Flávio Passos
As manifestações que tomaram nas ruas do país são legítimas enquanto
sinal de um povo que deseja participar de forma mais ativa ou, ao menos,
que percebeu que não dá mais pra ficar apenas assistindo, como se tudo
não tivesse a ver diretamente consigo. Enquanto escrevia esses dois
texto (a parte I pode ser acessada em Afropress), percebia uma mudança
no roteiro das manifestações. As peças do quebra-cabeça estão mais
encaixadas, o que não significa que se tenha uma precisão do rumo das
coisas.
As manifestações que tomaram nas ruas do país são legítimas enquanto
sinal de um povo que deseja participar de forma mais ativa ou, ao menos,
que percebeu que não dá mais pra ficar apenas assistindo, como se tudo
não tivesse a ver diretamente consigo. Enquanto escrevia esses dois
texto (a parte I pode ser acessada em Afropress), percebia uma mudança
no roteiro das manifestações. As peças do quebra-cabeça estão mais
encaixadas, o que não significa que se tenha uma precisão do rumo das
coisas.
Além das tensões apontadas na primeira parte, outras apreensões emergem
desse cenário. Por parte dos governos. Por parte de quem já “viu esse
filme”. Por parte de quem tenha se posicionado numa distância mais
crítica de tudo, buscando compreender as entrelinhas e possíveis
armadilhas. Ou, de quem esteja com a “barba de molho”. Ou, de quem
esteja torcendo pelo pior. Ou, de quem deseja que a manipulação das
massas prevaleça, mas não contra si (Rede Globo).
E há quem espere, com a atenção de uma militância ativa, que todo esse
contexto reverbere em uma mudança qualitativa em nossa conjuntura
política. Não é possível pensarmos em política no século XXI sem
participação ativa da população. E acredito que as manifestações de
junho de 2013 sinalizem não pouco conscientemente para isso. Passava da
hora do povo se manifestar, construir junto, dizer o que quer, e
participar do jogo democrático.
No entanto, de domingo, 16, pra cá, não me parece que seja apenas essa
legitimidade que esteja nas ruas, e sim a possibilidade real de se
tentar instaurar uma instabilidade política geral e inédita no país
pós-redemocratização. Fatos parecidos aconteceram às vésperas do golpe
de 64, mas principalmente na Venezuela de Chávez. Percebe-se uma mudança
da cara das manifestações gerada, não tanto tendo as redes sociais como
canal – mesmo que difuso – do protagonismo e mobilização populares,
como o foi no início, mas principalmente a pauta manobrada pela grande e
poderosa mídia burguesa brasileira.
O ápice das manifestações se deu entre 20 e 21 de junho, especialmente,
em São Paulo e Rio de Janeiro, mas também a sua disseminação por
diversas capitais e em mais de quinhentos municípios. São manifestações
diferentes, e também com desdobramentos diferentes. Algumas muito
organizadas, como as recentes em Belo Horizonte, mobilizadas a partir de
assembleias abertas com a participação de diversas organizações sociais
e pautas bem definidas, dentre elas a desmilitarização da polícia
militar. Mas, em geral nas capitais as ondas de violência de grupos
radicais, os quais não identificados em sua origem e ligações, que não
estavam nas primeiras manifestações, geram destruição e desestabilização
do movimento. Importante que a Polícia Federal investigue o que esteja
por trás – ou à frente – dessas ações violentas.
Há uma semana, a Globo tenta induzir a população a uma “manifestação
pacífica”, “contra a corrupção”, exigindo “mudanças na política”. Em
seus programas, a emissora tem esvaziado a abordagem da pluralidade
presente nas ruas e enfatizando o espontaneísmo e a presença de
“cidadãos de bem”, “cansados de impostos”, “cansados dessa política que
está aí” e que querem “mudanças na política”, no máximo, polarizando
entre os que “seguem” os mascarados e os que vêm atrás quebrando tudo,
não mostrando em momento algum a presença crescente de militantes
juvenis e de outros segmentos sociais. É a força da PIG (Partido da
Imprensa Golpista) querendo definir o rumo da história, novamente.
Na noite de quinta-feira, 20, um dia após uma linda manifestação com
mais de 10 mil pessoas nas ruas de Vitória da Conquista, Bahia,
encontrei no terminal de ônibus uma jovem trabalhadora e universitária
que me inquiriu se eu estivera nas manifestações recentes, “apesar de o
professor ser do PT”, e antes que eu respondesse ela complementou
dizendo que o melhor seria “matar a presidente”. Bateu uma preocupação.
Enquanto você percebe a manobra, é uma coisa. Quando você começa no dia
seguinte a encontrar nas ruas e nas redes seus resultados desastrosos, é
impressionante. Ali, tinha um diagnóstico de que poderíamos – enquanto
Brasil – perder uma grande oportunidade de avançarmos e não de
retrocedermos na história.
Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que a incerteza presente chama-se
"despolitização", o que gerou tudo isso tem o mesmo nome.
Considerando-se a juventude que foi pras ruas e enfrentou a ditadura nas
décadas de 60 e 70, muitos sendo mortos, muitos desaparecendo para
sempre. Considerando-se as multidões que gritaram pelas “Diretas Já”,
nos anos 80, após décadas de vozes caladas. Considerando-se os caras
pintadas – pela Rede Globo –, em 92, os quais logo após o impeachemant
de Collor, esvaziaram o movimento. Considerando-se o quanto os
movimentos sociais resistiram e o quanto foram criminalizados pela mídia
corrupta e burguesa nos governos da política neoliberal ferrenha de
FHC.
Considerando-se que, durante os governos Lula e Dilma, os sindicatos e
movimentos sociais populares trocaram as ruas pelos corredores
palacianos, não mais conseguindo fazer o caminho de volta e dialogar com
as bases que presumiam representar. Por aceitarem atuar nessa zona de
fronteira entre o instituinte e o instituído, os movimentos sociais se
desgastaram e se engessaram, não conseguindo conquistar ou preparar seus
novos quadros diretos. Em um país no qual as regras e os descaminhos da
política estão nas mãos do poder econômico, um governo popular deveria
significar uma ruptura com os velhos modelos, numa aliança direta com o
povo. E o que mais traduziria essa aliança seria o investimento em
educação política. Garantir, por exemplo, o ensino de Filosofia e da
Sociologia no ensino médio exige também uma melhor preparação dos
professores e uma definição de qual o projeto político pedagógico que
sustenta tão ação educativa.
Percebe-se que, após um hiato de duas décadas de inércia social, numa
gradativa diminuição da densidade partidária e ideológica das
mobilizações sociais, é como se a população brasileira estivesse
embriagada de alienação e de desmobilização políticas, sem ter
participado das trincheiras ideológicas, das lutas populares, assistindo
atônita a uma política, ao mesmo tempo, que tímida nas dimensões
sociais, muito comprometida com o capital estrangeiro e nacional e sem
sinais de um real desvencilhar dos seculares vícios políticos, não
conseguindo diferenciar esquerda e direita. Diminuição mas não
esvaziamento total das ruas. Destaque para os povos indígenas do MS, em
2013, os professores e estudantes universitários, em 2011 e 2012.
Internacionalmente, o forte movimento Occupy, em 2011, com fracas
manifestações no Brasil.
Entretanto, agora, ao colar na luta do Movimento Passe Livre (MPL) pela
redução das tarifas do transporte coletivo, num primeiro momento, a
população brasileira "cutuca a onça com a vara curta" e mexe com uma das
políticas menos democráticas do país. Uma pseudo parceria
público-privada imposta porque firmada em escritórios e gabinetes, se
consolida nas ruas e catracas do cotidiano dos trabalhadores em sua
restrita mobilidade para o trabalho e estudo, conjugando péssima
qualidade do serviço e favorecimento dos grandes oligopólios. Tudo isso
com a aquiescência do judiciário e a indiferença do legislativo.
É como se inconscientemente a mensagem veiculada nas redes sociais
dizendo que “país de primeiro mundo investe em transporte de massas”
tivesse surtido efeito catalisador da consciência coletiva de uma
população que custeia mais de 70% dos gastos com o transporte público.
Politização é isso. É deixar de assinar xeque em branco e delegar poder e
começar a entender o que está implícito em uma tarifa de transporte
urbano e o que significa a possibilidade de uma tarifa zero.
Dizem que governo bom – e digo, governo bem acompanhado – é igual panela
de pressão, cujo fogo é o povo nas ruas. O que cozinha feijão duro não é
a panela boa, mas o fogo aceso. Não só as tarifas diminuíram – em
centavos que impactam tanto na vida do assalariado, quanto no
enriquecimento das empresas –, mas também já surtiu o efeito do
compromisso da presidenta em estabelecer um pacto com estados e
municípios pela mobilidade urbana e melhor qualidade do transporte
público, dentre outras medidas. E que todas essas “revelações” se
aprofundem numa reconstrução da política de transporte público e se
ampliem para as demais políticas públicas. Assim, acredito que estaremos
a um passo de reinventarmos a política, ou melhor, antes, a democracia.
No entanto, a reivindicação para que os partidos não participem, em nome
de um jeito novo de fazer política, traz bem aí o perigo por se querer
“jogar pela janela a água suja, a bacia e a criança”. É possível uma
democracia representativa sem partidos? E o que colocaremos no lugar? A
última vez que isso aconteceu no Brasil foi durante a ditadura militar,
suspendendo o direito do povo se organizar em agremiações que o
representassem politicamente. Não consigo imaginar, no presente arranjo
democrático brasileiro, uma saída que não passe pelos partidos. Não sei
se os atuais ou outros que surjam a partir dos anseios de um país
desenvolvido economicamente, mas principalmente justo socialmente.
Mesmo que a mídia conservadora – e tucana – insista na tecla do “combate
à corrupção”, as bandeiras nas ruas são bem mais diversificadas. E
parecem trazer – paradoxalmente – uma resistência popular a uma onda
neoconservadora que se instaura nos bastidores da política e da vida
social – principalmente religiosa – do Brasil personificada no pastor
Marco Feliciano e outros fundamentalistas ávidos por maiores espaços
políticos.
Mas, nas manifestações é o silêncio com relação aos recentes conflitos
entre fazendeiros e indígenas que é sintomático. É o silêncio de 93% da
população paulista favorável à redução da maioridade penal. Mesma
população cujos estudantes da maior universidade pública do estado
(UNESP) ameaçaram entrar em greve no início de junho contra a política
de cota ainda não aprovada na instituição (e também não aprovadas nas
demais estaduais paulistas – USP e UNICAMP). Gente que se veste de
branco, veste a máscara do “anonymatous”, porta a bandeira e o hino
nacional.
Algumas bandeiras mais à esquerda que já conseguiram espaço nas ruas,
além da exigência da destituição de Marcos Feliciano da Comissão de
Direitos Humanos da Câmara, são os gritos de não à PEC 37, pela saída de
Renan Calheiros da presidência do Senado, pela investigação das obras
da copa, pela transformação da corrupção em crime hediondo e pelo fim do
foro privilegiado.
Mas, sinto falta das bandeiras maiores que nos trouxeram até aqui e que
já poderiam ter se juntado às que são algumas das reivindicações mais
pontuais das manifestações. Não as partidárias, nesse momento. Estas
precisam passar por uma grande reforma - a política. Mas, da melhoria da
saúde, da educação e do transporte público. Além das bandeiras sociais
desbotadas pelo sol e chuvas de décadas: a questão agrária, a questão
das terras indígenas e quilombolas, a luta ambiental, a luta contra o
racismo, a qualidade e papel do sistema carcerário, a democratização dos
meios de comunicação sociais, o financiamento público das campanhas
eleitorais, as cotas raciais no concurso público, a efetivação dos
Planos de Igualdade Racial.
Longe das ruas – ou das lentes da mídia retrógrada? – estariam as pautas
estruturais e globais, o questionamento sobre o quanto a lógica
econômica global incide sobre o nosso cotidiano, sobre os povos
tradicionais, sobre as condições dos trabalhadores, sobre a desigualdade
econômica e sobre a criminalização dos movimentos sociais. Sintomática é
a manutenção desse silêncio com relação à lógica capitalista
neoliberal.
Mas, a grande massa está mais induzida – e seduzida – pelas pautas mais à
direita, de “combate à corrupção” – nas eleições de 89, vide o “caçador
de marajás” –, e do próprio slogan carro-chefe “o gigante acordou” –
tirado do fundo do baú das marchas que antecederam os anos de chumbo. A
direita infiltra-se, sem bandeiras, sem siglas, mascarada, mas de uma
força destrutiva, tanto da legitimidade das mobilizações, quanto das
suas próprias pautas mais autênticas. Quanto aos movimentos sociais de
esquerda e às suas históricas bandeiras sociais, acredito que
gradativamente as manifestações os integrarão. E, se o Brasil deu passos
significativos no sentido de construção de um país justo e igualitário,
que prevaleçam nas ruas a tônica das reivindicações que apontem na
consolidação desses pressupostos.
O PT – partido que nasceu dos braços das grandes lutas populares e
sociais, quando assumiu o poder – ou quando definiu que este era o seu
projeto – poderia ter dito às bases: “nossa aliança é e será sempre com
as causas populares. Não governaremos sozinhos”. No entanto, na quarta
tentativa de se chegar ao Planalto, o PT já não podia dizer isso com
tanta liberdade. E, se algo fez falta nesses últimos dez anos foi o povo
nas ruas. Eu acredito em uma reconciliação entre partido, programas de
governo e o diálogo direto com as forças populares. O que significaria
um distanciamento com relação a certas alianças amarradas na última
década.
Mais que nas ruas, o Brasil se encontra em uma encruzilhada, espaço de
possibilidades, de avanços, mas também de recuos. E uma encruzilhada tem
bem mais que duas perspectivas, ou à esquerda ou à direita. Há o perigo
do retrocesso, do recuo, do passo atrás, da perda da democracia. Pior
do que o esvaziamento ideológico e partidário das manifestações é com o
que ele poderá ser preenchido. E aí, se “mente vazia é oficina do
diabo”, imagine coração vazio. Manifestações maiores ainda poderão
surgir nas próximas semanas ou até à Copa de 2014, a depender dos
desdobramentos e pactos assumidos pelos governos. E será bom que ambas
as partes entendam o novo contexto e resgatem o governo do
autossequestro ao qual o partido acreditou ser possível submeter-se –
frente às forças hegemônicas da economia e política – e sair ileso e sem
comprometer tanto o projeto que defendia.
A presidenta Dilma tem mostrado sabedoria e liderança ao costurar, com
toda a nação, um pacto em torno da melhoria do transporte público, dos
royalties do petróleo para a educação, da vinda de médicos estrangeiros
e, principalmente de um plebiscito sobre a reforma política. Com Dilma,
“o Brasil está maduro para avançar”. E que as ruas continuem exercendo
sua cidadania, para o Brasil avançar democrática e politicamente.
Pambazuka
*
Flávio Passos, 41 anos, militante negro, filiado no PT desde 2003,
mestre em Antropologia pela PUC-SP, assessor Técnico de Igualdade Racial
na Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, professor de Filosofia
no Colégio Estadual Carlos Santana, em Belo Campo, concursado.