Sem ter ido a academia nenhuma, regozijo-me de conhecer, de lés-a-lés, o meu país, onde se exclui apenas uma província, Inhambane. De lés-a-lés até é um exagero, mas ajuda-me a dizer que conheço todos os distritos da província de Maputo; todos de Cabo Delgado; menos um (Moma) em Nampula; em Niassa, menos Muembe, Mecula e Mavago; na Zambézia, todos à beira da estrada principal, tal como em Sofala e Manica; Tete, menos Zumbo, Magoé, Marávia, Chiúta e Mutarara; em Gaza só conheço, Chókwè, Bilene-Macia, Chibuto, Guijá. Claro, com as capitais provinciais, que normalmente nos recebem quando vamos a determinada província.
De algum tempo para cá, vozes, via teoria, aparecem a dizer, em nome das populações dos distritos de Monapo, Meconta, Rapale, Ribáuè e Malema (em Nampula); Mecanhelas, Cuamba, Mandimba, Ngaúma, Chimbunila, Sanga, Muembe e Majune (em Niassa) e Ile, Alto Molócuè, Guruè e Namarrói (na Zambézia), que não querem o projecto da agricultura que o governo moçambicano pretende implantar nestas regiões, com o apoio dos seus parceiros.
Estamos a falar, maioritariamente, das terras que antes tinham sido sonhadas, outras utilizadas efectivamente pelas unidades de produção que o período pós-independência recuperou das mãos dos latifundiários (outras nem por ai), fazendo delas machambas estatais, tais como em Metocheria (em Nampula, não se confunda com Metuchira, em Sofala) através da produção industrial de algodão, que fez do nosso país um potencial concorrente na arena internacional.
Estamos a falar de todos os blocos de produção, estendidos por Ribáuè (com extensão a Lalaua) Malema, de produção tabaco e milho cujas quantidades clamavam por mais competência do governo para fazê-las rodar. Estamos a falar dos complexos agrícolas de Lioma, em Guruè (Zambézia) e de todas as extensas áreas agricultáveis desta província, que por influência disso, é(ou era) a origem da maioria dos engenheiros agrónomos e técnicos agrícolas e pecuários, no nosso país. Ou disso também não sabíamos? Enfim, estamos a falar das grandes extensões de terra, que já foram machambas estatais, em Lissiete e Lipúzia, (distrito de Mandimba), Matama, Assumane, banhados pelo rio Lucheringo (no distrito de Chimbunila) e da grande machamba de Unango (distrito de Sanga).
Estamos a falar, enfim, do projecto dos 400 mil hectares, que o Plano Prospectivo Indicativo (PPI), do que hoje se pode chamar VISÃO ou plano estratégico, previa, que partiria da província do Niassa até à vizinha Cabo Delgado, irrigando os campos de diferentes culturas, criando animais de diferentes espécies para aumentar as calorias das populações e não só. Tudo isso fez algum mal?
Aliás, o mal foi o plano ter sido interrompido pela conjuntura político-militar no nosso país, do que, entretanto, com muitas saudades, vemos hoje a barragem de Chipembe inerte no distrito de Balama, donde já saiu arroz em quantidades industriais, o regadio de Ngúri, na linha divisória entre os distritos de Macomia e Muidumbe, donde já saiu muita batata-reno, razão porque em nenhum momento se consumiu aqui, então, aquela sintética, da África do Sul…
Estamos a falar exactamente das regiões por onde o PROSAVANA vai passar, por isso podemos voltar a perguntar se tudo isso fez algum mal. Ou o mal foi não ter sido continuado? A outra pergunta pertinente é: qual é a alternativa que colocam os camponeses urbanos do nosso país, que dizem representar aqueles que vivem trabalhando a terra e todos os dias chamam o governo de incompetente, por não ter podido continuar com os projectos acima referidos?
Se a alternativa for não produzir, ficamos sem perceber o porquê de tanto investimento em homens contra a produção, pior ainda se forem aqueles que não deixam fazer e nem fazem.
Um convite: estou de férias, em Maputo, aqui onde reside a maioria dos camponeses urbanos. Amanhã vou à Méti, distrito de Lalaua, que antes pertencia a Ribáuè, donde regressarei no dia 18. No dia 27, viajo para a província do Niassa, passando por Metarica, Nipepe, Maúa, Majune, Marrupa, Chimbunila, Ngaúma, Mandimba, Mecanhelas e, obviamente, Cuamba, como porta de entrada para quem vai pela via ferroviária, a partir de Nampula.
Podemos, para não dizer por dizer, ir procurar os camponeses com quem depois marcharemos contra a usurpação das suas terras, levando uma mensagem clara: nós somos os vossos defensores, lutamos para que as vossas terras não sejam ocupadas, que é melhor assim do que com culturas! Se não quiserem ir comigo, farei isso sozinho e virei dizer o que encontrei. Notícias
- Pedro Nacuo