40 anos depois da independência, as
tensões raciais ainda estão à flor da pele: vê-se no discurso, nas filas
de espera, na competição pelos lugares de chefia. “O privilégio branco é
visível também em Angola”
A igreja da Sagrada Família, em
Luanda, é um dos monumentos mais conhecidos da cidade. Projectada pelos
arquitectos Sabino Correia e Sousa Mendes, foi inaugurada em 1964, num
bairro movimentado, Maculusso.
Na estrada e no passeio
atravessa-se uma pequena amostra da população da Angola de hoje: um
jovem com roupa desportiva, um militar, uma candongueira, um
engravatado. Centenas de pessoas passam por ali, a pé ou de carro, e é
provável que muitas já nem notem um mural vermelho onde se conta, a
escrito e a desenho, “a história do MPLA pela juventude”.
Frases
como “escravidão camponesa” alinham-se a amarelo. Seguindo, então, a
história, podemos ler: “Para os angolanos sempre o pior trabalho”.
“Exploração” e “colonialismo”. Um homem negro com uma venda nos olhos e
outra venda na boca foi desenhado a preto e branco, assim como uns
contentores com Lisboa e Portugal escritos a preto. A sequência de
imagens e palavras não é necessariamente esta, mas a mensagem que nasce
da associação entre elas é óbvia — a exploração da terra e do povo pelos
colonos portugueses.
Passados
40 anos da independência,
o legado colonial em Angola não se sente apenas na arquitectura da
cidade. O discurso que se lê nos murais está, também, nas palavras dos
angolanos na rua. Das fracturas que o colonialismo deixou, nas relações
raciais, há marcas que o tempo não apagou nem apagará tão cedo — marcas
mais evidentes para uns do que para outros, marcas mais associadas ao
colonialismo por uns do que por outros.
Num país em que mais de 60% da população tem menos de 24 anos, a maioria não viveu o período em que havia um “
apartheid”
em Angola, pelo menos informal: o sociólogo Paulo de Carvalho,
professor na Universidade Agostinho Neto, 55 anos, lembra-se de uma
Angola colonial em que havia separação das raças, social e também
espacial. Nas cidades estavam o casco urbano, onde viviam os brancos, e
nos anéis circundantes os musseques, onde viviam os negros.
Nascido
em Luanda, Paulo de Carvalho foi com dois meses para o Lobito, na
província de Benguela, cidade onde existiam os autocarros para brancos e
os autocarros para negros. Alguns negros tinham acesso aos autocarros
para brancos, mas muito poucos — eram os chamados “assimilados”, grupo
ao qual Paulo de Carvalho pertencia.
Os assimilados eram os que
conseguiam ultrapassar o estatuto de indígenas — e indígenas eram “todos
os indivíduos de raça negra ou dela descendentes que, pela sua
ilustração e costumes, não se distinguissem do comum daquela raça”.
Tinham de falar correctamente português, ter adquirido hábitos como
comer com talheres e à mesa, ter bom comportamento e — muito importante —
receber um salário.
Ser assimilado era “ter uma maior
identificação com o colonizador, com a nação portuguesa”. Paulo de
Carvalho lembra uma história: tinha uns sete ou oito anos, e houve uma
campanha de vacinação em que teve de preencher o item raça. Alguém lhe
disse para colocar um “B” de branco. O pai quando viu o seu cartão de
vacinas perguntou: “Quem te disse que tu és branco? Tu não és branco. Se
alguma vez te disserem para escreveres que és branco, tu dizes que não.
Se insistirem, tu dizes que ‘o meu pai disse que eu não sou branco’.”
A leitura que faz hoje do episódio é clara: “Como eu era assimilado, já era branco [para quem lhe indicou para o fazer]…”
No
dia-a-dia passavam-se várias coisas que não percebia. Por exemplo, via
os mais velhos afastarem-se do passeio para deixar passar os brancos
mais novos quando o hábito era, na verdade, os mais novos, em geral,
darem lugar aos mais velhos. Nas farmácias, era comum ver negros ou
mestiços à porta a espreitarem para verificar se estavam brancos — se
estivessem, esperavam “e vergavam-se para poderem ser atendidos”. Havia
bares que quem não era assimilado não podia frequentar — podia entrar
para comprar alguma coisa, não para se sentar. “A discriminação e o
percebermos que éramos inferiores acontecia todos os dias.” Isto era
assim até pelo menos 1970, descreve.
Era o reflexo de um racismo
institucionalizado, permitido pela legislação, com a discriminação dos
grupos raciais, em que os brancos estavam no topo da pirâmide
hierárquica.
José Patrocínio, fundador da ONG Omunga,
filho de portugueses brancos, também se lembra dos autocarros
separados. “A justificativa era que um autocarro era mais caro do que o
outro.” Ele que vive no Bairro da Luz, no Lobito, há 40 e tal anos,
pertencia a uma classe média que tinha acesso a vários serviços.
Na
casa onde vive há décadas, e que funciona como sede da Omunga, há
várias obras de arte africanas na parede. A sala é ampla, dá para um
pequeno alpendre — à sua frente está um tronco de árvore caído,
resultado das cheias que em Março assolaram a região de Benguela. O
centro de Lobito ainda conserva muito da arquitectura colonial do século
XX, e há zonas como a Restinga que ainda evidenciam o poder económico
da época. Hoje as cidades são circundadas por enormes musseques onde a
maioria da população tem falta de água, de luz, de saneamento básico.
José
Patrocínio tem barba e cabelos brancos, usa rastas e anda descalço.
“Estudei na escola pública. Na primária devo ter tido um ou dois colegas
negros. A partir da independência, começa a haver uma grande mudança no
sentido de pensar a escola. Mas começa a haver também problemas, a
maior parte dos professores eram portugueses e foram-se embora. Foi-se
tentando tapar o buraco, tinha aulas com professores que eram alunos do
7.º ano.”
Muitas vezes nem se apercebia da questão racial porque a verdade é
que no quotidiano eram poucas as relações com pessoas de outras raças.
“Sei que havia muito racismo. Lembro de o meu pai falar que foi ele que
conseguiu que um clube lusitano aceitasse pela primeira vez jogadores
negros; era argumentado que as questões não eram baseadas na raça mas
eram económicas. A única relação que tinha com negros diariamente era
com as pessoas que trabalhavam na nossa casa e comiam connosco à mesa.
Mas com os vizinhos já não era assim: [os empregados negros] comiam no
quintal e se calhar a comida deles era diferente.”
À flor da pele
A
noite cai cedo em Luanda, a 25 de Março. Pelas 18h já está escuríssimo.
No auditório da Mediateca, o ex-futebolista francês Lilian Thuram
(nascido em Guadalupe) tem à sua frente uma plateia cheia e curiosa.
Presidente da Fundação Lilian Thuram — Educação Contra o Racismo, veio a
Angola falar do seu livro
As Minhas Estrelas Negras.
Homem
alto, imponente, Lilian Thuram vai dizendo pausadamente que no
consciente colectivo a história dos povos negros começa na escravatura,
por isso “é compreensível que haja preconceitos baseados na cor da
pele”. “As pessoas pensam que os negros são inferiores. Por isso é
preciso contar outras histórias, e essas histórias são reais e existem.
Por isso apresento nas minhas histórias negras pessoas que existiam
antes da história da escravatura nas Antilhas.” Define: “O racismo é um
sistema económico como a colonização o é, mas quando se quer explorar
alguém tem de se construir a inferioridade de alguém, como os homens
construíram a inferioridade das mulheres.”
Há jovens e velhos a
assistir, negros e mestiços, brancos, angolanos, estrangeiros, gente que
pertence à classe média e média alta. Quando o microfone passa para a
plateia, muitos querem fazer perguntas. O racismo é um tema que está no
quotidiano em Luanda. Não é mero assunto incómodo posto debaixo do
tapete. Aparece nas discussões mais corriqueiras em filas de espera para
qualquer coisa. Ou no final de uma discussão sobre a relação
preço/qualidade de um prato de comida que acaba de chegar à mesa. Num
país em que a liberdade de expressão leva pessoas à cadeia, o racismo é,
surpreendentemente, um tema à flor da pele.
A capital, pensada para cerca de 250 mil pessoas mas onde vivem cerca de 5 milhões, é palco de muitas tensões.
“Como é ser negro em Angola? É como ser branco na Europa”, diz Sacerdote,
rapper,
produtor e promotor cultural. Racismo existe em todo o lado, Angola não
é excepção, e ele próprio já foi vítima. “É como a corrupção, nunca vai
acabar — vamos lutar bué, mas enquanto formos homens...”
No Sambizanga, onde vive, “não há muitos mulatos nem brancos”. É um
dos maiores musseques de Luanda, um bairro de lata onde muita gente tem
medo de entrar. No centro, a enorme estrada foi transformada em rio
devido às cheias. Os vendedores assam comida em frente a lixo, galinhas
passeiam-se entre escombros, há lixo de todo o tipo nos telhados.
Os
musseques foram pensados como zonas separadas para os negros durante o
período colonial — os brancos ficavam no centro da cidade. “Proporcionar
as comodidades da vida na Europa à comunidade não era tarefa simples
numa colónia falida e parcialmente povoada por condenados. O
abastecimento de água foi, durante séculos, um problema tremendo”, lê-se
em
História de Angola, de Douglas Wheeler e René Pélissier.
O
facto de a população dos musseques ainda hoje ser maioritariamente
negra é visto como consequência da separação racial do tempo colonial.
As
relações raciais definem-se por quem controla quem, quem exclui quem e
quem se vê excluído, comenta Elias Isaac, 55 anos, director da Open
Society Iniciative of Southern Africa (OSISA) em Luanda. Hoje em Angola a
questão das relações raciais aparece de forma subtil, continua, na sede
da ONG, que fica num dos prédios novos de Talatona. Talatona é um
bairro onde ficam muitas empresas, é também uma zona residencial da
classe média alta e o trânsito de manhã e ao final do dia é compacto.
No
quotidiano, os angolanos negros, a maioria, os mestiços (cerca de 2%) e
os brancos (1%) convivem, estão nos mesmos restaurantes, estão nas
mesmas discotecas, defende. Mas se aprofundarmos: “Nos subúrbios mais
pobres, só existe um tipo de gente, os angolanos de raça negra. Nos
condomínios, nos bons subúrbios, há angolanos de raça negra da elite,
com angolanos de raça mista, de raça branca ou povos de outras nações.
Por isso digo que [o racismo] não aparece de forma tão expressiva na
sociedade, mas subtilmente.”
Nasceu na Canata, um bairro “excluído de quase tudo” em Lobito.
Lembra-se de o pai ter sido preso pela PIDE e de lá ter ficado durante
uns três anos. “Passámos muita carência nesse período, só porque o meu
pai tinha convicções diferentes do sistema e foi excluído. É uma
referência que tenho na vida. Muitas vezes quando estou numa situação de
relação com um português isso talvez volte a tocar a minha alma, a
minha vida”, confessa.
Para o presidente desta ONG que trabalha
direitos humanos e sociais, em 1975 não houve uma transição mas uma
ruptura. Os angolanos brancos e os portugueses brancos “desapareceram”
durante um largo período de tempo — regressaram mais tarde, já não com
domínio político, mas com domínio económico e social. O problema é que
desde 1975 não houve um programa de transformação social, sublinha, e
muitos dos elementos do colonialismo português ainda estão vivos. Por
exemplo, a questão da exclusão social reflectida no facto de os pobres
viverem em musseques, que se mantém. “Aceitou-se isso como uma norma, em
que uns tinham de viver assim para outros viverem de outra forma. Isto
tem reflexo nas próprias relações raciais. Transformação social não é um
país criar uma elite, uma pequena burguesia, uma minoria e ter isso
como exemplo. Não: é ter a maioria como exemplo. O que Angola está a
tentar fazer é a transformação social com uma minoria que vive nos
condomínios, tem acesso ao crédito bancário, a bons empregos, enquanto a
grande maioria que já no passado viveu excluída continua excluída nos
musseques.”
Aparentemente, esta é uma questão mais de classe do
que de raça. Mas o problema coloca-se quando um engenheiro estrangeiro
branco chega a Angola e há diferença de tratamento, sublinha Elias
Isaac. “Vai encontrar um médico angolano e um expatriado a fazerem o
mesmo trabalho mas a ganharem salários diferentes e a viverem em
condições sociais completamente diferentes. O poder político incentiva
esta diferenciação. O Governo aceita praticar essa diferença. E isto é
uma questão racial porque não acontece a mesma coisa com alguém da
Zâmbia ou do Zimbabwe que vem trabalhar aqui.”
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