quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Brazão Mazula: a utopia de pensar educação

“A UTOPIA de pensar educação” é a nova obra do académico moçambicano Brazão Mazula, que se encontra nas livrarias do país com a estampa da editora Alcance Editores.
Este livro é composto por um conjunto de textos que Brazão Mazula foi produzido e, na sua maioria, apresentados em orações de sapiência em instituições de ensino superior no país.
Os textos têm em comum a reflexão de aspectos centrados na educação e na formação terciária, segundo escreve, no prefácio do livro, Stela Mithá Duarte. “Esta obra possui, sem dúvida, uma riqueza extraordinária”, avança.
Ao longo dos “Ensaios”, logo ao início, a obra permite-nos revisitar a História do Continente Africano e a “Utopia” da Integração refional, ao mesmo tempo que nos convida para reflectir sobre a nossa pobreza e sobre como cada um de nós deve fazer a sua parte para superá-la, levando-nos a, através de metáforas, estabelecer uma relação entre a nossa formação, a nossa profissão e a nossa vida em geral.
Na sua abordagem, Stela Mithá Duarte refere que, um dos pontos convergentes dos textos de Brazão Mazula – que é sobre o Ensino Superior – constitui hoje uma das maiores preocupações em Moçambique. Na realidade, o ensino superior tem sido objecto de grande procura, por várias razões, podendo se destacar: “a necessidade genuína, por parte do Estado, de ter recursos humanos qualificados capazes de enfrentar os desafios ligados ao desenvolvimento num mundo cada vez mais globalizado; e a política salarial, que tem uma forte ligação com o diploma que o candidato a emprego ostenta, ou que foi adquirido já em serviço, sendo que os cidadãos procuram, em geral, obter um grau superior visando ter acesso a um salário relativamente superior”.
Entretanto, na nota introdutória, Brazão Mazula escreve que este ensaio é uma colectânea de sete textos, todos apresentados em instituições do ensino superior, cinco dos quais serviram de Oração de Sapiência por ocasião de abertura dos respectivos anos académicos. O sexto texto resulta da sua participação na “Semana de Oração e Paz”, organizada pela Faculdade de Direito da Universidade Católica de Moçambique, em Nampula.
O sétimo traz a comunicação apresentada por ocasião de abertura do ano lectivo 2010, no Instituto Superior de Tecnologias e Gestão.
Ele explica ainda que, alguns colegas docentes, que estiveram presentes naqueles actos solenes da vida de uma academia, sugeriram-lhe que publicasse em livro, sendo que, para isso, tivesse que proceder à revisão e melhoramento dos mesmos para a respectiva publicação.
“Custou-me a responder a essa sugestão porque cada tema é um assunto diferente. Em geral, um livro desenvolve um tema único que vai sendo aprofundado à medida das exigências da tese. E neste caso?”, diz Brazão Mazula.
Neste ensaio, o tema é amplo: a educação. Pela sua complexidade e dinâmica social e enquanto viverem o Homem e as sociedades, constituem um tema que nunca se esgota. Nos sete momentos penso particularmente na educação, mas também nas suas vertentes de formação e ensino e como elas se devem realizar – este é o enfoque central desta publicação. Apesar de a oração de sapiência ter decorrido em algumas instituições de ensino superior, penso em todos os estudantes universitários”, escreve o académico.
Sobre a formação e o ensino, o académico diz que eles são sempre uma relação: há um que forma e outro que está a ser formado, um que ensina e outro que aprende.
E essa relação manifesta-se mesmo na relação entre desenvolvimento e cultura, em cujo centro estão as ciências sociais (Tema 5). É uma relação de alteridade: ego-alter. Ela não é mecânica. É biunívoca, na medida em que é recíproca e se realiza em dois sentidos. É uma relação teleológica, porquanto a acção de formar e de ensinar visa a um fim: um cidadão bem-educado, vivendo numa sociedade humanamente desenvolvida (Tema 2).
A acção de um, só se dá na sua relação com o outro: do professor para o aluno e deste para aquele. Na dimensão estrutural, ela é também triunívoca, na medida em que o processo e o acto de formar e de ensinar dão-se na relação Escola-Professor-Estudante (Tema 6).

Quem é Brazão Mazula?

Brazão Mazula, doutorado em História e Filosofia da Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), foi Presidente da Comissão Nacional de Eleições das primeiras eleições gerais e multipartidárias de 1994.
De 1995 a 2007 foi Reitor da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), tendo igualmente leccionado as disciplinas de História e Filosofia da Educação no curso de licenciatura e da disciplina “Capital Humano” no programa de mestrado da Faculdade de Agronomia e Engenharia Florestal; 2008 a 2010 foi Reitor do Instituto Superior de Tecnologias e Gestão (ISTEG); e é actualmente docente na Faculdade de Filosofia da UEM; docente convidado da Universidade de São Tomás (USTM) para as disciplinas “Filosofia da Educação” e “Ética e Política”, nos cursos de mestrado; docente convidado da Universidade Católica de Moçambique (UCM) para a disciplina “Desenho e Desenvolvimento Curricular” no programa de mestrado da Faculdade de Educação e Comunicação. É Director Executivo do Centro de Estudos E Democracia e Desenvolvimento (CEDE).
Tem publicado os seguintes livros: “Educação, Cultura e Ideologia em Moçambique: 1975-1985 (1995); “Eleições, Democracia e Desenvolvimento” (1995); “Moçambique: dados estatísticos do processo eleitoral de 1994”; “Ética, Educação, Criação de Riqueza: Uma reflexão Epistemológica” (3ª edição 2008); “Pensar a Educação Perfeita: Comemorando Einsten 100 anos Depois” (2006); “Na Esteira da Academia: Razão, Democracia e Educação” (2008), além de artigos publicados. É co-autor do livro “Educação, Empresas e Desenvolvimento em Moçambique” (1997) e do livro “Democratic Reform in Africa: The Quality of Progress (2004). Notícias

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Obras que testemunham uma década de mandato

Ao abrirmos as páginas do Notícias – o jornal oficioso – deparamos com uma realidade aterradora: o órgão de informação mais antigo do país anunciou que irá publicar uma série de reportagens alusivas ao final dos dez anos de governação de Armando Emílio Guebuza. Curiosamente, a ideia do jornal que conheceu mudanças ao nível de direcção e que por coincidência abre, desde então, com as actividades do Presidente da República, irá abordar “grandes projectos que despontaram ao longo de dois mandatos (...) e que contribuíram para a melhoria da vida dos moçambicanos”. A pergunta que não quer calar e que, como dizia Azagaia, explode na garganta é a seguinte: e os pontos negativos da governação?
Como, por razões óbvias, o Notícias não falará das páginas negras da governação de Guebuza, @Verdade ocupar-se-á dessa missão. O primeiro aspecto nefasto da liderança actual do país é, como o próprio Notícias faz questão de nos demonstrar, a glorificação excessiva do Presidente da República. A reversão de Cahora Bassa e a ponte que leva o seu nome, no maior rio do país, são de facto grandes conquistas. Mas importa reafirmar que a reversão da barragem não significa mais energia e nem sequer mais alimento para a população que vive ao seu redor.
Os sete milhões que também são apontados como um grande marco impulsionaram a vida dos membros da Frelimo. Ou seja, o pré-requisito para aceder aos fundos de desenvolvimento local é ser membro da Frelimo. A nacionalidade, neste aspecto, é um mero artifício acessório. Isso deve ser vincado no mandato de Guebuza. Em dez anos tornou-se mais importante habitar no país Frelimo do que na pátria que dá pelo nome de Moçambique.
O nível de genuflexão e endeusamento da figura do Presidente da República representam uma grande mancha na sua governação. Há, portanto, mais papagaios do que nunca e a imprensa que vive dos nossos impostos está na dianteira deste processo asqueroso e repugnante que visa lamber despudoradamente as partes íntimas da governação.
As ditas Presidências Abertas e Inclusivas significaram sempre, é bom que se diga, a expressão máxima da teatralização da nossa auto-estima. Os distritos lavam o rosto para receber um Presidente que grita do palanque improvisado que o país está a progredir enquanto debaixo do verniz da mentira o povo míngua.
Guebuza há-de ser sempre o Presidente das convulsões sociais. Será lembrado ao final de dez anos como o mais alto magistrado da Nação que viu a sua filha virar milionário do dia para a noite. Isso ninguém irá esquecer. E na folha de deméritos da governação de Guebuza ainda temos de colocar em letras garrafais o aborto que foi a Revolução Verde.
O golpe teatral da cesta básica e a mentira do arroz de terceira qualidade. Um termo inventado no Ministério da Indústria e Comércio. Os especialistas do ramo de produção deste cereal nunca ouviram falar sobre tal classe de arroz. Guebuza também é o Presidente da caos no sector da Saúde e do saque flagrante de madeira nas nossas florestas.
Não adianta polir o Presidente e endeusar a sua figura. A verdade é como o azeite e sempre virá ao de cima. Guebuza será julgado também pelos seus erros. Nisso a história é infalível. @Verdade

Organizações denunciam aumento da violência policial em Angola

“É a polícia, que nos devia proteger, que comete os piores actos", diz um activista.

Um grupo de duas dezenas de associações angolanas de defesa dos direitos humanos denunciou esta quarta-feira, em Luanda, o aumento da violência praticada pelas forças polícias contra a população desde o início do ano.

“Estes últimos meses, assistimos em Angola a um nível elevado de violência policial contra manifestações pacíficas, contra vendedores ambulantes, jornalistas, activistas e defensores dos direitos humanos”, lê-se num comunicado enviado à AFP por aquelas associações.
O colectivo reagia, nomeadamente, a uma larga difusão nas redes sociais de um vídeo que mostra o espancamento de prisioneiros por parte de polícias e bombeiros numa prisão de Luanda. O comunicado critica o tratamento “desumano e cruel” reservado aos detidos nas prisões.
“É a polícia, que nos devia proteger, que comete os piores actos. Temos que tentar baixar esta pressão por parte das forças policiais”, disse Angelo Kapwatcha, do Fórum Regional para o Desenvolvimento Universitário, uma associação do Huambo, no sul do país.
"O nosso sistema política de governação foi construído com base na violência e na exclusão de pessoas pobres e diferentes, e é isso que precisamos de atacar”, sublinha Elias Isaac, da associação Open Society.
Condenando actos que violam a constituição angolana e as normas internacionais, o Ministério do Interior anunciou já ter lançado um inquérito para esclarecer os factos e estabelecer as responsabilidades dos presumíveis autores das violências.
O colectivo associativo, chamado Grupo de Trabalho para o Controle dos Direitos Humanos em Angola, reúne cerca de vinte associações presentes em todo o território angolano e que actuam em diversas áreas, como o direito à terra, o desenvolvimento agrícola, a luta contra as desigualdades.
A sociedade civil angolana e as organizações internacionais denunciam regularmente a violência policial em Angola, um país em plena construção e desenvolvimento depois do fim da guerra civil em 2002. Segundo produtor de petróleo do continente africano, o país regista altas taxas de crescimento mas a maioria da população vive na pobreza.
O país é governado há quase 34 anos pela mão firme do Presidente José Eduardo dos Santos, que em Agosto de 2012 venceu as eleições, as terceiras organizadas depois da independência, em 1975. Público

Polémico pedido de adesão da Guiné Equatorial à CPLP

Angola apoia o pedido de adesão da Guiné Equatorial à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), disse o chefe da diplomacia angolana, Chickoti, em Lisboa. Um propósito que gera muita controvérsia na CPLP.

Entre os que estão a favor e os que contestam a adesão há um ponto em comum: o país do presidente Obiang Nguema, que mantém desde 2006 o estatuto de observador na CPLP, deve fazer progressos em matérias como os Direitos Humanos e aprendizagem da língua portuguesa. É o que também defende o ministro angolano das Relações Exteriores, Georges Chikoti, em declarações que prestou à DW África em Lisboa.
Não tem sido consensual a posição dos oito países membros em relação ao pedido de adesão plena da Guiné Equatorial. O processo continua pendente na agenda política da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, atualmente sob a presidência de Moçambique, país que sucedeu Angola, este sim, um dos apoiantes da adesão. O tema terá sido abordado no encontro que o chefe da diplomacia angolana manteve com o seu homólogo português, Rui Machete, no âmbito da visita de três dias que efetua a Portugal: “É verdade que a Guiné Equatorial é um país de expressão espanhola, mas é um país que já manifestou a vontade de integrar na CPLP há algum tempo. Claro que seria bom que eles eventualmente fizessem mais progressos internos para satisfazerem a vontade de todos os membros da CPLP”.

Rejeição da pena de morte

Georges Chikoti reconhece, em declarações à DW África, que «não tem sido muito consensual» encontrar formas para acomodar a Guiné Equatorial no seio da organização. O ministro das Relações Exteriores de Angola reconhece que o desrespeito pelos Direitos Humanos está entre os entraves neste processo, mas ressalva: “Não é a questão mais decisiva”. Embora admitindo que a Guiné Equatorial ainda tem, por exemplo, a pena de morte na sua Constituição Este pode não ser o único aspeto. Vamos ter que olhar para toda uma série dos aspetos do plano de ação que a CPLP colocou”.

A CPLP definiu um plano de ação com requisitos que a Guiné Equatorial deve cumprir no âmbito do processo para a sua eventual admissão. Entre eles a adoção da língua portuguesa, já considerada na Constituição equato-guineense. Para Chikoti não basta. O ministro pede à Guiné Equatorial que dedique “algum esforço à aprendizagem da língua portuguesa”.

Decisão esperada em 2014

Na cúpula da CPLP, instituição com sede em Lisboa, há a convicção de que o país do Presidente Teodoro Obiang Nguema está a trabalhar no sentido de eliminar eventuais obstáculos a esta adesão. O secretário-executivo da comunidade, Murade constatou avanços na aprendizagem da língua portuguesa. Murargy, que já visitou a Guiné-Equatorial, é de opinião que não existem obstáculos relevantes para o efeito: “Como secretário-executivo estou tentando reunir todos os elementos que possibilitem a decisão. A decisão não é minha, não é do secretariado, é dos Chefes de Estado, que vão-se reunir em Timor em 2014”.

No entanto, várias personalidades e organizações da sociedade civil da Comunidade têm contestado de diversas formas a pretensão de Malabo. O movimento opõe-se à adesão enquanto não estiverem cumpridos todos os requisitos. Também em declarações recentes à DW África, Pedro Krupenski, da OIKOS (Organização não-governamental para a Cooperação e Desenvolvimento), defendeu que a língua portuguesa não pode ser imposta a um povo por decreto presidencial. E discordou haver evolução em relação a matérias como os direitos humanos, “num país onde a riqueza está nas mãos de uma pequena elite”. Também este ativista realça que a Guiné Equatorial “mantém a pena de morte para uma série de crimes”

Adesão desacredita CPLP

Face aos próprios estatutos da CPLP, isso implica que o país tem de adotar a Convenção da União Africana sobre a abolição da pena de morte. Numa das Cartas Abertas, os opositores consideraram que a admissão da Guiné Equatorial seria "um precedente inaceitável que levaria à grave descredibilização da organização lusófona", pelo que pediram que seja retirado ao país o estatuto de membro observador. Deutsche Welle

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Autores analisam desafios de um país em "quase guerra"

Em setembro, o Instituto de Estudos Sociais e Económicos de Moçambique lança "Desafios para Moçambique 2013". A DW África entrevistou um dos autores do livro e diretor do IESE, Luís Brito.

Com a preocupação de partilhar o conhecimento obtido em pesquisas, contribuindo para o debate público sobre questões relevantes para o desenvolvimento do país, o Instituto de Estudos Sociais e Económicos de Moçambique (IESE) anunciou, em Maputo, o lançamento, este mês de setembro, do livro "Desafios para Moçambique 2013".

Trata-se de uma coletânea de artigos de pesquisa elaborados por 23 autores e divididos em quatro partes: questões políticas, de natureza económica, sociais e a última sobre Moçambique no mundo.

Em entrevista à DW África, Luís Brito, diretor do IESE, revela que, no âmbito de uma reflexão política e, particularmente, na introdução ao livro, destaca-se que Moçambique vive uma situação de "quase guerra".

DW África: Porque é que a atual situação em Moçambique preocupa os investigadores?

Luís Brito (LB): Dada a natureza deste trabalho, que sai todos os anos, vão sendo levantadas as questões que nós consideramos, em termos de pesquisa, que são importantes para o futuro do país, o desenvolvimento, etc. E, por conseguinte, nós chamamos a atenção para esta situação em que, efetivamente, estamos a colocar uma série de desafios nos vários campos, mas num contexto político muito especial que é este de, praticamente, o país se encontrar numa situação de "quase guerra" dado o conflito, a violência que já aconteceu na zona central do país.

DW África: A aguda crise política que ameaça degenerar em conflito armado pode comprometer o crescimento económico e destruir qualquer possibilidade de desenvolvimeno do progresso social em Moçambique?

LB: Em termos de crescimento económico podemos imaginar que continua a existir, talvez um pouco mais lento, numa situação de guerra, porque o crescimento económico de Moçambique baseia-se muito no desenvolvimento dos grandes projetos da exploração do gás e do carvão, por exemplo . E esse tipo de projetos, que são muito localizados, e, por conseguinte, de grande investimento, eventualmente vão continuar a funcionar, mesmo que no resto do território possa haver confrontos e uma certa instabilidade. Portanto, é possível imaginar uma situação em que há um certo nível de violência que não vai afetar decisivamente o crescimento económico mas que afeta, com certeza, o desenvolvimento humano e social. Aliás, mesmo sem a guerra, temos um crescimento económico praticamente sem recessão da pobreza. O grande risco é, se a guerra tomar uma grande intensidade, aí mesmo o crescimento económico, que é garantido pelos mega-projetos, pode ser posto em causa.

DW África: Toda essa instabilidade em Moçambique gira à volta de uma lei eleitoral que não agrada a todos. Será possível que venha a existir uma lei eleitoral que agrade a gregos e troianos, como se costuma dizer?

LB: Possível nós podemos imaginar que sim. Mas que é difícil chegar a esse consenso, também não há dúvidas ou já se teria chegado. Não quer dizer que isso vai resolver todos os problemas que o país enfrenta em termos políticos. Mas ajudaria bastante, certamente. Aliás, alguns progressos já foram feitos. Neste momento, a grande crise relaciona-se com a composição dos órgãos de gestão eleitoral, que são órgãos decisivos, nos quais a RENAMO [Resistência Nacional Moçambicana, o principal partido da oposição] procura obter uma paridade.

DW África: A não participação da RENAMO nas eleições autárquicas (agendadas para 20 de novembro), caso não haja alterações à lei eleitoral, fragiliza a democracia em Moçambique?

LB: Naturalmente. Quer queiramos quer não, a RENAMO é, até hoje, o segundo maior partido de Moçambique, em termos de representação partidária na Assembleia da República, sempre foi a segunda força, conhecemos a sua história. É uma força política incontornável, embora a sua forma de atuar coloque alguns desafios. Mas é a realidade do país. A não participação da RENAMO coloca em questão as eleições.

DW África: Corre-se o risco de uma crise no sistema político moçambicano?

LB: Já está instalada. O episódio de participação ou não nas eleições autárquicas não vai alterar muito isso. Imagine um país onde o segundo maior partido não participa nas eleições. Há qualquer coisa que está errada. Deutsche Welle

Literatura definhou em Sofala - afirma escritor Diogo Vaz

A ENTREVISTA havia sido marcada duas semanas antes de acontecer mas, por imperativos de agenda tanto do autor destas linhas como do entrevistado, só veio a efectivar-se numa manhã de um sábado ameno na baixa da capital de Sofala, concretamente a 17 de Agosto que, curiosamente, coincidiu com o dia da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC).
A hora também acabou sofrendo alteração, ou seja, das 10.30 para 11.30 minutos. Primeiro era preciso atender as cerimónias do dia da SADC, cuja semana encerrava exactamente naquele sábado. Depois, vou ao encontro do entrevistado que já estava no local combinado.
Depois dos cumprimentos da praxe, recebo em mão um exemplar do livro ‘’A ira de chama’’. Folheio algumas páginas, mas antes de dizer algo Diogo Vaz, o meu entrevistado, atira-me: “Neste livro, que é o segundo, eu conto aos leitores, ao povo, que chama é uma fúria e não se deve recorrer a ela para resolver problemas. Isto para todas as pessoas. Tenho a infelicidade de editar isso na própria ira da chama. Há muitos problemas no mundo inteiro, guerras, mortes …”. (risos)

“OS CONTOS DE GUICALANGO”

Diogo Vaz ‘’introduz-me’’ no seu livro ‘’A ira de Chama’’ mas, antes, prefere contar sobre o seu primeiro livro intitulado ‘’Os Contos de Guicalango’’ com o qual ganhou o prémio ‘’Minerva Central’’ e Maria Odete de Jesus, da Universidade Politécnica, isto em 2008.
Conta que o prémio ganhou-o mesmo antes do lançamento do livro. Houve um concurso de livros inéditos e, como tal, havia a necessidade de se arranjar nomes falsos (pseudónimos) para poder concorrer.
“Depois de ganhar o prémio, felizmente, também ganhei a editora do livro (risos)”, remata o escritor. E prossegue: “Os Contos de Guicalango”, o que significa “Histórias da Panela” (guicalango refere-se a panela de barro em língua bitonga, falada em Inhambane), versa sobre a sociedade maioritariamente rústica, ou seja, das zonas rurais, e minoritariamente das urbanidades contemporâneas.
“A panela de barro é para cozinhar alimentos e eu busquei isso como fonte de inspiração e ponto de partida para a minha labuta literária, porque ninguém gosta de andar com barriga vazia. Caracterizei o homem que gosta de bem-estar. Falei de sociedade no seu dia-a-dia, as crenças, nomenclaturas das povoações, porque é que aparece entre outros aspectos”, acrescenta Diogo Vaz.

BELICISMO HUMANO

A conversa ia animada. O meu entrevistado abre-se mais. Fala do seu segundo livro, ‘’A Ira de Chama”.
“O Homem pensa que pode ganhar a vida matando outro. As necessidades ilimitadas fazem com que ele se torne num irracional. Por exemplo, se ele próprio criou necessidades equivalentes a 20 mil, ele já não aceita ganhar isso. Quer o dobro. Ele, o Homem, pensa que pode resolver tudo pela ira da chama. Há muita ganância. Temos que usar “escopro e martelo” para sensibilizar as pessoas. Não pode haver limites geográficos, segundo o meu pensamento”, sustenta o meu entrevistado.
O escritor fala. Gesticula. Fala pausadamente mas, de repente, volta a levantar a voz. Explica sobre as coisas que entende como estando a acontecer na nossa sociedade.
Sustenta que o Homem muitas vezes deixa-se levar pela ganância, cega. Isso faz com que ele em tão pouco tempo queira ter uma vida faustosa. “Por isso que digo que não pode haver limites geográficos”, repete Diogo Vaz.
O escritor afirma que o livro “A Ira da Chama” é um conto longo e acrescenta “…E os outros preferem dizer que romance”.

“DIÁRIO DE UM POSITIVO”

Depois o escritor muda de assunto. Destaca que agora está a escrever o quarto livro que se intitulará ‘’Os seguranças do alheio’’. Mas, ele prefere falar do terceiro que já está na editora e quer provavelmente que chegue às livrarias ainda este semestre.
Trata-se do livro “Diário de um positivo” com o qual pretende solidarizar-se com os seropositivos. Entende que o positivo, ou seja, uma pessoa seropositiva pode ter longevidade não podendo, por isso, viver desesperado.
“Quero dizer ao seropositivo que sabendo da sua condição é melhor viver bem. Algumas pessoas podem não entender porque usei dicionário da primitividade de língua. Isso para embelezar o livro porque caso o contrário seria um jornal (risos)”, afirma.
E por conta disso, garante que ganhou um grande livro. Afirma que arranjou maneira diferente de abordar o assunto sobre HIV/SIDA.
Questionado sobre o que lhe terá inspirado a abordar este assunto, Dio Vaz explica: “A pessoa que vai ler irá encontrar uma identidade. O problema tratado neste livro versa sobre Humanidade e não sobre uma determinada pessoa. Há muitas vidas interrompidas porque não sabiam como viver. Definharam. Então, pretendo chamar atenção da humanidade, independentemente de ser malária, tuberculose ou outra doença”.
Sarcástico, Diogo Vaz diz que ao escrever “Diário de um positivo” encontrou uma forma para se “divertir” as pessoas aprendendo. O livro é mais uma história relacionada com tema sobre o HIV/SIDA.
“Há uma diversidade total. Trouxe a modernidade e que encaixei uma arte mais subtil”, acrescenta. Lamenta que ninguém tenha patrocinado o livro, mesmo as organizações e instituições que trabalham no âmbito da pandemia.

PRODUÇÃO LITERÁRIA ESTAGNADA

Depois de ter falado sobre os três livros, Diogo Vaz diz que a obra que tem na manga aborda o tema da criminalidade e já tem título: “Os seguranças do alheio”. Está na fase conclusiva.
“Tenho pena que o livro vai sair numa altura em que a criminalidade, sobretudo nas formas mais brutais, como a existência do chamado G20, por exemplo, esteja em alta. Mas também me anima saber que passarão para a história. Contudo, a criminalidade sempre preocupou. Há pessoas que gostam de brincar com pólvora. Podem ter netos e bisnetos a brincarem com pólvora. É isso que é, também, a ira da chama”.
Sobre o estágio da literatura na província de Sofala, o escritor desabafa: “Pergunta-me sobre a literatura nesta província? Digo que definhou. Está dividida. Há pessoas com vontade para trazerem algo. Adelino Timóteo está sendo praticamente o único sobrevivente que até é reconhecido fora do país, mas aqui não. Talvez alguns governantes nem lêem (risos). Esperam que a sociedade leia por eles. Não há valorização da literatura. Apesar disso, há vários prémios ganhos por escritores locais, pois, fora de mim, há o Adelino Timóteo, os falecidos Heliodoro Baptista e Bahassane Adamugy entre outros mas pouco foi ou está sendo feito”.
Novamente, Diogo Vaz avança: “Tudo isso que falei incentiva alguém? Onde vamos? Os criadores não são reconhecidos, mas quando se fala de um bandido quase que é bendito. Vamos todos na predição”.
Diz ainda que na literatura está-se a remar contra a maré dadas as dificuldades e falta de valorização a que os escritores estão votados. E mais: não há editora.
A uma pergunta sobre se o problema tinha a ver com a falta de editoras, ele responde: “Não é de editoras. É dos políticos. Há mais publicidade de novelas que de livros. Já viu isso? As crianças até falam aos pormenores uma cena de novela, mas sobre livro nada sabem. Então, será multimédia que informa mais ou o livro? Eu acho que é o livro”, explica o escritor.
Diogo Vaz faz um apelo: “Esta sociedade clama por regulação. Não é simplesmente por criar leis mas por se fazer sentir a mesma lei. É preciso educar a sociedade para saber viver. O Governo deve incentivar esta sociedade. Alfabetizar é criar uma dinastia, porque somos poucos criadores. Mia Couto pode ser que venda mais lá fora que no país. Havia muita gente que lia poesia mas agora quem lê? Não sei se estou enganado nisso que digo’,’sustentou o escritor Diogo Vaz. Notícias

António Janeiro

As organizações da Mulher e da Juventude são partidarizadas e inertes

Escrito por: Coutinho Macanandze

As organizações moçambicanas da Mulher e da Juventude são reféns ao partido Frelimo e enquanto prevalecer esse cenário elas e os integrantes a igualdade de género e o acesso a várias oportunidades de inserção social não passarão de uma utopia, defende a presidente da Liga Moçambicana dos Direitos Humanos (LDH), Alice Mabota.
Ela considera que a partidarização dessas duas agremiações deixa tanto as mulheres como os jovens “acorrentados” às ideologias separatistas do partido no poder, porque não têm direito ao questionamento e acção, mesmo que se detectem irregularidades.
Alice Mabota sublinha que se deve criar organizações em prol dos moçambicanos e não de uma minoria, que somente espezinha jovens e mulheres, uma vez que ignoram os seus problemas. Num tom de repúdio ela afirmou que é necessário que as máscaras de camaradagem dos integrantes desses organismos sejam desfeitas e saibam exigir os seus direitos e cumpram deveres, lutem para conquistar sua independência. Porém, para que isso aconteça, é preciso “despir o medo e vestir a coragem para contrariar os princípios ditatoriais da ala frelimista".
A presidente da LDH vai mais longe ao referir que a actual geração está perdida, pois a sua mente foi corrompida pelo partido no poder, está desprovida de senso crítico e não consegue se afirmar sem o apoio de terceiros.
Segundo Mabota, a igualdade de género continua algo fictício porque as mulheres não são livres e têm medo de lutar para conquistar a sua independência, uma vez que temem represálias do partido no poder.
O silêncio das mulheres nos cargos de chefia está a torná-las submissas à Frelimo, porque, apesar do poder em sua mão, elas têm uma acção limitada para garantir a igualdade social e de género, concluiu Mabota, que falava num evento de entrega de um posto policial à população de Guava, no distrito de Marracuene. @Verdade

MIRADOURO - A profissão proibida progride (Concl.)

Uma profissional do sexo acabava de chegar à rua de Bagamoyo. Dizia-me ela que havia abandonado o lar. Era uma mulatinha com um corpo formidável, uma formosura de se lhe babar a saliva, uma formosura facial e física impressionantes. Porém, estava ela ali de corpo e alma, entregue à sua nova profissão, deixando, em casa, um petiz de três meses com a avó.
O marido dava-lhe chatices, já que queria que ela estivesse em casa e entregue a tarefas domésticas e do lar. Ela queria uma liberdade que muitos homens não admitem. Não queria que alguém fosse ao seu encalço. Se quisesse dar o fora, que o marido não fizesse questão, afinal de contas, a mulher estava emancipada.
Muitas daquelas meninas têm petizes por criar, tendo encontrado como alternativa da vida, a prostituição, uma profissão aparentemente fácil de se praticar. Ninguém quer saber de nada. Quem de direito, rendeu-se à evidência dos factos. Nos últimos tempos, fala-se de prostituição apenas para agradar as instituições internacionais que lutam pela dignidade da mulher e da criança feminina. Os factos reais dão conta que ninguém se preocupa com isso. Se elas vão à rua, é porque assim querem e que se virem, que os tempos são maus, que a vida aperta para todos e cada uma por si e Deus se encarrega de zelar por todas elas. Ora, há poucos dias e como o faço de quando em vez, desloquei-me à baixa da cidade capital para rever os meus amigos. Tinha que ver se tudo se encontrava no lugar. E, como sempre, a esquina habitual foi o local de encontro com o meu cunhado, que o encontrei a sorver uns goles de uma 2M bem cara naquelas bandas. O destino, algumas vezes, prega-nos partidas. A ideia inicial era apenas servirmo-nos da esquina como ponto de referência e de encontro, para em seguida, seguirmos outro rumo, o de recolher para casa, já que se tratava do fim de uma jornada laboral. Entretanto, um colega terá sido “o culpado” dos impropérios que o meu cunhado foi alvo. Tudo partiu do dólar americano, em que uma das meninas da venda do sexo disse que cambiava a moeda norte-americana. O mundo caiu em cima de nós. Como era possível um dólar norte-americano valer 30.00 MT? Foi o início da bagunça, tendo ela entendido que o meu amigo lhe dizia que não tinha valor para vender o seu sexo em dólares. Só quem esteve ali presente entendeu que tipo de gente ali frequenta. Ao que percebi, de boa educação, aquela menina nunca ouviu falar. Ou porque o álcool domava a sua consciência. Até porque companheiras de profissão que acompanharam a cena, não acreditaram no que estavam a ouvir. Era uma brava, uma bravura que podia fazer parte de uma peça teatral.
As injúrias ficaram vulgarizadas que, como sempre, ninguém, naqueles locais, está para impor ordem da civilização, pois, vender sexo humano não significa faltar respeito aos pacatos convivas que ali se encontravam, acabando confundidos com muitos que não querem gastar o seu dinheiro com as “meninas”. No meio de muita vozearia, em que eu e o meu cunhado saímos perdedores e envergonhados, consolámo-nos com esta: O local é integralmente delas e nós fomos invadi-las. O que nós esperávamos? Diz um ditado popular que quem se sente incomodado, que se retire”. Comentámos nestes termos, porém, os palavrões já haviam cessado, “socorridos” que fomos por um grupo de rapazes que nos conhecem e perceberam que, realmente, o local não era nosso. Saímos angustiados e arrependidos de lá termos posto os pés. Cada macaco no seu galho e nós falhamos o piso. Notícias

Arlindo Oliveira

terça-feira, 3 de setembro de 2013

MIRADOURO - A profissão proibida progride (1)

Uma vez mais, vejo-me obrigado a debruçar-me sobre um assunto sensível que toca com toda uma sociedade inteira. Mesmo as pessoas que se consideram pacatas e sem nenhuma preocupação em relação aos problemas que se encontram à sua volta, acabam lançando um olhar de esguelha. Acabam amuando-se em virtude do que se dá a oportunidade de viver.
De tempos a tempos, já que o mundo continua em relance, vemos coisas que mesmo com intenção de as evitar, os olhos nos desmentem, dado que estes não têm fronteiras, ficando limitados até onde o horizonte nos deixa alcançar. Muita gente não gosta que se aborde algo sobre a prostituição, seja esta infantil, como não. Para mim, a prostituição já atingiu proporções alarmantes. Algumas destas profissionais do sexo, até se orgulham de estar a fazer alguma coisa. E, realmente, estão fazendo alguma coisa para o bem delas.
A nível oficial, diz-se, aliás, o governo de hoje, bem como a nossa legislação, mandam dizer que a prostituição, considerada a profissão mais velha do mundo, é ilegal. Ninguém desmente, pois, sabe-se de sobra que a lei não deve ser contestada, mas sim, cumprida. A questão da sua eficácia, é assunto para os jurisconsultos e legisladores, embora estes últimos, cá da nossa praça, pouco se preocupam com isso. As filosofias e sociologias de Direito estão para quem conhece melhor as academias. Para muitos, a lei foi feita e pronto, quem não cumpre, sujeita-se a sanções nela anexas. Em contrapartida, as francesas já ultrapassaram a proibição.
Por motivos que aqui não importa relatá-los, fui escalar a baixa da cidade de Maputo. Aqui, vi e revi tantas cenas que já não avivavam a minha vista, já que lá me dirijo, assim, de chofre. A minha praia, como sói dizer-se, nos últimos sete anos tem sido a cidade da Matola que, por seu turno, acompanha o movimento da maior e vizinha metrópole. Oh, feliz ou infelizmente, o edil eleito já era, os seus camaradas deram o dito por não dito e o voto ficou envelhecido.
Quando cá vim cair, isso de prostituição era uma palavra oca, uma vez que só as mais famintas experimentavam, mas mesmo assim, com algum receio. O atrevimento não era para todas. Ali, nas bandas de Madruga, mais concretamente nas redondezas de Standard Bank, a prostituição é real. Quem vê aquelas meninas, pode pensar que se encontram ali à “cata” de um chapa.
Mas elas estão à “cuca” de machos que precisam de se refastelar biologicamente, sem nenhum compromisso. Nos tempos que correm, enquanto se fala de HIV e SIDA, por outro, a venda do sexo feminino é cada vez mais acutilante. As meninas também estão empreendendo à sua maneira, já que a escola lhes virou as costas, dado que partiram o lápis ainda na sua tenra idade. Aliás, há algum tempo eu batia “papo” com algumas delas, regozijando-se daquela actividade, pois, não tinham nada que fazer, enquanto tinham alguma gente por alimentar.
Uma delas tinha uma banca nas bandas do mercado Fajardo e, dizia ela, estava ali na rua do Bagamoyo, por uma questão de diversão, ou melhor, aliar o útil ao agradável, estava em regime de “biscate”. Oh, que biscate, meus concidadãos! Notícias

Arlindo Oliveira

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

As feridas abertas pelo processo de reeducação em Moçambique

Entre 1974 e o início da década de 1980, milhares de pessoas – entre elas prostitutas, dissidentes políticos e Testemunhas de Jeová – foram forçadas a ir para campos de reeducação. A maior parte não voltou.

Os primeiros anos da história de Moçambique independente foram um período conturbado. Ainda antes da independência de Moçambique (1975), o governo marxista da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) sentia a necessidade de eliminar os comportamentos e costumes associados ao colonialismo português e ao sistema capitalista, criar uma nova mentalidade e uma sociedade socialista.

Pelo que ainda em 1974, Armando Guebuza, atual chefe de Estado e na época ministro da Administração Interna do governo de transição, anunciou a criação de campos ou centros de reeducação. Este tipo de programa foi característica de outros regimes totalitários socialistas, como o da antiga União Soviética ou da China, por exemplo.
O plano inicial era reeducar, nas zonas rurais, as prostitutas das grandes cidades. Na época, o ministro Guebuza estimou que existiam 75 mil prostitutas só na capital (embora o número contemple, presumivelmente, mulheres que viviam sozinhas e mães solteiras), como reporta um artigo do jornal português "A Capital" de 1974.

O alvo das rusgas alargou-se depressa. Além de prostitutas, milhares de outras pessoas como dissidentes políticos, suspeitos de ligação ao poder colonial português, alcoólicos, autoridades tradicionais (como régulos e curandeiros) e Testemunhas de Jeová (um grupo cristão que recusa, entre outros, o serviço militar obrigatório) foram apanhados nas ruas das principais cidades de Moçambique, em particular em Maputo, Beira e Inhambane, segundo relatos em jornais internacionais.

Cerca de 10 mil reeducandos em 1980

Os detidos eram, normalmente, encaminhados para os postos da polícia e, sem qualquer comunicação à família e sem decisão de um tribunal, eram transportados para centros de reeducação, sobretudo no norte do país. Era como um castigo.
Através do trabalho forçado na agricultura, ou machamba, como habitualmente se diz em Moçambique, as pessoas deveriam ser reeducadas e, nesse processo, aprender os princípios do marxismo-leninismo.

Apesar de não haver dados oficiais, estima-se que, em 1980, cerca de 10 mil pessoas estariam concentrados em 12 centros de reeducação. O número viria a crescer nos anos seguintes - segundo estudos do historiador e antropólogo Omar Ribeiro Thomaz, da Universidade Estadual de Campinas, no Brasil.

Em novembro de 1975 foi anunciada a detenção de três mil pessoas em rusgas efetuadas nas cinco principais cidades do país, segundo o jornal tanzaniano Daily News. E em 1982 foi anunciada a suspensão de mais de 500 funcionários públicos e a necessidade de enviá-los para a reeducação.

O mais terrível

Alguns dos centros de reeducação ocuparam as instalações de antigas bases militares. Estavam em locais remotos, distantes das comunidades, de difícil acesso. Conta-se que os fugitivos, quando não eram apanhados pelos guardas, acabavam por ser denunciados pelos camponeses da região ou devorados por feras.

A maior parte dos centros de reeducação localizava-se na província noroeste do Niassa, a maior e menos habitada do país.

O centro de M’telela, no Niassa, para onde foram enviados vários inimigos políticos da FRELIMO, é considerado o mais terrível. Segundo o livro “Uria Simango - Um homem, uma causa” de Barnabé Lucas Ncomo, dos 1.800 prisioneiros que lá entraram, desde 1975, menos de 100 saíram com vida, até 1983. Em M’telela ou nas imediações terão morrido, por exemplo, Uria Simango e Joana Simeão, personalidades ligados à fundação da FRELIMO, que viriam a ser acusadas de traição.

“Lavar a cabeça” de ideias colonialistas

Natural da Beira, Félix Bingala, hoje com 57 anos, veio para a província por força da reeducação. Conta que foi integrado no programa, em 1975, depois da visita à cidade da Beira do então ministro da Administração Interna, Armando Guebuza. O ministro acusou muitos jovens de serem defensores do colonialismo português.

Na altura com 19 anos, Félix Bingala trabalhava numa loja da Beira quando foi apanhado numa rusga: “carregaram-me. Entrei no machimbombo, fui à 5ª esquadra. Dali mandara-me para o Grande Hotel. Logo de manhã, apareceram muitos machimbombos, carros, e carregaram-me para Sakuze, na Gorongosa. Atravessei o rio Sakuze. Fomos para o mato. Disseram-nos: aqui têm de construir cidade, trazer as vossas mulheres para aqui, para tirar as ideias do tempo colonial, para nos ‘lavar a cabeça’. E ficámos. Era muita gente, toda a raça estava acumulada ali: moçambicana, mista, portuguesa, havia uma mistura de pessoas em Sakuze”, recorda.

Desde esse momento, há 38 anos atrás, Félix Bingala rompeu irremediavelmente ligação com o passado: “desde que estou aqui não tenho possibilidade de contactar com a família. A minha família até pode dizer: ele já morreu; e eu ainda estou vivo”, admite.

RENAMO recrutou homens da reeducação

O centro de reeducação de Sakuze, para onde Félix foi enviado, em 1975, localizava-se na Serra da Gorongosa, na província central de Sofala. Durante a guerra civil (entre 1976 e 1992), a região foi um bastião da RENAMO, a Resistência Nacional Moçambicana.

Foi lá onde a o principal partido da oposição começou a recrutar homens para as suas fileiras, retirando-os do domínio da FRELIMO. “A RENAMO estava a aproveitar estes homens, que já estavam preparados” militarmente, diz Félix Bingala que nunca foi apanhado nas investidas.

Para escapar às rusgas da RENAMO, a FRELIMO transferiu os reeducandos. Depois de Sakuze, Félix Bingala foi para outro centro, em Panda, na província sul de Inhambane, onde, todavia, a RENAMO conseguiu recrutar mais homens. Pelo que em 1978, Félix foi novamente transferido para Majancaze, província de Gaza, onde, conta, também andaram homens da RENAMO.

Um ano mais tarde, em 1979, Félix Bingala foi encaminhado finalmente para o centro de reeducação de Msawize, no mato denso do distrito de Sanga, na província do Niassa.

Obedecer para sobreviver na reeducação

Olhando para trás, Félix recorda com amargura os centros de reeducação: “muitos moçambicanos perderam a vida, ao serem comidos por leões, ao fugirem”.

Quanto ao quotidiano, o ex-reeducando lembra: “de dia é trabalho, pegar a enxada para a machamba, ir à pesca, fazer cestas (quem soubesse), comida para a gente comer. Mas a comida não chegava para tudo e vinha da província para lá. Houve dificuldades mesmo. Se alguém saísse um pouco, a população iria amarrar. Nós éramos chamados presos, éramos amarrados, bem esticados. Tinha que se cortar cabelo “assim”, usar saco, para se saber quem é fugitivo. Até havia uma cova grande. Se você praticou alguma coisa, você desce com a escada até lá, tira a escada, fica ali, “caga ali, mija”, de manhã tira, comida vem, recebe e come. Essa era a punição”.

André Ernesto Embalato, natural de Gaza, passou também por centros de reeducação. Trabalhava numa pastelaria, em Maputo, quando em 1975 foi apanhado pela polícia sem documentos de identificação. Esteve igualmente em Sakuze antes de ser transferido até ao Niassa.

“A vida é de ser mandado, de ser batido de qualquer maneira. Quem não obedecia à ordem era batido. Quando tocava o apito, devia-se correr, se fosse quando se estivesse a comer devia-se deixar a comida e receber ordem. Se não receber ordem tem porrada, acontecia assim”, diz André Ernesto Embalato.

Na reeducação as pessoas regeneravam-se ou perdiam a vida?

O centro de Msawize durou pouco tempo mais desde que Feliz Bingala lá chegou, em 1979. Por ordem do governo, começou a trabalhar na empresa agrícola de Unango, no mesmo distrito de Sanga. A empresa estatal recebeu forte apoio da Alemanha Oriental comunista. Depois entrou em falência e Félix Bingala começou a trabalhar na horta, vendeu os seus produtos até conseguir dinheiro para pagar a viagem para Lichinga, a capital provincial do Niassa. Em 1984 encontrou apoio na organização Caritas, ligada à Igreja Católica, onde trabalha até hoje como guarda.

Entretanto, o programa de reeducação tinha terminado. Face à pressão da opinião pública internacional, o Presidente Samora Machel ordenou inquéritos confidenciais sobre as condições de vida nos campos, em finais de 1981, que acabariam por conduzir à suspensão do “processo reeducativo”.

Na época, Joaquim Chissano ocupava a pasta do Ministério dos Negócios Estrangeiros e viria a suceder na Presidência da República, após a morte de Samora Machel, num acidente de avião em 1986.

Chissano elogia ainda o processo reeducativo, como disse numa entrevista, em 2012 , à DW África: “foi pena que nós não [continuássemos] a ter campos de reeducação. Porque não eram campos de tortura, eram realmente de reeducação. A pessoa regenerava-se. Nós criámos campos para pessoas criminosas, pessoas que tinham roubado ou até tinham assassinado. E eram reabilitadas. Era um lugar onde as pessoas faziam a sua agricultura, tinham o seu rendimento, refaziam a sua vida, tinham alfabetização, aprendiam ofícios”.

"Ainda bem que terminou"

Contudo, opinião diferente tem tanto quem passou pelos centros de reeducação como quem acompanhou o fim do programa do governo.

Uma ativista moçambicana, que pediu o anonimato, viveu de perto, no Niassa, o fim do processo reeducativo assim como do programa que se seguiu, a Operação Produção (de trabalhos forçados).

Segundo a ativista“ falar abertamente nesse assunto é um pouco difícil, porque é considerada uma questão política e também foi um projeto menos sucedido que trouxe a perda de muitos cidadãos. (…) Houve feridas abertas, famílias separadas, pais e filhos, muitos perderam a vida. Não foi bem sucedido esse plano. Ainda bem que terminou, porque hoje em dia não vem ninguém para o Niassa para ser reeducado”. Deutsche Welle