Borges Nhamire do Centro de Integridade Pública (CIP) tece duras
críticas à organização das eleições gerais moçambicanas. Questiona a
legitimidade do resultado e acha que isto também pode prejudicar a
FRELIMO.
O jornalista moçambicano é pesquisador da organização não-governamental
CIP - Centro de Integridade Pública. Desde a última sexta-feira (31.10),
Borges Nhamire está na Alemanha para participar no seminário anual do
Comité Coordenador Moçambique Alemanha – Koordinierungskreis Mosambik
(KKM) – em Berlim.
DW África: Normalmente há vários “selos de qualidade” de
eleições como livres, justas e transparentes. Quais são os selos que
iria atribuir a estas eleições?
Borges Nhamire (BN): É um pouco difícil atribuir os selos às eleições.
Porque os principais interessados são os partidos políticos, os
concorrentes. Portanto, por mais que nós, os cidadãos, achemos que as
eleições correram bem, quando os concorrentes acham que as eleições não
correram bem, e portanto não podem ser consideradas credíveis.
Eu daria só alguns exemplos como as eleições correram mal ...
DW África: Quais foram os piores acontecimentos?
Para não falar da violência que é um aspecto muito negativo. Eu sonho
mesmo que por uma vez os moçambicanos não sejam baleados nem agredidos
pela polícia só porque o país está a organizar eleições.
Penso que mostramos nestas eleições que regredimos do ponto de vista organizacional como país.
DW África: Se comparamos estas eleições com as de 1999, que
foram muito criticadas por observadores internacionais, estas eleições
de 2015 foram realmente piores do que as de 1999, em que houve uma
margem muito pequena nas presidenciais entre Joaquim Chissano [candidato
vencedor da FRELIMO] e Afonso Dhlakama [candidato da RENAMO]?
BN: Sim, costuma-se dizer que cometer erros é próprio de um ser
humano, mas repetir os erros é burrice. Parece que nós, os moçambicanos,
estamos neste segundo estágio, porque repetimos os mesmos erros.
Aí, questiona-se se são erros por desconhecimento ou erros premeditados?
Realmente, em 1999, as coisas foram priores. Mas, o que se esperava era
que as coisas tivessem melhoradas. Estamos a falar de 15 anos depois. O
que nós aprendemos com os nossos erros?
Ora, a questão mais importante é a quem beneficiam esses erros? A
experiência no terreno é que estes erros tendem a beneficiar sempre o
mesmo partido e os seus candidatos, que é o partido no Governo. Isto tem
implicações na legitimidade dos nossos governantes. O que fica na
memória de muita gente é que eles chegaram ao poder por vias
fraudulentas. Isto é negativo para toda a sociedade, mas também é
negativo para os próprios dirigentes.
Outra percepção, que fica, é: vale a pena ir votar, se o resultado já
está definido? Consequentemente temos esta participação em que a maioria
dos cidadãos se alheia ao processo eleitoral. Nós temos que mudar a
maneira como fazemos as coisas, se queremos que a nossa democracia seja
realmente participativa. Ou de outra forma, vamos continuar a brincar a
democracia e muitos cidadãos vão ficar de lado.
DW África: Se analisamos os resultados a nível provincial, e
principalmente a participação a nível provincial, salta à vista a
participação recorde na província de Gaza, tradicionalmente um bastião
da FRELIMO. Em alguns distritos de Gaza votaram mais de 85% ou 90% dos
cidadãos que lá residem e têm direito a votar, quando a média nacional
de participação andou a volta de 50%. Como é que se explica isso?
BN: Não parece haver muitas dúvidas que houve evidências claras de
fraude eleitoral. Em Massangena, um distrito no norte de Gaza, de que
quase não se ouve falar dele, 98% das pessoas foram votar. Claramente
houve enchimento de urnas. Isto é tradicionalmente assim.
É interessante dizer que nestes distritos, onde houve maior
participação, foram às urnas 98% das pessoas das quais 95% vota FRELIMO.
Então claramente são resultados manipulados. O que falta neste momento é
encontrar provas de que estes resultados foram manipulados. Mas
logicamente não parece haver dúvidas que não houve ninguém que votou
nestes níveis. Parece que é humanamente impossível.
Este tipo de eleições com participação de 98% e votação de 95% no
partido no poder é típico de regimes com tendência ditatorial. Estamos
habituados a ver este tipo de resultados na Coreia do Norte, na
Guiné-Equatorial e nessa província de Gaza onde a oposição não teve
participação.
É interessante notar a distribuição dos delegados dos partidos políticos
e dos membros de mesa de votação dos partidos políticos por província,
porque a província de Gaza teve o menor número de membros da oposição
nas mesas de votação. Em média, a FRELIMO teve 2.000 membros em Gaza, a
RENAMO teve 300 e o MDM teve cento e qualquer coisa. Então são eleições
que não foram acompanhadas. Infelizmente, Gaza continua a fazer parte
desta história negativa para a democracia moçambicana!
Eu não estou a dizer que os eleitores de Gaza não têm o direito de
escolher quem quiserem. Eles têm. Mas as coisas deviam acontecer de
forma transparente e que não deixe suspeitas como no caso de
participações acima de 80% quando a média nacional foi de 48%. O que
aconteceu de especial naqueles distritos que as pessoas votaram em
massa?
DW África: Uma solução poderia ser repetir estas eleições?
BN: Repetir as eleições no próximo mês não é solução. Porque ainda não
estamos preparados. Seria gastar muito dinheiro público, gastar muito
tempo do cidadão para realizar eleições cujo resultado também não seria
tranquilo. Porque nós não cometemos erros por desconhecimento,
comentemos erros propositadamente.
Vejo duas soluções possíveis ( claramente que ista é a minha opinião) :
conhecendo a sociedade em que vivo, uma solução poderia ser aquele que
ganhou formar um Governo inclusivo. Porque a exclusão social, política e
económica é um dos grandes problemas que vivemos em Moçambique. Dizer
que a FRELIMO e o Nyusi venceram as eleições e, no entanto, damos à
RENAMO a prerrogativa de dirigir um ministério relevante. Por exemplo, o
Ministério da Educação. Dizer à “RENAMO está aqui o Ministério da
Educação, planifiquem a educação, executem a educação e façam as vossas
coisas.” Não é necessariamente fazer um governo de coligação, mas seria
um governo de inclusão. Eu penso que esta seria a saída mais honrosa.
O que a RENAMO está a propor é a formação de um governo tecnocrata ou de
um governo de unidade nacional para tornar a organizar eleições dentro
de dois anos. Poderia ser uma solução, mas eu não vejo a FRELIMO a
aceitar esta saída.
Deutsche Welle