Debates acalorados marcaram a sessão parlamentar que reviu o OGE
angolano para 2015. UNITA questionou sobre o destino do dinheiro do
petróleo. PRS quer responsabilizar dirigentes do país pelo desvio dos
fundos públicos.
Em Angola, a proposta de lei do novo Orçamento Geral de Estado (OGE) de
2015 foi aprovada na generalidade esta quarta-feira (25.02), pela
Assembleia Nacional, e implicará um corte de um terço nas despesas
totais.
A revisão do OGE deve-se à queda na cotação do preço do petróleo nos
mercados internacionais. O documento define que a previsão da cotação do
barril de crude para exportação, necessária para a estimativa das
receitas fiscais, desce de 81 para 40 dólares. Esta revisão fará reduzir
o peso do petróleo nas receitas fiscais angolanas de 70%, em 2014, para
36,5% este ano.
Durante a sessão parlamentar, o Governo angolano apresentou uma previsão
de crescimento de 6,6% da economia em 2015, uma redução em relação ao
Orçamento Geral do Estado em vigor.
Debate intenso
A aprovação da proposta de revisão do OGE gerou um caloroso debate entre os deputados angolanos.
A bancada do partido no poder, Movimento Popular de Libertação de Angola
(MPLA), reiterou o apoio à medida para aumentar a receita tributária
não petrolífera, bem como às que visam a redução da despesa pública.
Já o maior partido da oposição angolana, a União Nacional para a
Independência Total de Angola (UNITA), considerou o orçamento revisto
"uma austeridade profunda" que "vai agravar a vida da maioria dos
angolanos" e pediu esclarecimentos ao Governo do Presidente José Eduardo
dos Santos sobre o destino dado aos fundos do petróleo – nomeadamente a
Conta Diferencial do Preço do Petróleo, a Conta de Receitas do Bónus
das Concessões do Petróleo e a Reserva Financeira Estratégica
Petrolífera para Infraestruturas de Base - e ao Fundo Soberano de Angola
(FSDEA).
Esta posição foi defendida pelo presidente da bancada parlamentar da
UNITA, deputado Raul Danda, durante a discussão e votação na
generalidade do OGE.
"Durante todos esses anos, em que o preço real do barril do petróleo foi
largamente superior ao preço médio inscrito no orçamento, foram
poupados muitos bilhões de dólares que deveriam ir para o chamado Fundo
do Diferencial do Preço do Petróleo [referindo-se à Conta Diferencial do
Preço do Petróleo] e que deveriam vir em socorro da nossa economia
neste momento em que as vacas emagrecem," disse.
O deputado interpelou ainda sobre o destino dado ao dinheiro do petróleo
angolano. "A pergunta que os angolanos todos fazem é: Onde está esse
dinheiro? Viajou para onde?"
O líder da bancada parlamentar do maior partido da oposição classificou
ainda o orçamento ora aprovado como o pior dos últimos 13 anos que,
segundo Raul Danda, poderá empobrecer drasticamente o país.
"Vai agravar de forma desastrosa e desastrada a vida da maioria dos
angolanos. A austeridade vai piorar ainda mais a já difícil e de má
qualidade vida dos angolanos, com os principais meios de consumo a subir
de preço de forma vertiginosa," considerou.
O deputado deixou ainda um conselho aos membros do Executivo: "Orem
muito, o mais que puderem, para que um dia os angolanos vos perdoem por
tão maldosa e desastrosa gestão que impõem ao país".
Ainda sobre o Orçamento Geral de Estado revisto e aprovado na
generalidade pelos deputados nesta quarta-feira (25.02), o Partido da
Renovação Social (PRS), na voz do seu líder parlamentar Benedito Daniel,
defendeu que, enquanto os membros do Governo do MPLA continuarem a não
ser responsabilizados pelos desvios dos fundos públicos, as execuções
orçamentais jamais atingirão os objetivos preconizados.
"As execuções dos OGEs não devem constituir motivo de enriquecimento
ilícito de várias individualidades ligadas à gestão do orçamento do
Estado, desviando-se recursos para fins individuais," disparou.
Argumentos ignorados
Entretanto, sobre o esclarecimento socilitado pela UNITA relativamente
ao paradeiro das reservas internacionais líquidas, os auxiliares do
titular do Poder Executivo presentes na secção de discussão e aprovação
do OGE revisto preferiram fazer ouvidos de mercador.
Da bancada parlamentar do partido no poder, na voz do seu presidente
Virgílio de Fontes Pereira, ouviram-se apenas palavras de encorajamento e
apoio incondicional ao Governo.
"Apesar dos constrangimentos gerados, principalmente pela persistente
queda do preço do petróleo no mercado internacional e que se refletiu de
forma profunda na economia nacional, continuaremos a registrar um
crescimento positivo, tal como já referido," amenizou.
A nova proposta de Orçamento Geral do Estado para 2015 revisto,
submetida pelo Presidente José Eduardo dos Santos à Assembleia Nacional
de Angola, teve apoio dos grupos parlamentares do MPLA e da Frente
Nacional de Libertação de Angola (FNLA), com um total de 156 votos a
favor, e 29 votos contra da UNITA e do PRS.
A Casa-CE, não participou na plenária por estar em jornadas parlamentares.
A queda do preço do petróleo está a causar dificuldades no envio de
divisas para fora de Angola, num contexto de acentuada diminuição das
receitas fiscais e da escassez de divisas estrangeiras.
Na semana passada, a missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) para
Angola considerou "oportuna e inteligente" a proposta de revisão do OGE
de 2015, devido à descida "brusca" do preço do petróleo no mercado
internacional. Deutsche Welle