! Embora este mal afecte toda a sociedade! Na faculdade, ninguém está para ajudar a ninguém, cada um que se vire, é cada um por si e Deus por todos, vive-se muitas vezes um estado da natureza!
Se estás a sofrer, o problema é teu, se falhas, és alvo de gargalhadas, se estás a passar por uma crise pessoal ninguém quer saber, e logo, não terás nenhum apoio, ou consegues por si mesmo atravessar o deserto, e depois de muita luta sair vencedor, ou então, desistes, e no caso extremo suicidas-te, e no caso de suicídio, há quem pode ainda atrever-se a comentar, como se soubesse do assunto, como se te tivesse conhecido, que este é um fraco, que este é aquilo, é não sei o quê, que se fosse eu nunca teria cometido tamanha estupidez, enfim, cada um fala o que entende, mas sem saber que não sabem o que estão a falar! São os tais que, quando precisaste de uma mão, de um ombro amigo, fizeram de contas que nada viam, agiram como se não fosse com eles!
Mas hoje que jazes numa campa caiada, já sabem opinar desdenhosamente, criticando e julgando, falando como se fossem sabidos, quando na verdade são pessoas estultas! É isso, nós somos egoístas, a solidariedade não é connosco! No entanto, muitos vão sofrendo, incluindo nas faculdades, vão lutando contra um sistema social que lhes pressiona a ser vencedores e homens e mulheres de sucesso segundo os padrões do sistema capitalista-liberal, onde o que impera não é só a lei do mais forte, mas também a concorrência selvagem.
A tal concorrência predadora, onde os homens/as pessoas não só se medem pelos graus académicos que possuem (licenciado, mestre, doutor, etc.), mas também pelo tamanho e nível de rendimentos (salários, bónus, etc.) que auferem, ou seja, o que importa nos nossos dias é o ter do que o ser, é o dinheiro, o carro, o palácio, do que o próprio homem! E como a pressão vem de todos os lados, incluindo do único lugar que devia ser o nosso porto seguro, a família, a derrocada do indivíduo é inevitável, o chão vai-se, trememos, a insegurança instala-se, a seguir as paredes desabam e nós caímos, então, psicologicamente nos desfazemos, resultado: viramos farrapos humanos, tornamo-nos irreconhecíveis, até para nós mesmos! Nestes casos, em vez de ajuda, tentativa de compreensão, recebemos julgamentos, risadas! Em vez de sermos ajudados a sair do lago, eles ajudam-nos a afogar nestes lagos da incompreensão humana que nos cercam a todos! Desculpem-me pela dureza das palavras, mas somos isto… Notícias

Joel Hamba Jr.