De vários pós, Mia Couto tenta entrelaçar estórias e histórias sobre os últimos tempos do império de Ngungunyane. Fá-lo através de uma trilogia, a que chama “As Areias do Imperador” e de que já apresentou o primeiro livro, “Mulheres de Cinza”.
O escritor diz não estar a tentar reescrever a História da derrocada do Império de Gaza, um dos mais importantes em África em finais do séc. XIX. Pretende, antes, chamar os moçambicanos para um exercício que considera necessário e intemporal: “a interrogação sobre a identidade e a memória”, construída muitas vezes sob ditames que muitas vezes ignoram a habilidade que as sociedades têm de interagir com o seu passado ou sobre tentativas de eternização de verdades circunscritas a determinado tempo. Ngungunyane é um nome de consensos e de divergências, de honras e de vergonhas e às vezes de embaraços. Estas facetas apaixonaram o também autor de “Terra Sonâmbula” para esta incursão cujo resultado começa a ser desvendado em “Mulheres de Cinza”. O lançamento deste primeiro volume da trilogia de Mia Couto foi pretexto para uma entrevista de que publicanos, neste espaço, as principais linhas:
- “Mulheres de Cinza” estreia uma trilogia, “As Areias do Imperador”, com que pretende abordar os últimos dias do Império de Gaza. O que é Mulheres de Cinza” e o que será a trilogia no seu todo?
- Primeiro deixa-me referir que este, “Mulheres de Cinza” livro não pode ser proferido sem que se perceba que ele faz parte de um conjunto, a trilogia. É uma trilogia e a história já está toda na minha cabeça. É a primeira vez que isso me acontece, ter a história inteira ou o livro primeiro na cabeça antes de leva-lo ao papel. Tenho, posso assim dizer, a arquitectura do livro. Não sei o que vai acontecer mas já tenho a arquitectura do livro. No conjunto, o livro vai contar, aparentemente, os últimos dias do reinado de Ngungunyane. Não me apetece falar muito sobre Ngungunyane em particular, mas quero que ele seja simbolicamente um cruzamento de mitos, de lendas, de construções do passado que nós criámos para nós próprios em Moçambique. Esta (o primeiro livro da trilogia) é a primeira parte, contada por uma menina chope, que neste primeiro livro é uma espécie de antena para perceber as tensões, a chegada da grande invasão na altura em que Ngungunyane já se tinha estabelecido em Mossurize e depois migra para fazer o seu quartel-general em Manjacaze. E curiosamente já não só os vanguni, ele trouxe com ele cerca de 100 mil vandaus e isso é uma coisa que às vezes se esquece. Ficam logo perguntas como perguntas como ‘destes 100 mil não houve uns que ficaram, que se misturaram, trazendo os Sitóis e Sitholes, dos Muchangas, que são de um lado e do outro. Essas coisas fazem-nos pensar na nossa história, na nossa história recente. Voltando à questão, esta menina vai contar como é que estas tensões vão crescendo e como é que ela é testemunha de um episódio de guerra, de enorme matança junto àquela região de Zavala, Inharrime, etc. E esta menina depois vai situar-se junto da corte Ngungunyane, ela que é confluência de muitos mundos por falar português, zulu, chope, etc., servindo assim de tradutora de mundos. Por essa circunstância ela torna-se próxima da corte do imperador e torna-se também próxima do quartel militar dos portugueses naquela região. Ela embarca, depois, no mesmo navio, que curiosamente se chama Moçambique, que vai transportar Ngungunyane e os outros quatro prisioneiros para Portugal. Basicamente é essa a história do livro.
- Diz que tem a trilogia toda já arquitectada. Por esse facto, o que vem é algo definitivo ou preliminar na medida em que ainda não estão no papel os outros dois volumes?
- O que eu tenho é a arquitectura do livro. Se estou ansioso para pô-la toda no papel, ela existe, sim. Ao mesmo tempo o que eu quero saber é a história. Mas estou dividido, porque por um lado se souber de tudo deixa de ter interesse. Há uma área que eu não quero saber. Tenho, como dizia, a arquitectura do livro e o que se seguirá é a construção da história, do resto da trilogia, através dessa arquitectura. Digamos que estou agora, nesta história em concreto, numa fase muito feliz, na fase mais bonita da criação, em que a história flui, dando espaço à imaginação e à criação sobre um esqueleto já existente.
- Fazer uma incursão a um tema como o que escolheu pressupõe ser híbrido, no sentido de conhecer a história, no sentido científico de história, e fazer uma espécie de recolha no terreno para seguir o rasto da história. É essa a sua metodologia na construção desta trilogia?
- Sim, é! E tenho feito isso, sim. Aproveito muito o facto de ser biólogo para fazer outras incursões, aquelas que me ajudam ou a construir uma história ou a conhece-la. Não direi que fiz uma incursão completa ao império de Ngungunyane, que se estendeu até Manica. Mas recolhi depoimentos, por falar em Manica, no Zimbabwe. Essa parte, em termos de território, podemos assim dizer, é uma parte que falta ainda, não fiz. Fiz sim na região de Inharrime, Zavala, etc., falando com gente. Percebi que esses depoimentos eram muito curiosos porque me davam muito do como perceberam a história. A riqueza da oralidade está aí, em que as coisas são transformadas em histórias. Falando com três, quatro pessoas têm-se três, quatro interpretações sobre as coisas. Ao invés de falar com um chope, vi-me a falar com os chopes. E aprendi muito com isso, aliás aprendo sempre que procuro pessoas nas comunidades tanto para a minha actividade literária como no meu conhecimento sobre a vida e as vivências no nosso país.
- Tinha algum conhecimento prático sobre a interação entre os chopes no contexto do império de Ngungunyane antes de lançar-se à trilogia ou foi este um primeiro contacto?
- É muito interessante ver como as nações moçambicanas se constroem, como é que elas se entrelaçam para criar este mosaico que é a nossa nação, Moçambique. Isso é que faz de nós um povo rico. Nesta incursão em concreto conheci alguém, que se tornou num amigo e que praticamente me introduziu à esta cultura que é a cultura chope, que é uma cultura muito rica pela sua variedade. Conhecia-a, para responder à pergunta, muito superficialmente e com este amigo aprendi muito. Gostei muito de ter aprendido do Afonso Silva Dambire, que é o amigo de quem falo, porque ele conduziu-me para a realidade chope não dizendo “nós somos assim”, dizendo, ao invés, “somos vários, há muita variedade de chopes e há muitas histórias que contamos. Se você é escritor não esteja preocupado em seguir o rigor histórico porque há muitas coisas”. Portanto, ele era uma pessoa que me indisciplinava muito, permitindo que aprendesse e conhecesse mais dos chopes de uma forma mais ou menos geral e no contexto da trilogia que decidi escrever.
Durante a sua pesquisa, terá sentido algum choque entre o que leu, principalmente nos livros dos historiadores, e o que encontrado no terreno?
- Do ponto de vista da nossa versão da história moçambicana, da maneira como os moçambicanos a escrevem ou como autores que escrevem do lado de Moçambique, há divergências, não há uma leitura única. Há um alerta de alguém que não sendo moçambicano mas que escreveu um livro de referência sobra a história de Moçambique, o (René) Pélissier, que chama à atenção para uma coisa que é muito interessante que é: houve uma espécie de centramento da história da resistência anti-colonial. Ele diz assim: toda a história oficial, aquela que é mais solene e que foi adoptada pela Frelimo, foi centrada a sul. Quer dizer, os grandes heróis, os mais conhecidos, são do sul; mas há no norte gente que causou muito mais problemas aos portugueses, que tiveram resistências mais longas, mais sistemáticas, que não são celebrados da mesma maneira. Mas isso não responde exactamente à questão. Por exemplo, entre a história oficial que construiu o Ngungunyane, que pensávamos que era de Moçambique, ele nunca pensou em termos de Moçambique, em termos do que é hoje Moçambique. Nem no vocabulário dele isso existia. Mas não o podemos julgar por isso, porque o contexto dele não era este Moçambique. Ler +
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
"Não há um plano para a sucessão de José Eduardo dos Santos"
Rafael Marques considera que o Presidente angolano planeia
recandidatar-se, estando a levar a cabo um "massacre para renovar o
poder pela via da violência" e a "minar as bases do Estado para uma
transição pacífica".
Comemoram-se esta quarta-feira, 11 de novembro, os 40 anos da independência de Angola. Durante 36 deles, José Eduardo dos Santos foi o Presidente do país. O seu actual mandato termina em 2017.
Num cenário de contestação social e instabilidade económica no país, o 40º aniversário de Angola independente assinala-se também de olhos postos no futuro político do país.
A DW África falou com o jornalista e ativista angolano Rafael Marques sobre a sucessão de José Eduardo dos Santos.
DW África: 36 anos depois, já se prepara a sucessão em Angola? Já há um plano?
Rafael Marques (RM): Tanto quanto eu sei, não há plano nenhum para a sucessão do Presidente José Eduardo dos Santos. Se há algum plano, é o de ser ele o seu próprio sucessor. Ou o seu filho. Mas são planos apenas informais. Esse é um dos grandes dilemas que vivemos neste momento, porque o Presidente cada vez mais se mostra incapaz de dar conta dos assuntos do Estado e cada vez mais está ligado aos assuntos familiares. Trata os assuntos do Estado como se de família se tratassem. Mesmo a transferência de negócios e de património do Estado para os seus filhos está a ser feita de uma forma que revela que é alguém que já não têm o mínimo de cuidado com as leis e que pode até acabar por ser julgado pela forma tão aberta como está a cometer crimes de peculato, entre outros.
DW África: Acha que José Eduardo dos Santos está a pensar recandidatar-se?
RM: Não só está a pensar em recandidatar-se, como todo este movimento de procurar supostos golpistas, e agora até esta ideia de que a NATO poderia envolver-se numa invasão a Angola, são pretextos para justificar - caso a situação económica continue a deteriorar-se, como temos estado a verificar - o massacre para renovar o poder pela via da violência e do medo. É uma constante na forma de fazer política em Angola.
DW África: Falou anteriormente de Filomeno dos Santos, filho do Presidente, como hipótese para a sua sucessão. E Manuel Vicente, actual vice-Presidente de Angola, poderá ser um nome considerado pelo MPLA?
RM: Todos sabemos que Manuel Vicente é uma marioneta do Presidente José Eduardo dos Santos. E não tem apoios no MPLA que lhe possam garantir a manutenção do poder logo após a saída do Presidente, quaisquer que sejam as circunstâncias da sua saída. Do ponto de vista formal, Manuel Vicente seria automaticamente indigitado como Presidente, se a saída acontecesse até 2017. Mas estamos a falar de um ano e meio, praticamente. Fora isso, sabemos que Manuel Vicente é apenas mais uma figura que o Presidente utiliza para tentar dar a ideia de que tem mais alguém com que pode partilhar o poder. No entanto, aquilo que conhecemos do Presidente vai pela máxima dos ditadores: depois de si, não há mais nada.
DW África: Vários analistas consideram que, no dia em que José Eduardo dos Santos deixar o poder, a situação vai tornar-se complicada em Angola. Acha que a sucessão será pacífica ou espera violência, de alguma forma?
RM: As coisas não ficarão complicadas pela saída de José Eduardo dos Santos. O Presidente é que está a complicar a situação, está a minar as bases do Estado para uma transição pacífica. Quando manda prender os activistas e os acusa de tentativa de golpe de Estado, quando nomeia um embaixador itinerante que vai a todo o país dizer que estes jovens, coitados, estão em contacto com a NATO para vir bombardear Angola. Não faz sentido nenhum. É a lógica da estupidificação do pensamento e da consciência dos angolanos. É uma forma de criar medo, através da brutalidade da linguagem belicista, do poder. E esse tipo de ações têm uma mensagem clara: se alguém desafiar o poder do Presidente José Eduardo dos Santos, vai ter guerra. Como não há uma força capaz de fazer guerra contra o MPLA, o que se subentende com esta ameaça é que o MPLA não pensará duas vezes em massacrar todos aqueles que se opõem ao poder do Presidente. Deutsche Welle
Comemoram-se esta quarta-feira, 11 de novembro, os 40 anos da independência de Angola. Durante 36 deles, José Eduardo dos Santos foi o Presidente do país. O seu actual mandato termina em 2017.
Num cenário de contestação social e instabilidade económica no país, o 40º aniversário de Angola independente assinala-se também de olhos postos no futuro político do país.
A DW África falou com o jornalista e ativista angolano Rafael Marques sobre a sucessão de José Eduardo dos Santos.
DW África: 36 anos depois, já se prepara a sucessão em Angola? Já há um plano?
Rafael Marques (RM): Tanto quanto eu sei, não há plano nenhum para a sucessão do Presidente José Eduardo dos Santos. Se há algum plano, é o de ser ele o seu próprio sucessor. Ou o seu filho. Mas são planos apenas informais. Esse é um dos grandes dilemas que vivemos neste momento, porque o Presidente cada vez mais se mostra incapaz de dar conta dos assuntos do Estado e cada vez mais está ligado aos assuntos familiares. Trata os assuntos do Estado como se de família se tratassem. Mesmo a transferência de negócios e de património do Estado para os seus filhos está a ser feita de uma forma que revela que é alguém que já não têm o mínimo de cuidado com as leis e que pode até acabar por ser julgado pela forma tão aberta como está a cometer crimes de peculato, entre outros.
DW África: Acha que José Eduardo dos Santos está a pensar recandidatar-se?
RM: Não só está a pensar em recandidatar-se, como todo este movimento de procurar supostos golpistas, e agora até esta ideia de que a NATO poderia envolver-se numa invasão a Angola, são pretextos para justificar - caso a situação económica continue a deteriorar-se, como temos estado a verificar - o massacre para renovar o poder pela via da violência e do medo. É uma constante na forma de fazer política em Angola.
DW África: Falou anteriormente de Filomeno dos Santos, filho do Presidente, como hipótese para a sua sucessão. E Manuel Vicente, actual vice-Presidente de Angola, poderá ser um nome considerado pelo MPLA?
RM: Todos sabemos que Manuel Vicente é uma marioneta do Presidente José Eduardo dos Santos. E não tem apoios no MPLA que lhe possam garantir a manutenção do poder logo após a saída do Presidente, quaisquer que sejam as circunstâncias da sua saída. Do ponto de vista formal, Manuel Vicente seria automaticamente indigitado como Presidente, se a saída acontecesse até 2017. Mas estamos a falar de um ano e meio, praticamente. Fora isso, sabemos que Manuel Vicente é apenas mais uma figura que o Presidente utiliza para tentar dar a ideia de que tem mais alguém com que pode partilhar o poder. No entanto, aquilo que conhecemos do Presidente vai pela máxima dos ditadores: depois de si, não há mais nada.
DW África: Vários analistas consideram que, no dia em que José Eduardo dos Santos deixar o poder, a situação vai tornar-se complicada em Angola. Acha que a sucessão será pacífica ou espera violência, de alguma forma?
RM: As coisas não ficarão complicadas pela saída de José Eduardo dos Santos. O Presidente é que está a complicar a situação, está a minar as bases do Estado para uma transição pacífica. Quando manda prender os activistas e os acusa de tentativa de golpe de Estado, quando nomeia um embaixador itinerante que vai a todo o país dizer que estes jovens, coitados, estão em contacto com a NATO para vir bombardear Angola. Não faz sentido nenhum. É a lógica da estupidificação do pensamento e da consciência dos angolanos. É uma forma de criar medo, através da brutalidade da linguagem belicista, do poder. E esse tipo de ações têm uma mensagem clara: se alguém desafiar o poder do Presidente José Eduardo dos Santos, vai ter guerra. Como não há uma força capaz de fazer guerra contra o MPLA, o que se subentende com esta ameaça é que o MPLA não pensará duas vezes em massacrar todos aqueles que se opõem ao poder do Presidente. Deutsche Welle
Presidente moçambicano diz que "não está a ser possível" falar com líder da Renamo
O Presidente de Moçambique, Filipe
Nyusi, disse, este domingo, que pretende dialogar com o líder da Renamo,
Afonso Dhlakama, para devolver a estabilidade ao país, "mas não está a
ser possível".
"Estou a fazer
o esforço de conversar com ele [Afonso Dhlakama], mas não está a ser
possível", declarou o chefe de Estado, citado pela Agência de Informação
de Moçambique, durante um encontro em Maputo com bispos da Conferência
Episcopal moçambicana.
O
líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), principal partido da
oposição em Moçambique, não é visto em público há um mês depois uma
operação policial na sua residência na Beira, província de Sofala, que
visava a recolha de armas e após vários outros incidentes entre a sua
guarda e as forças de defesa e segurança na província de Manica.
No encontro com os líderes religiosos, que hoje apelaram ao Governo e à Renamo para o abandono das armas e início imediato do diálogo, Nyusi rejeitou um cenário de mediação internacional.
"Acho que este é um assunto que pode ser resolvido dentro de casa. É uma conversa de quarto. Não vejo motivo para se escolher um país para resolver isso. Estou a fazer tudo para ter o diálogo", afirmou.
Moçambique vive momentos de incerteza política, provocada pela recusa da Renamo em reconhecer os resultados das eleições gerais de 15 de outubro do ano passado e pela sua proposta de governar nas seis províncias onde reclama vitória, sob ameaça de tomar o poder pela força.
As últimas semanas têm sido marcadas por confrontos entre as partes, estando a decorrer uma operação policial de recolha de armas da Renamo em vários pontos do país, num dos momentos de maior tensão política e militar desde o Acordo Geral de Paz, que selou, em 1992 em Roma, 16 anos da guerra civil, então sob mediação da organização católica Comunidade de Santo Egídio.
Aos bispos católicos, o Presidente da República pediu que ajudem o Governo com soluções e não apenas com a identificação de problemas, reiterando que a causa da instabilidade do país reside na pobreza.
"Trata-se de desentendimento entre duas pessoas e apenas uma questão de um sair e entrar outro não vai resolver nada", sustentou o chefe de Estado, para quem, "enquanto existirem pessoas que não têm comida, gente que não tem saúde, gente que não tem educação, a estabilidade vai faltar".
Nyusi também se referiu às ameaças financeiras e económicas que o país atravessa, traduzidas pela forte depreciação do metical face ao dólar, queda do investimento estrangeiro e do apoio externo, redução de divisas e aumento da dívida.
"Não tenho remorsos de afirmar que estamos a principiar um novo ciclo de governação com a menor disponibilidade de divisas, que decorre também da redução dos níveis de ajuda externa ao nosso país", afirmou, retomando o discurso proferido no dia 29 de outubro, na cerimónia de 20 anos do banco Millennium bim, quando resistiu a uma atitude de desespero e avisou que o Governo tenciona "implementar reformas estruturais do tecido produtivo".
A Igreja Católica moçambicana apelou hoje ao Governo e à Renamo para que abandonem as armas e retomem de imediato o diálogo, deplorando "a incoerência entre o que se diz e o que se faz".
"Apelamos ao Governo e à Renamo para o abandono absoluto das armas, a retomada imediata do diálogo eficaz entre as partes em conflito, envolvendo outras forças vivas da sociedade", disse o arcebispo de Maputo, Francisco Chimoio, no encontro com o Presidente moçambicano. Jornal de Notícias
No encontro com os líderes religiosos, que hoje apelaram ao Governo e à Renamo para o abandono das armas e início imediato do diálogo, Nyusi rejeitou um cenário de mediação internacional.
"Acho que este é um assunto que pode ser resolvido dentro de casa. É uma conversa de quarto. Não vejo motivo para se escolher um país para resolver isso. Estou a fazer tudo para ter o diálogo", afirmou.
Moçambique vive momentos de incerteza política, provocada pela recusa da Renamo em reconhecer os resultados das eleições gerais de 15 de outubro do ano passado e pela sua proposta de governar nas seis províncias onde reclama vitória, sob ameaça de tomar o poder pela força.
As últimas semanas têm sido marcadas por confrontos entre as partes, estando a decorrer uma operação policial de recolha de armas da Renamo em vários pontos do país, num dos momentos de maior tensão política e militar desde o Acordo Geral de Paz, que selou, em 1992 em Roma, 16 anos da guerra civil, então sob mediação da organização católica Comunidade de Santo Egídio.
Aos bispos católicos, o Presidente da República pediu que ajudem o Governo com soluções e não apenas com a identificação de problemas, reiterando que a causa da instabilidade do país reside na pobreza.
"Trata-se de desentendimento entre duas pessoas e apenas uma questão de um sair e entrar outro não vai resolver nada", sustentou o chefe de Estado, para quem, "enquanto existirem pessoas que não têm comida, gente que não tem saúde, gente que não tem educação, a estabilidade vai faltar".
Nyusi também se referiu às ameaças financeiras e económicas que o país atravessa, traduzidas pela forte depreciação do metical face ao dólar, queda do investimento estrangeiro e do apoio externo, redução de divisas e aumento da dívida.
"Não tenho remorsos de afirmar que estamos a principiar um novo ciclo de governação com a menor disponibilidade de divisas, que decorre também da redução dos níveis de ajuda externa ao nosso país", afirmou, retomando o discurso proferido no dia 29 de outubro, na cerimónia de 20 anos do banco Millennium bim, quando resistiu a uma atitude de desespero e avisou que o Governo tenciona "implementar reformas estruturais do tecido produtivo".
A Igreja Católica moçambicana apelou hoje ao Governo e à Renamo para que abandonem as armas e retomem de imediato o diálogo, deplorando "a incoerência entre o que se diz e o que se faz".
"Apelamos ao Governo e à Renamo para o abandono absoluto das armas, a retomada imediata do diálogo eficaz entre as partes em conflito, envolvendo outras forças vivas da sociedade", disse o arcebispo de Maputo, Francisco Chimoio, no encontro com o Presidente moçambicano. Jornal de Notícias
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
Ativistas angolanos queriam mobilizar NATO, diz embaixador
Os 15 ativistas detidos em Luanda são acusados de "envolvimento na
preparação de atos de rebelião" e não só por estarem a ler um "livro
subversivo" - é o que diz o embaixador itinerante angolano em entrevista
à DW.
Existirão elementos que provam que os jovens ativistas estariam a preparar um golpe de Estado?
Segundo António Luvualu de Carvalho, embaixador itinerante de Angola, caberá aos tribunais concluir a veracidade dos factos, no julgamento que iniciará a 16 de novembro. No entanto, para o emissário do chefe de Estado angolano, uma coisa é certa: em junho, quando foram detidos, os jovens ativistas não estavam apenas a ler um "livro subversivo" ("Da ditadura à democracia") do académico norte-americano, Gene Sharp.
"Eram atos de mobilização e de instrução, segundo este livro de Gene Sharp, de como é que as pessoas se deviam comportar para deixar cair um Governo - utilizando crianças, idosos, senhoras para pô-los em confronto com as autoridades, para que as autoridades matassem essas pessoas, num número estimado entre 20 e 25".
De acordo com Luvualu de Carvalho, o objetivo seria "provocar uma comoção internacional e mobilizar os países ocidentais, de preferência da NATO, a bombardearem Angola."
Presidente angolano não cederá a pressão internacional
Apesar da pressão internacional para libertar os 15 ativistas, que a organização de defesa dos direitos humanos Amnistia Internacional considera serem "presos de consciência", o Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, "não tomará nenhuma posição":
"Da justiça o que é da justiça", sublinha o embaixador angolano em entrevista à DW África em Lisboa. "Havendo separação de poderes em Angola, o poder judicial irá tratar desta questão nos tribunais. Aqui em Portugal, houve uma grande pressão nacional e também internacional para que se libertasse o antigo primeiro-ministro José Sócrates, que ficou detido 11 meses sem provas, sem acusação, e o Presidente Aníbal Cavaco Silva em momento algum se pronunciou sobre este caso. Portanto, o nosso Presidente também em momento algum se pronunciará sobre casos que têm a ver com a justiça."
Direitos humanos
Várias organizações e movimentos cívicos, incluindo a Amnistia Internacional, têm denunciado um conjunto de atos de desrespeito pelos direitos humanos em Angola. No entanto, esta visão é contestada por Luvualu de Carvalho:
"Não existe falta de respeito pelos direitos humanos em Angola. Em tempos, fui confrontado com alguns vídeos de uma prisão onde guardas prisionais excederam as suas competências e, inclusive, castigavam com açoites alguns detidos. Mas, depois de essas informações terem sido tornadas públicas, estes guardas prisionais, foram detidos, julgados e os que foram condenados estão a cumprir as suas penas."
O embaixador itinerante de Angola sublinha que o país "está perfeitamente sincronizado com o século XXI", embora admita: "Claro que não é um país perfeito, como não é Portugal, nem os Estados Unidos da América, nem o Reino Unido. Mas acredita-se que todo o trabalho que tem estado a ser feito levará à evolução da sociedade."
Relações Portugal-Angola
Por outro lado, António Luvualu de Carvalho desvaloriza as críticas ao Governo de Luanda e nega que haja em Portugal um sentimento anti-angolano generalizado.
"Existem setores da sociedade portuguesa, devidamente identificados, que cultivam o ódio anti-Angola. São grupos de pessoas bem identificadas que possuem os seus meios e vão-se servindo destes meios para passarem uma mensagem odiosa e diabolizante contra o Estado angolano, contra o povo angolano."
Portanto, acrescenta, "não se pode comparar a postura do Estado português, que tem sido exemplar, com a conduta de certos indivíduos", que, segundo as recentes declarações do embaixador angolano na capital portuguesa, José Marcos Barrica, visa diabolizar Angola. Luvualu de Carvalho sustenta, a propósito, que "existe um movimento claro de alguns setores internacionais para atacar a imagem do povo angolano."
Segundo o embaixador angolano itinerante, os recentes pronunciamentos de Marcos Barrica não visaram pôr em causa as "saudáveis relações" entre os Estados angolano e português. Deutsche Welle
Existirão elementos que provam que os jovens ativistas estariam a preparar um golpe de Estado?
Segundo António Luvualu de Carvalho, embaixador itinerante de Angola, caberá aos tribunais concluir a veracidade dos factos, no julgamento que iniciará a 16 de novembro. No entanto, para o emissário do chefe de Estado angolano, uma coisa é certa: em junho, quando foram detidos, os jovens ativistas não estavam apenas a ler um "livro subversivo" ("Da ditadura à democracia") do académico norte-americano, Gene Sharp.
"Eram atos de mobilização e de instrução, segundo este livro de Gene Sharp, de como é que as pessoas se deviam comportar para deixar cair um Governo - utilizando crianças, idosos, senhoras para pô-los em confronto com as autoridades, para que as autoridades matassem essas pessoas, num número estimado entre 20 e 25".
De acordo com Luvualu de Carvalho, o objetivo seria "provocar uma comoção internacional e mobilizar os países ocidentais, de preferência da NATO, a bombardearem Angola."
Presidente angolano não cederá a pressão internacional
Apesar da pressão internacional para libertar os 15 ativistas, que a organização de defesa dos direitos humanos Amnistia Internacional considera serem "presos de consciência", o Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, "não tomará nenhuma posição":
"Da justiça o que é da justiça", sublinha o embaixador angolano em entrevista à DW África em Lisboa. "Havendo separação de poderes em Angola, o poder judicial irá tratar desta questão nos tribunais. Aqui em Portugal, houve uma grande pressão nacional e também internacional para que se libertasse o antigo primeiro-ministro José Sócrates, que ficou detido 11 meses sem provas, sem acusação, e o Presidente Aníbal Cavaco Silva em momento algum se pronunciou sobre este caso. Portanto, o nosso Presidente também em momento algum se pronunciará sobre casos que têm a ver com a justiça."
Direitos humanos
Várias organizações e movimentos cívicos, incluindo a Amnistia Internacional, têm denunciado um conjunto de atos de desrespeito pelos direitos humanos em Angola. No entanto, esta visão é contestada por Luvualu de Carvalho:
"Não existe falta de respeito pelos direitos humanos em Angola. Em tempos, fui confrontado com alguns vídeos de uma prisão onde guardas prisionais excederam as suas competências e, inclusive, castigavam com açoites alguns detidos. Mas, depois de essas informações terem sido tornadas públicas, estes guardas prisionais, foram detidos, julgados e os que foram condenados estão a cumprir as suas penas."
O embaixador itinerante de Angola sublinha que o país "está perfeitamente sincronizado com o século XXI", embora admita: "Claro que não é um país perfeito, como não é Portugal, nem os Estados Unidos da América, nem o Reino Unido. Mas acredita-se que todo o trabalho que tem estado a ser feito levará à evolução da sociedade."
Relações Portugal-Angola
Por outro lado, António Luvualu de Carvalho desvaloriza as críticas ao Governo de Luanda e nega que haja em Portugal um sentimento anti-angolano generalizado.
"Existem setores da sociedade portuguesa, devidamente identificados, que cultivam o ódio anti-Angola. São grupos de pessoas bem identificadas que possuem os seus meios e vão-se servindo destes meios para passarem uma mensagem odiosa e diabolizante contra o Estado angolano, contra o povo angolano."
Portanto, acrescenta, "não se pode comparar a postura do Estado português, que tem sido exemplar, com a conduta de certos indivíduos", que, segundo as recentes declarações do embaixador angolano na capital portuguesa, José Marcos Barrica, visa diabolizar Angola. Luvualu de Carvalho sustenta, a propósito, que "existe um movimento claro de alguns setores internacionais para atacar a imagem do povo angolano."
Segundo o embaixador angolano itinerante, os recentes pronunciamentos de Marcos Barrica não visaram pôr em causa as "saudáveis relações" entre os Estados angolano e português. Deutsche Welle
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
MPLA de Eduardo dos Santos qualifica denúncias de violação de direitos humanos como "intromissão"
Bureau
Político do MPLA, partido no poder em Angola, presidido por José
Eduardo dos Santos, "condena todo o tipo de ingerência externa nos
assuntos do país e recomenda o maior respeito pelas instituições
angolanas."
Luanda - O bureau político do MPLA, partido no poder
em Angola, repudiou, em comunicado divulgado terça-feira (3), "certos
círculos nacionais e internacionais" por "terem enveredado por uma
atitude de pressão sobre as autoridades angolanas, em particular sobre o
Titular do Poder Executivo [o presidente da República, José Eduardo dos
Santos], com vista à libertação de cidadãos formalmente acusados de
actos preparatórios de rebelião, com o objectivo de derrubar, de uma
forma anticonstitucional, o Governo legitimamente constituído em
Angola".
As autoridades angolanas têm sido denunciadas por organizações angolanas e entidades internacionais, como a Amnistia Internacional, comissão de direitos humanos das Nações Unidas, e Parlamento Europeu, por repetidas violações dos direitos humanos.
No comunicado, publicado hoje pelo estatal Jornal de Angola, "o MPLA condena todo o tipo de ingerência externa nos assuntos do país e recomenda o maior respeito pelas instituições angolanas."
Segundo o órgão dirigente do MPLA, presidido por José Eduardo dos Santos, Angola é um Estado independente e soberano que ao longo de quase 40 anos de existência tem dado passos seguros, "no sentido da consolidação da paz e da reconciliação nacional, da unidade e coesão nacional, do reforço da democracia, da garantia dos direitos humanos e da elevação progressiva da qualidade de vida do povo angolano."
Apoio "incondicional" a Eduardo dos Santos
"O bureau político do Comité Central do MPLA reitera o seu incondicional apoio ao Chefe de Estado e Titular do Poder Executivo, Presidente José Eduardo dos Santos, pelo sentido de Estado e pela forma dedicada e serena como tem conduzido os destinos do país", lê-se no comunicado divulgado no final da reunião do bureau político.
No comunicado, o partido no poder em Angola há quatro décadas afirma que "compete somente aos tribunais, de acordo com a Constituição da República de Angola, administrar a justiça em nome do povo e sem prejuízo do princípio da presunção de inocência, e reafirma a defesa da aplicação da separação de poderes, que considera elemento basilar do Estado democrático de direito, consagrado no Artigo 2º da carta magna angolana, ao mesmo tempo que realça a sua total confiança na independência e imparcialidade do poder judicial do país, certo de que este não se deixa influenciar por qualquer mecanismo de pressão."
Oposição
O bureau político do Comité Central recorda ao povo angolano que "essas manifestações de ingerência externa nos assuntos do país, apoiadas internamente por certos círculos da oposição, não são uma novidade."
No documento do coletivo liderado por Eduardo dos Santos, "a estabilidade política e a evolução que o país tem evidenciado, nos mais diversos domínios da vida nacional, principalmente depois da conquista da paz, em 2002, não agradam a todos aqueles que, desde que Angola se tornou independente, em 1975, sob a direcção do MPLA, sempre lutaram, por todos os meios (incluindo os militares), para a destruição do Partido e das conquistas alcançadas pelo povo angolano." África 21
As autoridades angolanas têm sido denunciadas por organizações angolanas e entidades internacionais, como a Amnistia Internacional, comissão de direitos humanos das Nações Unidas, e Parlamento Europeu, por repetidas violações dos direitos humanos.
No comunicado, publicado hoje pelo estatal Jornal de Angola, "o MPLA condena todo o tipo de ingerência externa nos assuntos do país e recomenda o maior respeito pelas instituições angolanas."
Segundo o órgão dirigente do MPLA, presidido por José Eduardo dos Santos, Angola é um Estado independente e soberano que ao longo de quase 40 anos de existência tem dado passos seguros, "no sentido da consolidação da paz e da reconciliação nacional, da unidade e coesão nacional, do reforço da democracia, da garantia dos direitos humanos e da elevação progressiva da qualidade de vida do povo angolano."
Apoio "incondicional" a Eduardo dos Santos
"O bureau político do Comité Central do MPLA reitera o seu incondicional apoio ao Chefe de Estado e Titular do Poder Executivo, Presidente José Eduardo dos Santos, pelo sentido de Estado e pela forma dedicada e serena como tem conduzido os destinos do país", lê-se no comunicado divulgado no final da reunião do bureau político.
No comunicado, o partido no poder em Angola há quatro décadas afirma que "compete somente aos tribunais, de acordo com a Constituição da República de Angola, administrar a justiça em nome do povo e sem prejuízo do princípio da presunção de inocência, e reafirma a defesa da aplicação da separação de poderes, que considera elemento basilar do Estado democrático de direito, consagrado no Artigo 2º da carta magna angolana, ao mesmo tempo que realça a sua total confiança na independência e imparcialidade do poder judicial do país, certo de que este não se deixa influenciar por qualquer mecanismo de pressão."
Oposição
O bureau político do Comité Central recorda ao povo angolano que "essas manifestações de ingerência externa nos assuntos do país, apoiadas internamente por certos círculos da oposição, não são uma novidade."
No documento do coletivo liderado por Eduardo dos Santos, "a estabilidade política e a evolução que o país tem evidenciado, nos mais diversos domínios da vida nacional, principalmente depois da conquista da paz, em 2002, não agradam a todos aqueles que, desde que Angola se tornou independente, em 1975, sob a direcção do MPLA, sempre lutaram, por todos os meios (incluindo os militares), para a destruição do Partido e das conquistas alcançadas pelo povo angolano." África 21
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
ANGOLA: Expressão cultural é limitada
O ESCRITOR angolano José Eduardo Agualusa considerou que, passados 40 anos da independência de Angola, a educação e a cultura continuam a ter pouco investimento, levando a uma baixa produção cultural, afectada ainda pela falta de liberdade de expressão.
“O maior apoio (para os escritores) são os seus leitores, mas para haver leitores é preciso haver, em primeiro lugar, uma aposta na educação básica, na formação, na alfabetização e na formação de leitores. Depois é preciso investir na criação de redes de bibliotecas públicas, na criação de livrarias, no apoio às editoras e, nestes 40 anos, nada disso foi feito em Angola”, disse Agualusa em entrevista à LUSA.
O autor disse, por exemplo, não se lembrar “de alguma boa biblioteca criada depois da independência”.
“O que é extraordinário, pois, são 40 anos que se passaram e vemos investimentos enormes em Angola em sectores que, à partida, não seriam tão prioritários. Mas vemos, de facto, muito pouco investimento na educação e na cultura”, sublinhou o escritor.
José Eduardo Agualusa referiu ainda a importância da liberdade de expressão para a criação artística. “Num contexto de pensamento único não é possível fazer avançar nenhuma forma de arte, porque todas as formas de arte dependem da discussão e do debate. Não é possível esperar que num contexto de condicionamento de liberdade de expressão surjam grandes obras artísticas, isso não acontece”, afirmou.
Segundo o autor, nos últimos 40 anos muita coisa aconteceu em Angola – que se tornou independente de Portugal a 11 de Novembro de 1975 – e houve vários períodos que se podem assinalar. “Infelizmente, a independência aconteceu num contexto de guerra civil e com a imposição imediatamente de um sistema totalitário de partido único, que acabou por ser muito prejudicial de todas as formas, para a expressão cultural de maneira geral, porque havia apenas um ponto de vista, um pensamento único. Isto afectou a literatura, as artes plásticas, o cinema, a música, tudo”, acrescentou.
Agualusa referiu que na música popular, até à data da independência, havia “uma pujança, uma vitalidade muito grande, mesmo em discos produzidos em Angola estavam, provavelmente, à frente de todo o Continente Africano e aí houve uma ruptura enorme”.
“Vários músicos importantes foram fuzilados após a independência e houve uma repressão muito grande, sendo a música popular a primeira a ser atingida”, referiu ainda.
Segundo o autor, a literatura foi muito afectada pelo facto de as editoras independentes da rede de distribuição e das livrarias terem desaparecidas.
“Houve um período grande após a independência que durou quase todo o tempo do partido único (do Movimento Popular de Libertação de Angola – MPLA) que afectou muitíssimo todas essas formas de expressão cultural”, avaliou.
Em relação à literatura, considerou que existem hoje em Angola “propostas diferentes”, alguns escritores já com presença internacional, apesar de “não serem muitos”, uma vez que “as condições de Angola evidentemente limitam tudo o resto”.
José Eduardo Agualusa citou alguns nomes que se destacam na literatura angolana como Pepetela e Rui Duarte Carvalho (já falecido) e entre os mais jovens, Ana Paula Tavares e Ondjaki.
Quanto à música, considerou que “é a área que se tem desenvolvido mais nos últimos tempos, juntamente com as artes plásticas”, destacando uma série de novos nomes, “dois ou três que começam ter uma presença internacional, como Paulo Flores e Aline Frazão”, além dos mais antigos como Waldemar Bastos e Bonga, referiu.
Agualusa, que vive entre o Brasil, Portugal e Angola, escreveu várias obras, tais como “Um Estranho em Goa” e “Nação Crioula: correspondência secreta de Fradique Mendes”, “A Educação Sentimental dos Pássaros” ou “A Rainha Ginga”, entre outras. Notícias
– LUSA
“O maior apoio (para os escritores) são os seus leitores, mas para haver leitores é preciso haver, em primeiro lugar, uma aposta na educação básica, na formação, na alfabetização e na formação de leitores. Depois é preciso investir na criação de redes de bibliotecas públicas, na criação de livrarias, no apoio às editoras e, nestes 40 anos, nada disso foi feito em Angola”, disse Agualusa em entrevista à LUSA.
O autor disse, por exemplo, não se lembrar “de alguma boa biblioteca criada depois da independência”.
“O que é extraordinário, pois, são 40 anos que se passaram e vemos investimentos enormes em Angola em sectores que, à partida, não seriam tão prioritários. Mas vemos, de facto, muito pouco investimento na educação e na cultura”, sublinhou o escritor.
José Eduardo Agualusa referiu ainda a importância da liberdade de expressão para a criação artística. “Num contexto de pensamento único não é possível fazer avançar nenhuma forma de arte, porque todas as formas de arte dependem da discussão e do debate. Não é possível esperar que num contexto de condicionamento de liberdade de expressão surjam grandes obras artísticas, isso não acontece”, afirmou.
Segundo o autor, nos últimos 40 anos muita coisa aconteceu em Angola – que se tornou independente de Portugal a 11 de Novembro de 1975 – e houve vários períodos que se podem assinalar. “Infelizmente, a independência aconteceu num contexto de guerra civil e com a imposição imediatamente de um sistema totalitário de partido único, que acabou por ser muito prejudicial de todas as formas, para a expressão cultural de maneira geral, porque havia apenas um ponto de vista, um pensamento único. Isto afectou a literatura, as artes plásticas, o cinema, a música, tudo”, acrescentou.
Agualusa referiu que na música popular, até à data da independência, havia “uma pujança, uma vitalidade muito grande, mesmo em discos produzidos em Angola estavam, provavelmente, à frente de todo o Continente Africano e aí houve uma ruptura enorme”.
“Vários músicos importantes foram fuzilados após a independência e houve uma repressão muito grande, sendo a música popular a primeira a ser atingida”, referiu ainda.
Segundo o autor, a literatura foi muito afectada pelo facto de as editoras independentes da rede de distribuição e das livrarias terem desaparecidas.
“Houve um período grande após a independência que durou quase todo o tempo do partido único (do Movimento Popular de Libertação de Angola – MPLA) que afectou muitíssimo todas essas formas de expressão cultural”, avaliou.
Em relação à literatura, considerou que existem hoje em Angola “propostas diferentes”, alguns escritores já com presença internacional, apesar de “não serem muitos”, uma vez que “as condições de Angola evidentemente limitam tudo o resto”.
José Eduardo Agualusa citou alguns nomes que se destacam na literatura angolana como Pepetela e Rui Duarte Carvalho (já falecido) e entre os mais jovens, Ana Paula Tavares e Ondjaki.
Quanto à música, considerou que “é a área que se tem desenvolvido mais nos últimos tempos, juntamente com as artes plásticas”, destacando uma série de novos nomes, “dois ou três que começam ter uma presença internacional, como Paulo Flores e Aline Frazão”, além dos mais antigos como Waldemar Bastos e Bonga, referiu.
Agualusa, que vive entre o Brasil, Portugal e Angola, escreveu várias obras, tais como “Um Estranho em Goa” e “Nação Crioula: correspondência secreta de Fradique Mendes”, “A Educação Sentimental dos Pássaros” ou “A Rainha Ginga”, entre outras. Notícias
– LUSA
terça-feira, 3 de novembro de 2015
"Problema do mundo africano é olhar para quem tem armas como autoridade"
A crítica é de Daviz Simango, líder do Movimento Democrático de
Moçambique (MDM), um partido que governa "sem armas", sublinha o edil da
Beira. O conflito entre a RENAMO e o Governo da FRELIMO prolonga-se há
dois anos.
Depois de uma fase de confrontos armados, foi assinado um acordo de paz em setembro de 2014 e houve um abrandamento das hostilidades. Porém, nos últimos meses e semanas, a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) e o Governo da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) voltaram a confrontar-se.
A DW África perguntou a Daviz Simango, líder do MDM, se o terceiro maior partido do país se sente "esmagado" entre as duas forças e se se vê como alternativa ao conflito quase eterno entre a FRELIMO e a RENAMO.
O edil da Beira também não descarta a hipótese de concorrer pela terceira vez à presidência de Moçambique, se o partido achar que "Simango é o candidato mais seguro".
DW África: Actualmente vive-se outra vez um clima de grande tensão entre o partido no poder, a FRELIMO, e o principal partido da oposição, a RENAMO. Sente-se um pouco "esmagado" entre estas duas forças que se opõem, por vezes até com recurso à violência?
Daviz Simango (DS): O problema do mundo africano é que olha para quem tem armas como autoridade. Olha para quem tem armas como entidade que é capaz. E nós, infelizmente, vivemos isso nas eleições passadas, quando a população votou por medo, porque queria estar segura que, caso um deles ganhasse, se mantinha o poder. O nosso partido, o Movimento Democrático de Moçambique, não tem armas. Então, a população colocou o MDM em terceiro plano. Mas nós estamos conscientes de que é uma luta e precisamos continuar porque conseguimos quebrar a bipolarização, que era um processo longo.
A FRELIMO nasceu de um movimento de luta de libertação nacional, que permitiu que os moçambicanos que queriam a independência se juntassem à FRELIMO e naturalmente foram apoiando a FRELIMO. A RENAMO surge numa guerra civil de 16 anos. O incumprimento e violações dos direitos humanos e a ausência de democracia criaram condições para que a RENAMO, de facto, tivesse terreno e nesses 16 anos foi-se implantando, também usando armas, e consigo arrastou pessoas.
O MDM surge numa altura de paz, numa altura em que havia o denominador: ou vota na RENAMO ou vota na FRELIMO. Não foi fácil para o MDM quebrar esta bipolarização. Em seis meses de trabalho conseguimos quebrar a bipolarização e nessas eleições subimos a dobrar. É verdade que a expectativa era muito maior, porque o resultado das eleições municipais indicava que o MDM, se não fosse a fraude generalizada que foi criada, a capital do país, Maputo, teria ficado com o MDM, assim como outras cidades.
DW África: E esta bipolarização política não seria também uma oportunidade para o MDM se apresentar como uma solução pacífica ou uma alternativa a esta luta quase eterna entre a FRELIMO e a RENAMO?
DS: Sim. Mas é preciso ir ao terreno consciencializar a população e é isso que estamos a fazer. Estamos a governar a Beira, Nampula, Gurué e Quelimane e não temos armas. Houve eleições e entregaram-nos esses locais. Penso que o povo começa a fazer uma leitura de que, afinal de contas, não é de armas que se deve viver. É um aspecto importante. A nossa bandeira até hoje tem uma arma. E a pergunta que se coloca é: por que é que hoje ainda precisamos de uma arma na bandeira? O MDM continua a propor que essa arma tem de sair. As populações não podem olhar a arma como alternativa de vida.
DW África: Houve uma imagem do MDM como partido familiar. Isto prejudicou o partido nos últimos anos?
DS: Penso que não. Lutero Simango é o meu irmão mais velho. Já fazia política antes de eu existir como político. Portanto, não se pode desperdiçar essa capacidade humana de fazer política. Penso que não é por aí. O que prejudicou o MDM exactamente foi o roncar das armas. Quando a RENAMO saiu das matas com aquelas pombas todas, a FRELIMO criou toda a heroicidade. A FRELIMO fez tudo a correr porque sabia que era preciso criar a RENAMO do mato para ofuscar o MDM. Foi mais ou menos isso que aconteceu. Em todo o mundo, por exemplo nos Estados Unidos, os filhos do Bush, o Clinton e a mulher, todos fazem política. Penso que não se pode limitar a liberdade de fazer política numa sociedade.
DW África: Vai arriscar uma terceira candidatura à presidência?
DS: A minha primeira candidatura, em 2009, exatamente seis meses antes do início das eleições, foi uma candidatura para puxar o partido. Daviz Simango tinha um nome, havia seguidores do Daviz Simango e era preciso jogar tudo ou nada. E nós decidimos arriscar. Estávamos conscientes que não havia condições de ganhar as eleições presidenciais, mas era preciso dar sustentabilidade e visibilidade ao MDM. E graças a Deus conseguimos, quebrámos a bipolarização, entrámos na Assembleia da República e foi muito bom.
Entrámos nas segundas eleições em 2014 e tínhamos a consciência de que podíamos ir muito longe. Foi, de facto, a primeira candidatura propriamente dita, porque tivemos tempo suficiente para nos prepararmos e lançarmos o nome. Foi aquela situação fraudulenta. Até hoje, o MDM não reconhece essas eleições. Mas como respeitamos os órgãos de justiça, o Conselho Constitucional decretou e nós temos de respeitar. Porque amanhã queremos ser Governo e se existirem problemas similares, ou outros, o que queremos é que as instituições de justiça sejam independentes e que todos os órgãos sejam interdependentes. Se o partido definir que Daviz Simango é o candidato mais seguro, é natural que avancemos. Agora, se o partido achar que existem outras figuras que possam ajudar… Porque o MDM quer ser uma alternativa. Queremos ajudar o nosso povo a sair desta situação que hoje se vive. Deutsche Welle
Depois de uma fase de confrontos armados, foi assinado um acordo de paz em setembro de 2014 e houve um abrandamento das hostilidades. Porém, nos últimos meses e semanas, a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) e o Governo da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) voltaram a confrontar-se.
A DW África perguntou a Daviz Simango, líder do MDM, se o terceiro maior partido do país se sente "esmagado" entre as duas forças e se se vê como alternativa ao conflito quase eterno entre a FRELIMO e a RENAMO.
O edil da Beira também não descarta a hipótese de concorrer pela terceira vez à presidência de Moçambique, se o partido achar que "Simango é o candidato mais seguro".
DW África: Actualmente vive-se outra vez um clima de grande tensão entre o partido no poder, a FRELIMO, e o principal partido da oposição, a RENAMO. Sente-se um pouco "esmagado" entre estas duas forças que se opõem, por vezes até com recurso à violência?
Daviz Simango (DS): O problema do mundo africano é que olha para quem tem armas como autoridade. Olha para quem tem armas como entidade que é capaz. E nós, infelizmente, vivemos isso nas eleições passadas, quando a população votou por medo, porque queria estar segura que, caso um deles ganhasse, se mantinha o poder. O nosso partido, o Movimento Democrático de Moçambique, não tem armas. Então, a população colocou o MDM em terceiro plano. Mas nós estamos conscientes de que é uma luta e precisamos continuar porque conseguimos quebrar a bipolarização, que era um processo longo.
A FRELIMO nasceu de um movimento de luta de libertação nacional, que permitiu que os moçambicanos que queriam a independência se juntassem à FRELIMO e naturalmente foram apoiando a FRELIMO. A RENAMO surge numa guerra civil de 16 anos. O incumprimento e violações dos direitos humanos e a ausência de democracia criaram condições para que a RENAMO, de facto, tivesse terreno e nesses 16 anos foi-se implantando, também usando armas, e consigo arrastou pessoas.
O MDM surge numa altura de paz, numa altura em que havia o denominador: ou vota na RENAMO ou vota na FRELIMO. Não foi fácil para o MDM quebrar esta bipolarização. Em seis meses de trabalho conseguimos quebrar a bipolarização e nessas eleições subimos a dobrar. É verdade que a expectativa era muito maior, porque o resultado das eleições municipais indicava que o MDM, se não fosse a fraude generalizada que foi criada, a capital do país, Maputo, teria ficado com o MDM, assim como outras cidades.
DW África: E esta bipolarização política não seria também uma oportunidade para o MDM se apresentar como uma solução pacífica ou uma alternativa a esta luta quase eterna entre a FRELIMO e a RENAMO?
DS: Sim. Mas é preciso ir ao terreno consciencializar a população e é isso que estamos a fazer. Estamos a governar a Beira, Nampula, Gurué e Quelimane e não temos armas. Houve eleições e entregaram-nos esses locais. Penso que o povo começa a fazer uma leitura de que, afinal de contas, não é de armas que se deve viver. É um aspecto importante. A nossa bandeira até hoje tem uma arma. E a pergunta que se coloca é: por que é que hoje ainda precisamos de uma arma na bandeira? O MDM continua a propor que essa arma tem de sair. As populações não podem olhar a arma como alternativa de vida.
DW África: Houve uma imagem do MDM como partido familiar. Isto prejudicou o partido nos últimos anos?
DS: Penso que não. Lutero Simango é o meu irmão mais velho. Já fazia política antes de eu existir como político. Portanto, não se pode desperdiçar essa capacidade humana de fazer política. Penso que não é por aí. O que prejudicou o MDM exactamente foi o roncar das armas. Quando a RENAMO saiu das matas com aquelas pombas todas, a FRELIMO criou toda a heroicidade. A FRELIMO fez tudo a correr porque sabia que era preciso criar a RENAMO do mato para ofuscar o MDM. Foi mais ou menos isso que aconteceu. Em todo o mundo, por exemplo nos Estados Unidos, os filhos do Bush, o Clinton e a mulher, todos fazem política. Penso que não se pode limitar a liberdade de fazer política numa sociedade.
DW África: Vai arriscar uma terceira candidatura à presidência?
DS: A minha primeira candidatura, em 2009, exatamente seis meses antes do início das eleições, foi uma candidatura para puxar o partido. Daviz Simango tinha um nome, havia seguidores do Daviz Simango e era preciso jogar tudo ou nada. E nós decidimos arriscar. Estávamos conscientes que não havia condições de ganhar as eleições presidenciais, mas era preciso dar sustentabilidade e visibilidade ao MDM. E graças a Deus conseguimos, quebrámos a bipolarização, entrámos na Assembleia da República e foi muito bom.
Entrámos nas segundas eleições em 2014 e tínhamos a consciência de que podíamos ir muito longe. Foi, de facto, a primeira candidatura propriamente dita, porque tivemos tempo suficiente para nos prepararmos e lançarmos o nome. Foi aquela situação fraudulenta. Até hoje, o MDM não reconhece essas eleições. Mas como respeitamos os órgãos de justiça, o Conselho Constitucional decretou e nós temos de respeitar. Porque amanhã queremos ser Governo e se existirem problemas similares, ou outros, o que queremos é que as instituições de justiça sejam independentes e que todos os órgãos sejam interdependentes. Se o partido definir que Daviz Simango é o candidato mais seguro, é natural que avancemos. Agora, se o partido achar que existem outras figuras que possam ajudar… Porque o MDM quer ser uma alternativa. Queremos ajudar o nosso povo a sair desta situação que hoje se vive. Deutsche Welle
"Não há independência em Angola sem liberdade de expressão", diz deputada brasileira
Luiza Erundina criou moção na Câmara dos Deputados do Brasil em solidariedade a activistas angolanos
A prisão de activistas angolanos acusados de conspirarem para derrubar o governo está agora a ter repercussões no Brasil, onde uma deputada introduziu uma moção no parlamento expressando solidariedade com os presos.
A moção foi introduzida pela deputada federal Luiza Erundina, que vai pedir que o governo adopte uma posição firme contra a violação de direitos humanos em Angola.
Líderes partidários assinaram o documento, que poderá ser discutido no plenário da Casa.
Se houver adesão de parlamentares, a moção deve ser encaminhada para o Embaixador de Angola no Brasil e também para o presidente José Eduardo dos Santos.
Para a deputada, não há motivos para celebrar a independência de Angola sem garantias de que a liberdade de expressão seja respeitada no país. "Não se pode falar de libertação, não se pode celebrar essa libertação como uma conquista democrática”, afirma.
Após um discurso feito na Câmara dos Deputados em favor dos ativistas, Erundina diz que recebeu forte apoio de cidadãos brasileiros.
Para a deputada, o governo federal brasileiro deve interromper o silêncio em relação à prisão dos jovens ativistas. Ela diz que vai cobrar tanto do legislativo quanto do executivo um posicionamento firme.
"Sem dúvida nenhuma essa minha iniciativa tem um grande respaldo de um grande segmento da sociedade brasileira”, acrescentou
A deputada afirma ainda que monitora o caso dos ativistas presos e espera que a repercussão do caso no Brasil e em outros países seja uma ajuda para a libertação dos jovens. Voz da América
A prisão de activistas angolanos acusados de conspirarem para derrubar o governo está agora a ter repercussões no Brasil, onde uma deputada introduziu uma moção no parlamento expressando solidariedade com os presos.
A moção foi introduzida pela deputada federal Luiza Erundina, que vai pedir que o governo adopte uma posição firme contra a violação de direitos humanos em Angola.
Líderes partidários assinaram o documento, que poderá ser discutido no plenário da Casa.
Se houver adesão de parlamentares, a moção deve ser encaminhada para o Embaixador de Angola no Brasil e também para o presidente José Eduardo dos Santos.
Para a deputada, não há motivos para celebrar a independência de Angola sem garantias de que a liberdade de expressão seja respeitada no país. "Não se pode falar de libertação, não se pode celebrar essa libertação como uma conquista democrática”, afirma.
Após um discurso feito na Câmara dos Deputados em favor dos ativistas, Erundina diz que recebeu forte apoio de cidadãos brasileiros.
Para a deputada, o governo federal brasileiro deve interromper o silêncio em relação à prisão dos jovens ativistas. Ela diz que vai cobrar tanto do legislativo quanto do executivo um posicionamento firme.
"Sem dúvida nenhuma essa minha iniciativa tem um grande respaldo de um grande segmento da sociedade brasileira”, acrescentou
A deputada afirma ainda que monitora o caso dos ativistas presos e espera que a repercussão do caso no Brasil e em outros países seja uma ajuda para a libertação dos jovens. Voz da América
Corrupção, má governação e falta de transparência mancham relações entre Angola e China
É preciso saber quais os termos e condições dos empréstimos da China à
Angola e divulgar a dívida real - é o que pedem especialistas.
A relação entre Angola e a China remonta à fase pós-guerra, período em que foi assinado o acordo-quadro, de 28 de novembro de 2003, pelo ministro das Finanças de Angola e do Comércio Externo e de Cooperação Internacional com o governo da China. Em dezembro de 2011, o ex-ministro das Finanças, Carlos Alberto Lopes, tinha dito na Assembleia Nacional que Angola devia à China 5,6 mil milhões de dólares, dos 9 mil milhões contraídos.
Em entrevista à DW África, o especialista em políticas públicas, David Kissadila, recua no tempo e recorda o início da relação entre Angola e China: “A relação entre Angola e China começou com o fim da guerra em 2002. Havia necessidade de se reconstruir o país,.Então a China apareceu como parceiro privilegiado. Esta parceria ajudou Angola a crescer”.
De acordo com a edição de 08 de junho de 2015 do Jornal de Angola “em 2004, a dívida de Angola com a China era de 15 mil milhões de dólares.” A dívida de Angola prevista para 2015 é de 20 mil milhões de dólares.
Ainda em junho, o Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, contraiu um novo crédito, após visita à China, de aproximadamente 6 mil milhões de dólares.
A confirmação deste empréstimo foi dada pelo vice-presidente, Manuel Vicente, na apresentação do discurso sobre o estado da Nação, na Assembleia Nacional, de 15 de outubro. Não são conhecidas as taxas de juros aplicadas a essa divida, notam os especialistas em Luanda.
"Corrupção caracteriza as relações bilaterais Angola / China"
O politólogo João Baruba diz que “há má governação e não prestação de contas públicas" revelaando que o "executivo continua a violar os princípios de boa governação e de prestação de contas”, concluí o politólogo.
O economista Precioso Domingos diz por seu lado que se trata de falta de transparência na gestão da máquina pública: “Uma das grandes diferenças tem a ver com a transparência. A China, ao contrário do ocidente (das instituições internacionais), não tem qualquer problema em conceder empréstimos aos países. Para a China o que mais interessa é ver o seu benefício. A China tem saído a ganhar”.
Corrupção é o fenómeno que tem caracterizado as relações bilaterais entre Angola e China, sublinha David Kissadila: “Ao invés dos montantes serem distribuídos equitativamente para beneficiar vários setores, eles vão para uma atividade imediata que não tem continuidade de rentabilidade. Isto demonstra que há interesse das pessoas em tirar os seus dividendos sendo Angola um pais corrupto e quando o investimento é grande as comissões também são grandes, por isso, algumas pessoas estão a ficar ricas de noite para dia".
O especialista aponta a detenção de Sam Pa, um dos principais intermediários nos negócios entre Angola e a China que foi preso no dia 15 de outubro no âmbito da investigação contra a corrupção, como exemplo acabado da nódoa que suja o casamento entre os dois países: “Determinadas personalidades angolanas estão metidas nestes negócios. A China já deteve um suspeito de corrupção. Estes elementos é que fazem com que não se saiba como estão a ser geridos os dinheiros de Angola.” Deutsche Welle
A relação entre Angola e a China remonta à fase pós-guerra, período em que foi assinado o acordo-quadro, de 28 de novembro de 2003, pelo ministro das Finanças de Angola e do Comércio Externo e de Cooperação Internacional com o governo da China. Em dezembro de 2011, o ex-ministro das Finanças, Carlos Alberto Lopes, tinha dito na Assembleia Nacional que Angola devia à China 5,6 mil milhões de dólares, dos 9 mil milhões contraídos.
Em entrevista à DW África, o especialista em políticas públicas, David Kissadila, recua no tempo e recorda o início da relação entre Angola e China: “A relação entre Angola e China começou com o fim da guerra em 2002. Havia necessidade de se reconstruir o país,.Então a China apareceu como parceiro privilegiado. Esta parceria ajudou Angola a crescer”.
De acordo com a edição de 08 de junho de 2015 do Jornal de Angola “em 2004, a dívida de Angola com a China era de 15 mil milhões de dólares.” A dívida de Angola prevista para 2015 é de 20 mil milhões de dólares.
Ainda em junho, o Presidente da República de Angola, José Eduardo dos Santos, contraiu um novo crédito, após visita à China, de aproximadamente 6 mil milhões de dólares.
A confirmação deste empréstimo foi dada pelo vice-presidente, Manuel Vicente, na apresentação do discurso sobre o estado da Nação, na Assembleia Nacional, de 15 de outubro. Não são conhecidas as taxas de juros aplicadas a essa divida, notam os especialistas em Luanda.
"Corrupção caracteriza as relações bilaterais Angola / China"
O politólogo João Baruba diz que “há má governação e não prestação de contas públicas" revelaando que o "executivo continua a violar os princípios de boa governação e de prestação de contas”, concluí o politólogo.
O economista Precioso Domingos diz por seu lado que se trata de falta de transparência na gestão da máquina pública: “Uma das grandes diferenças tem a ver com a transparência. A China, ao contrário do ocidente (das instituições internacionais), não tem qualquer problema em conceder empréstimos aos países. Para a China o que mais interessa é ver o seu benefício. A China tem saído a ganhar”.
Corrupção é o fenómeno que tem caracterizado as relações bilaterais entre Angola e China, sublinha David Kissadila: “Ao invés dos montantes serem distribuídos equitativamente para beneficiar vários setores, eles vão para uma atividade imediata que não tem continuidade de rentabilidade. Isto demonstra que há interesse das pessoas em tirar os seus dividendos sendo Angola um pais corrupto e quando o investimento é grande as comissões também são grandes, por isso, algumas pessoas estão a ficar ricas de noite para dia".
O especialista aponta a detenção de Sam Pa, um dos principais intermediários nos negócios entre Angola e a China que foi preso no dia 15 de outubro no âmbito da investigação contra a corrupção, como exemplo acabado da nódoa que suja o casamento entre os dois países: “Determinadas personalidades angolanas estão metidas nestes negócios. A China já deteve um suspeito de corrupção. Estes elementos é que fazem com que não se saiba como estão a ser geridos os dinheiros de Angola.” Deutsche Welle
domingo, 1 de novembro de 2015
Houve independência mas não descolonização das mentes
40 anos depois da independência, as
tensões raciais ainda estão à flor da pele: vê-se no discurso, nas filas
de espera, na competição pelos lugares de chefia. “O privilégio branco é
visível também em Angola”
A igreja da Sagrada Família, em
Luanda, é um dos monumentos mais conhecidos da cidade. Projectada pelos
arquitectos Sabino Correia e Sousa Mendes, foi inaugurada em 1964, num
bairro movimentado, Maculusso.Na estrada e no passeio atravessa-se uma pequena amostra da população da Angola de hoje: um jovem com roupa desportiva, um militar, uma candongueira, um engravatado. Centenas de pessoas passam por ali, a pé ou de carro, e é provável que muitas já nem notem um mural vermelho onde se conta, a escrito e a desenho, “a história do MPLA pela juventude”.
Frases como “escravidão camponesa” alinham-se a amarelo. Seguindo, então, a história, podemos ler: “Para os angolanos sempre o pior trabalho”. “Exploração” e “colonialismo”. Um homem negro com uma venda nos olhos e outra venda na boca foi desenhado a preto e branco, assim como uns contentores com Lisboa e Portugal escritos a preto. A sequência de imagens e palavras não é necessariamente esta, mas a mensagem que nasce da associação entre elas é óbvia — a exploração da terra e do povo pelos colonos portugueses.
Passados 40 anos da independência, o legado colonial em Angola não se sente apenas na arquitectura da cidade. O discurso que se lê nos murais está, também, nas palavras dos angolanos na rua. Das fracturas que o colonialismo deixou, nas relações raciais, há marcas que o tempo não apagou nem apagará tão cedo — marcas mais evidentes para uns do que para outros, marcas mais associadas ao colonialismo por uns do que por outros.
Num país em que mais de 60% da população tem menos de 24 anos, a maioria não viveu o período em que havia um “apartheid” em Angola, pelo menos informal: o sociólogo Paulo de Carvalho, professor na Universidade Agostinho Neto, 55 anos, lembra-se de uma Angola colonial em que havia separação das raças, social e também espacial. Nas cidades estavam o casco urbano, onde viviam os brancos, e nos anéis circundantes os musseques, onde viviam os negros.
Nascido em Luanda, Paulo de Carvalho foi com dois meses para o Lobito, na província de Benguela, cidade onde existiam os autocarros para brancos e os autocarros para negros. Alguns negros tinham acesso aos autocarros para brancos, mas muito poucos — eram os chamados “assimilados”, grupo ao qual Paulo de Carvalho pertencia.
Os assimilados eram os que conseguiam ultrapassar o estatuto de indígenas — e indígenas eram “todos os indivíduos de raça negra ou dela descendentes que, pela sua ilustração e costumes, não se distinguissem do comum daquela raça”. Tinham de falar correctamente português, ter adquirido hábitos como comer com talheres e à mesa, ter bom comportamento e — muito importante — receber um salário.
Ser assimilado era “ter uma maior identificação com o colonizador, com a nação portuguesa”. Paulo de Carvalho lembra uma história: tinha uns sete ou oito anos, e houve uma campanha de vacinação em que teve de preencher o item raça. Alguém lhe disse para colocar um “B” de branco. O pai quando viu o seu cartão de vacinas perguntou: “Quem te disse que tu és branco? Tu não és branco. Se alguma vez te disserem para escreveres que és branco, tu dizes que não. Se insistirem, tu dizes que ‘o meu pai disse que eu não sou branco’.”
A leitura que faz hoje do episódio é clara: “Como eu era assimilado, já era branco [para quem lhe indicou para o fazer]…”
No dia-a-dia passavam-se várias coisas que não percebia. Por exemplo, via os mais velhos afastarem-se do passeio para deixar passar os brancos mais novos quando o hábito era, na verdade, os mais novos, em geral, darem lugar aos mais velhos. Nas farmácias, era comum ver negros ou mestiços à porta a espreitarem para verificar se estavam brancos — se estivessem, esperavam “e vergavam-se para poderem ser atendidos”. Havia bares que quem não era assimilado não podia frequentar — podia entrar para comprar alguma coisa, não para se sentar. “A discriminação e o percebermos que éramos inferiores acontecia todos os dias.” Isto era assim até pelo menos 1970, descreve.
Era o reflexo de um racismo institucionalizado, permitido pela legislação, com a discriminação dos grupos raciais, em que os brancos estavam no topo da pirâmide hierárquica.
José Patrocínio, fundador da ONG Omunga, filho de portugueses brancos, também se lembra dos autocarros separados. “A justificativa era que um autocarro era mais caro do que o outro.” Ele que vive no Bairro da Luz, no Lobito, há 40 e tal anos, pertencia a uma classe média que tinha acesso a vários serviços.
Na casa onde vive há décadas, e que funciona como sede da Omunga, há várias obras de arte africanas na parede. A sala é ampla, dá para um pequeno alpendre — à sua frente está um tronco de árvore caído, resultado das cheias que em Março assolaram a região de Benguela. O centro de Lobito ainda conserva muito da arquitectura colonial do século XX, e há zonas como a Restinga que ainda evidenciam o poder económico da época. Hoje as cidades são circundadas por enormes musseques onde a maioria da população tem falta de água, de luz, de saneamento básico.
José Patrocínio tem barba e cabelos brancos, usa rastas e anda descalço. “Estudei na escola pública. Na primária devo ter tido um ou dois colegas negros. A partir da independência, começa a haver uma grande mudança no sentido de pensar a escola. Mas começa a haver também problemas, a maior parte dos professores eram portugueses e foram-se embora. Foi-se tentando tapar o buraco, tinha aulas com professores que eram alunos do 7.º ano.”
Muitas vezes nem se apercebia da questão racial porque a verdade é que no quotidiano eram poucas as relações com pessoas de outras raças. “Sei que havia muito racismo. Lembro de o meu pai falar que foi ele que conseguiu que um clube lusitano aceitasse pela primeira vez jogadores negros; era argumentado que as questões não eram baseadas na raça mas eram económicas. A única relação que tinha com negros diariamente era com as pessoas que trabalhavam na nossa casa e comiam connosco à mesa. Mas com os vizinhos já não era assim: [os empregados negros] comiam no quintal e se calhar a comida deles era diferente.”
À flor da pele
A noite cai cedo em Luanda, a 25 de Março. Pelas 18h já está escuríssimo. No auditório da Mediateca, o ex-futebolista francês Lilian Thuram (nascido em Guadalupe) tem à sua frente uma plateia cheia e curiosa. Presidente da Fundação Lilian Thuram — Educação Contra o Racismo, veio a Angola falar do seu livro As Minhas Estrelas Negras.
Homem alto, imponente, Lilian Thuram vai dizendo pausadamente que no consciente colectivo a história dos povos negros começa na escravatura, por isso “é compreensível que haja preconceitos baseados na cor da pele”. “As pessoas pensam que os negros são inferiores. Por isso é preciso contar outras histórias, e essas histórias são reais e existem. Por isso apresento nas minhas histórias negras pessoas que existiam antes da história da escravatura nas Antilhas.” Define: “O racismo é um sistema económico como a colonização o é, mas quando se quer explorar alguém tem de se construir a inferioridade de alguém, como os homens construíram a inferioridade das mulheres.”
Há jovens e velhos a assistir, negros e mestiços, brancos, angolanos, estrangeiros, gente que pertence à classe média e média alta. Quando o microfone passa para a plateia, muitos querem fazer perguntas. O racismo é um tema que está no quotidiano em Luanda. Não é mero assunto incómodo posto debaixo do tapete. Aparece nas discussões mais corriqueiras em filas de espera para qualquer coisa. Ou no final de uma discussão sobre a relação preço/qualidade de um prato de comida que acaba de chegar à mesa. Num país em que a liberdade de expressão leva pessoas à cadeia, o racismo é, surpreendentemente, um tema à flor da pele.
A capital, pensada para cerca de 250 mil pessoas mas onde vivem cerca de 5 milhões, é palco de muitas tensões.
“Como é ser negro em Angola? É como ser branco na Europa”, diz Sacerdote, rapper, produtor e promotor cultural. Racismo existe em todo o lado, Angola não é excepção, e ele próprio já foi vítima. “É como a corrupção, nunca vai acabar — vamos lutar bué, mas enquanto formos homens...”
No Sambizanga, onde vive, “não há muitos mulatos nem brancos”. É um dos maiores musseques de Luanda, um bairro de lata onde muita gente tem medo de entrar. No centro, a enorme estrada foi transformada em rio devido às cheias. Os vendedores assam comida em frente a lixo, galinhas passeiam-se entre escombros, há lixo de todo o tipo nos telhados.
Os musseques foram pensados como zonas separadas para os negros durante o período colonial — os brancos ficavam no centro da cidade. “Proporcionar as comodidades da vida na Europa à comunidade não era tarefa simples numa colónia falida e parcialmente povoada por condenados. O abastecimento de água foi, durante séculos, um problema tremendo”, lê-se em História de Angola, de Douglas Wheeler e René Pélissier.
O facto de a população dos musseques ainda hoje ser maioritariamente negra é visto como consequência da separação racial do tempo colonial.
As relações raciais definem-se por quem controla quem, quem exclui quem e quem se vê excluído, comenta Elias Isaac, 55 anos, director da Open Society Iniciative of Southern Africa (OSISA) em Luanda. Hoje em Angola a questão das relações raciais aparece de forma subtil, continua, na sede da ONG, que fica num dos prédios novos de Talatona. Talatona é um bairro onde ficam muitas empresas, é também uma zona residencial da classe média alta e o trânsito de manhã e ao final do dia é compacto.
No quotidiano, os angolanos negros, a maioria, os mestiços (cerca de 2%) e os brancos (1%) convivem, estão nos mesmos restaurantes, estão nas mesmas discotecas, defende. Mas se aprofundarmos: “Nos subúrbios mais pobres, só existe um tipo de gente, os angolanos de raça negra. Nos condomínios, nos bons subúrbios, há angolanos de raça negra da elite, com angolanos de raça mista, de raça branca ou povos de outras nações. Por isso digo que [o racismo] não aparece de forma tão expressiva na sociedade, mas subtilmente.”
Nasceu na Canata, um bairro “excluído de quase tudo” em Lobito. Lembra-se de o pai ter sido preso pela PIDE e de lá ter ficado durante uns três anos. “Passámos muita carência nesse período, só porque o meu pai tinha convicções diferentes do sistema e foi excluído. É uma referência que tenho na vida. Muitas vezes quando estou numa situação de relação com um português isso talvez volte a tocar a minha alma, a minha vida”, confessa.
Para o presidente desta ONG que trabalha direitos humanos e sociais, em 1975 não houve uma transição mas uma ruptura. Os angolanos brancos e os portugueses brancos “desapareceram” durante um largo período de tempo — regressaram mais tarde, já não com domínio político, mas com domínio económico e social. O problema é que desde 1975 não houve um programa de transformação social, sublinha, e muitos dos elementos do colonialismo português ainda estão vivos. Por exemplo, a questão da exclusão social reflectida no facto de os pobres viverem em musseques, que se mantém. “Aceitou-se isso como uma norma, em que uns tinham de viver assim para outros viverem de outra forma. Isto tem reflexo nas próprias relações raciais. Transformação social não é um país criar uma elite, uma pequena burguesia, uma minoria e ter isso como exemplo. Não: é ter a maioria como exemplo. O que Angola está a tentar fazer é a transformação social com uma minoria que vive nos condomínios, tem acesso ao crédito bancário, a bons empregos, enquanto a grande maioria que já no passado viveu excluída continua excluída nos musseques.”
Aparentemente, esta é uma questão mais de classe do que de raça. Mas o problema coloca-se quando um engenheiro estrangeiro branco chega a Angola e há diferença de tratamento, sublinha Elias Isaac. “Vai encontrar um médico angolano e um expatriado a fazerem o mesmo trabalho mas a ganharem salários diferentes e a viverem em condições sociais completamente diferentes. O poder político incentiva esta diferenciação. O Governo aceita praticar essa diferença. E isto é uma questão racial porque não acontece a mesma coisa com alguém da Zâmbia ou do Zimbabwe que vem trabalhar aqui.” Ler +
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