terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Dhlakama garante: Presidente sul-africano e igreja Católica vão mediar diálogo Renamo-Governo

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, garantiu hoje que o Presidente sul-africano Jacob Zuma e a igreja Católica manifestaram "prontidão" para mediarem o conflito político-militar em Moçambique, e acusou o Governo de "fintar" o diálogo.

"Sim, já tive resposta. A igreja Católica já manifestou a prontidão, só que não pode por si só, estas coisas de mediação sabem, é preciso que ambos lados estejam disponíveis. É preciso que a Frelimo e o Governo demonstrem também esta boa vontade. E também tenho indicações que o Presidente (Jacob) Zuma está disposto a ajudar os irmãos moçambicanos", disse Afonso Dhlakama, líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), maior partido da oposição.
Falando durante a abertura de uma reunião de quadros do partido ao nível da cidade da Beira, Sofala, centro de Moçambique, a primeira que orienta por telefone este ano, a partir de Sadjundjira, na Gorongosa, província de Sofala, Afonso Dhlakama, disse que só após a constituição da nova equipa de mediação e "avaliarmos bem, algumas coisas podem andar".
Contudo condicionou a realização dos encontros na serra da Gorongosa, onde fica o quartel-general do partido, e onde voltou a viver há três meses, após o cerco e invasão da sua casa na cidade da Beira por forças especiais da Polícia moçambicana, de onde levaram 16 armas.
"Não estou no lugar incerto. Eu sai da Beira a andar porque não gostei daquelas coisas todas (cerco e invasão), eu havia de mandar explodir tudo por completo, havia de fazer massacre (em resposta), mas evitei, por isso estou cá (Sadjundjira), até porque é quartel-general estou mais seguro", insistiu Afonso Dhlakama, sobre o seu paradeiro e o condicionamento do local para o diálogo.
Afonso Dhlakama acusou o Presidente moçambicano de estar a fazer "falácia enganosa e fantochada" quanto aos convites endereçados à Renamo, questionando que "se tivesse morrido no dia 12 ou 25 de setembro (incidentes com a caravana da Renamo em Manica, onde o Governo contabilizou 25 mortos) ele havia de negociar com quem?".
Avisou entretanto, que a sua governação a partir de março próximo não está condicionada ao diálogo com o Governo, afiançando que a prioridade "do momento é tomarmos conta das nossas províncias", que garante querer implantar "tranquilamente e sem tiros".
"Março já chegou e as coisas estão preparadas. Jacob Zuma não é para resolver tudo, é para ajudar, estar no meio entre a Renamo e a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique, no poder) e o convidamos para ser mediador, a Frelimo está a dar voltas", precisou Afonso Dhlakama, reconhecendo que Jacob Zuma tem fortes ligações com a Frelimo, pela irmandade com o Congresso Nacional Africano (ANC), partido no poder na África do Sul.
O líder da Renamo disse que a questão da ilegalidade e inconstitucionalidade da sua administração, que levou a maioria da Frelimo a chumbar na Assembleia da República um projeto de lei de criação de autarquias provinciais e um projeto de revisão pontual da Constituição da República, vai ser ultrapassada durante as negociações.
Adiantou que debaixo de uma árvore em Sadjundjira pode se acrescentar à Constituição "a clausula que diz que o partido que tiver uma maioria numa província governa com os seus manifestos".
"Digam o que é preciso, primeiro vamos governar, se é para legalizar, vamos legalizar enquanto já estamos a governar. Também não é legalizar quando se trata da Renamo, porque não obrigam a Frelimo, que já governa o país desde 1994 através do roubo, as pessoas só vão levantar cabeça quando é Dhlakama que diz vamos governar as províncias onde ganha?", questionou, sustentando que se fosse belicista já teria tomado o poder pela força militar, e alertou para que o Governo não use armas.
Exemplificando a governação que pretende por em prática, Afonso Dhlakama disse que "é só chegar em Maringue, de dia, dizer ao administrador 'olha já não és administrador, quem te substitui neste momento é esta senhora Teresa, da Renamo'. Isto irá acontecer também com o comandante (da força) de intervenção rápida ou da esquadra e assim será na Beira, Tete, Nampula e outros lugares".
Moçambique vive uma crise política e militar desde 2013, que se manteve com a recusa da Renamo em reconhecer a derrota nas eleições gerais de outubro de 2014, e insiste na criação de seis províncias autónomas no centro e norte do país, onde reivindica vitória eleitoral e elegeu 81 dos 89 deputados para o Parlamento. Diário de Notícias

sábado, 9 de janeiro de 2016

Parlamento português chumba voto de condenação do regime angolano

PSD, CDS-PP e PCP votaram contra o pedido de apoio aos activistas detidos.

O Parlamento português rejeitou nesta sexta-feira um voto de condenação à “repressão em Angola com um apelo à libertação dos activistas detidos”.
A proposta foi apresentada pelo Bloco de Esquerda, mas foi chumbada pelos partidos da direita, PSD e CDS-PP, e do PCP, enquanto o PS e os Verde se abstiveram.
"É preciso travar e dar por finalizado este arrastado processo que visa intimidar, deter e punir aqueles que criticam a governação de José Eduardo dos Santos, que tem tido interferência directa ao longo de todo o processo, dando ordens no sentido de prolongar indefinidamente as audiências", pode ler-se no voto da bancada bloquista, que teve o apoio de sete deputados socialistas e do representante do PAN.
O PCP, além de votar contra, apresentou uma declaração de voto em que advertiu os outros partidos que “não poderão contar" com os comunistas "para operações de desestabilização de Angola".
Os comunistas entenem que a  Assembleia da República não deve “interferir sobre o desenrolar” do processo entregue à justiça angolana, “prejudicando as relações de amizade e cooperação entre o povo português e o povo angolano. Voz da América

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Portugal pactuou com o apartheid contra a libertação de Angola e Moçambique

Portugal apoiava o regime de apartheid na África do Sul, este ajudava Lisboa na luta contra a independência nas colónias portuguesas. O acordo secreto continua a ser pouco conhecido pelo grande público. 

O regime de Salazar considerava relevante prestar apoio à África do Sul na era do apartheid, nome que se dava à segregação racial da sociedade total, em detrimento da maioria negra. Portugal esperava, em contrapartida, o apoio de Pretória para derrotar os movimentos de libertação que lutavam pela independência de Angola e de Moçambique, nos anos 60 e 70 do século passado. Hoje, o acordo secreto assinado em 1970 pelos dois regimes e o que era então a Rodésia, actual Zimbabué, com a designação portuguesa de ALCORA, ou Aliança Contra as Rebeliões em África, não obstou a que na África do Sul crescesse a dúvida de que Portugal tinha capacidades para manter as colónias.
O investigador português Luís Barroso dedica a sua tese de doutoramento “Marcelo Caetano e a origem do exercício ALCORA – as desconfianças da África do Sul quanto ao futuro de Angola e de Moçambique”, a este capítulo pouco conhecido da História portuguesa: “O exercício ALCORA trazia atrás de si um empréstimo de cerca de 120 milhões de rands, em ouro ou dinheiro, que Portugal deveria usar para comprar armamento. Nos anos 70 os portugueses contactaram os franceses para adquirir os aviões Mirage-3, para poderem ser utilizados na luta contra a subversão”. Segundo o investigador, os franceses não queriam que os aviões fossem usados na Guiné: “Mas era com esse dinheiro que Portugal iria tentar encontrar material de primeira linha essencial para o esforço de guerra”, diz Luís Barroso.

Pretória desconfia das capacidades de guerra portuguesas

No início dos anos 70 tornava-se cada vez mais evidente que a pressão política por parte da oposição e dos movimentos estudantis, mas sobretudo a insatisfação dos militares, aliados a dificuldades financeiras, colocavam em dúvida a capacidade do Governo de Marcelo, que sucedera a Salazar, de suportar as guerras em África.
Daí os receios de Pretória de que o esforço de guerra pudesse ser abrandado –, acrescenta Barroso, tenente-coronel de infantaria, que foi professor no antigo Instituto de Altos Estudos Militares: “Tanto é que quando o Caetano entra para Presidente do Conselho, o ministro sul-africano da Defesa Pieter Botha perguntou ao seu homólogo português o seguinte: afinal, vamos continuar a contar com vocês, ou vai haver alguma mudança?” Luís Barros ressalta que Pretória tinha a “noção da descoordenação entre o poder político e as chefias militares nos teatros das operações”.

Aliança secreta

O Plano de Defesa para a África Austral, suportado pela África do Sul e a Rodésia, foi a génese do exercício ALCORA. De acordo com Luís Barroso, que desempenha funções no quartel-general da NATO na Holanda, ainda existe uma vasta área de investigação sobre aquele projeto secreto, no âmbito dos estudos das guerras que envolveram países da África Austral, como Angola e Moçambique, e as potências regionais e globais de domínio branco.
Convém explicar que ALCORA era uma aliança político-militar tripartida com o objetivo principal de estudar os mecanismos de coordenação de esforços na luta contra-subversiva, visando a derrota dos movimentos de libertação da região austral, na qual se inseriam Angola e Moçambique: “Foi uma aliança mantida em segredo. Não conheço nenhuma referência, por exemplo, na documentação norte-americana ou britânica”.
Mas sabe-se já que a perspetiva com que a ofensiva era encarada pela África do Sul e a Rodésia era substancialmente diferente da visão portuguesa. Ressalta o investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE – Instituto Universitário
de Lisboa: “Do lado sul-africano era mais uma tentativa de – entre aspas - comprar a estratégia portuguesa, ou seja, de definitivamente entrar na condução estratégica das ações em toda a África austral. Do lado português era visto mais como uma muleta, como um apoio essencial em termos financeiros e militares para os problemas em Angola e em Moçambique”. Deutsche Welle

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Líder do MDM defende eleição de governos provinciais em Moçambique e critica governo central

"Num verdadeiro Estado de Direito, governa quem tem aval do povo e isto se faz através de voto nas urnas, de forma transparente, livre e justa" defendeu Daviz Simango, líder do MDM, que acusou o governo de "violar os direitos humanos e empurrar o país para parte incerta".

Beira - O líder do terceiro maior partido moçambicano, o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), Daviz Simango, reiterou nesta terça-feira (05) o apoio à criação de províncias autónomas, com eleição dos governadores provinciais, insistindo que a medida vai introduzir "cultura de responsabilidades" no Estado.
"Moçambique vive uma forte cultura centralista e hegemónica. É preciso contrapor esta mentalidade, para um caminho consensual e uma política correcta", precisou Simango, presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), defendendo que só através do "voto do povo" o importante cargo administrativo poderá ser exercido de maneira democrática.
O também autarca da Beira, afiançou que Moçambique precisa de um Estado "menos centralizado e menos burocratizado", sustentando que a revisão constitucional, poderia permitir "regras de jogo limpo", com oportunidade de diversidade do mapeamento político, sem ferir a soberania do Estado.
"Num verdadeiro Estado de Direito, governa quem tem aval do povo e isto se faz através de voto nas urnas, de forma transparente, livre e justa" defendeu Daviz Simango, criticando o desrespeito desta ferramenta democrática no país e acusou o Governo de "violar os direitos humanos e empurrar o país para parte incerta".
Na sua primeira intervenção do ano, Daviz Simango, também membro do Conselho do Estado - indicado pelo Presidente moçambicano, Filipe Nyusi - defende ainda que com os novos órgãos eleitos pode melhorar a "interferência partidária", que se aprofunda cada vez mais no Estado, fazendo com que os cidadãos cada vez menos critiquem, denunciem ou reclamem a violação dos seus direitos.
Contudo Simango deplorou o uso da palavra "paz" como moeda de troca para manutenção da situação política no país, acrescentando que Moçambique precisa alcançar uma paz verdadeira "pensando em se educar para a Paz, mostrando que o espectáculo diário das guerras, das tensões, das ameaças, das divisões, apenas semeiam dúvidas e quebram a confiança" entre os intervenientes políticos e a população.
"Infelizmente os gestos de Paz das autoridades governamentais e daqueles que protagonizam as negociações, continuam irrisoriamente impotentes para mudar o rumo das coisas, devido a resistência de introduzir reformas necessárias para a convivência democrata", precisou Daviz Simango.
Contudo manifestou-se solidário com as vítimas da "intolerância política", em alusão às mortes, feridos e deslocados dos confrontos entre a guarda da Renamo (Resistência nacional Moçambicana), principal partido da oposição, e as forças de defesa e segurança, renovando o compromisso da sua luta por "Moçambique para Todos".
O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, insiste que a partir de Março próximo vai governar as seis províncias do norte e dentro do país onde reivindica vitória nas eleições de Outubro de 2014, apesar da Assembleia da República em duas ocasiões, em Abril e Novembro de 2015 - por intermédio dos votos da bancada maioritária, a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) - ter rejeitado os projectos-lei submetidos nesse sentido. África 21

Angop

Analistas defendem investigação profunda dos moçambicanos com sete milhões de dólares

A prisão de dois moçambicanos no dia do Natal na fronteira sul-africana de Lebombo, com cerca de sete milhões de dólares não declarados, continua a suscitar incógnitas e debates.

Em Maputo, acredita-se que uma investigação minuciosa ao caso pode levar ao esclarecimento de várias situações do submundo do crime organizado, que está a assumir contornos alarmantes.
Os dois moçambicanos são de origem asiática e um deles tem uma relação familiar com o líder de uma mesquita de Maputo.
Eventualmente, esta pode ser uma pista para os investigadores.
Ao nível da comunidade muçulmana em Maputo, o silencio é absoluto.
O investigador Laurindos Macuácua acredita que os detidos tenham feito referência a um eventual envolvimento de lideres muçulmanos, "porque não é á toa que um maulana está a ser investigado”.
O semanário moçambicano Savana noticiou que o maulana Nazir Lunat, da mesquita Masjid Taqwa está a ser investigado, em conexão com o caso.
Para o decano dos jornalistas moçambicanos, Paul Fauvet, se as investigações a este caso forem feitas até às últimas consequências muita coisa poderá ser esclarecida, relativamente aos contornos do crime organizado em Moçambique.
Fauvet destacou ser "necessário que as polícias sul-africana e moçambicana investiguem este caso para se descobrir a proveniência deste dinheiro, porque este pode ser dinheiro sujo".
Refira-se que as investigações já estão em curso, envolvendo entidades sul-africanas e moçambicanas, e os detidos foram ouvidos em tribunal. Voz da América

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Moeda angolana tem forte desvalorização

O kwanza, a moeda angolana, caiu para o valor mais baixo desde setembro de 2001, desvalorizando 15% para 158,7 kwanzas por dólar, que acresce à quebra de 24% em 2015, de acordo com a Bloomberg.

Luanda - O kwanza, a moeda angolana, caiu para o valor mais baixo desde setembro de 2001, desvalorizando 15% para 158,7 kwanzas por dólar, que acresce à quebra de 24% em 2015, de acordo com a  Bloomberg, informa a agência portuguesa Lusa.
Segundo a Bloomberg, a moeda nacional angolana caiu 15% no primeiro dia útil deste ano, somando à queda de 24% registada durante o ano passado, uma tendência que já dura há oito anos.
Na semana passada, o kwanza vendeu-se a uma taxa média de 156,3, o que compara com os 135,9 na semana anterior, segundo disse o Banco Nacional de Angola no final de dezembro, e representa "a maior desvalorização desde que as autoridades monetárias começaram a cortar o câmbio em vários momentos durante 2015, que [a consultora] Grupo Eurasia estima ter representado 25% antes da última redução", diz a Bloomberg.
De acordo com a Bloomberg, o banco central angolano está a tentar esbater a diferença entre a taxa oficial de câmbio e a variação no 'mercado negro', no qual um dólar pode valer 270 ou 280 dólares, cerca do dobro da taxa oficial.
Em novembro, o banco central começou a limitar o acesso aos dólares, restringindo o montante que disponibilizava aos bancos comerciais, em resultado da descida de mais de 65% no preço do petróleo desde junho de 2014, o que reduziu drasticamente a disponibilidade da moeda norte-americana.
A limitação imposta pelo banco central, que na prática decide quais os setores que mais precisam de dólares, deixou as empresas à mercê da discricionariedade das autoridades, disse o presidente da Associação Industrial de Angola, José Severino, em declarações à Bloomberg, em dezembro. África 21

Polícia sul-africana investiga possível financiamento do terrorismo a partir de Moçambique

Dois moçambicanos detidos com cerca de 7 milhões de dólares são apresentados hoje ao tribunal.

Os dois moçambicanos de­tidos no dia do Natal no lado sul-africano na fronteira de Ressano Garcia, na posse de cerca de sete milhões de dólares não declarados, voltam hoje ao Tribunal Magistral de Berbarton, em Mpumalanga, para mais uma audiência, na qual deverão ser adoptadas medidas de coacção, enquanto aguardam em liberdade o julgamento do caso.
No momento da prisão, Assane Momad, de 50 anos de idade, e Abdul Ahmed, de 37 anos, tinham em seu poder 4,9 milhões de dólares americanos, 2,2 milhões de euros e 20 mil randes.
Eles foram acusados, na altura, de lavagem de dinheiro.
O porta-voz da unidade especial da polícia sul-africana Hawks, o brigadeiro Hangwani Mulaudzi, admitiu que o dinheiro podia destinar-se a activistas terroristas.
"Onde e como eles conseguiram esse dinheiro é o que estamos a tentar determinar", disse Mulaudzi , citado pelo portal sul-africano domingo iol.co.za, adiantando ainda que “podem usar esse dinheiro para actividades terroristas.
Outra pista seguida pela polícia sul-africana é que o valor poderia ter sido obtido a partir de resgates dos vários sequestros assolam, desde 2011, as principais cidades moçambicanas, em particular Maputo e Matola.
As vítimas, na sua maioria, são empresários de origem asiática ou seus parentes e enormes somas em dinheiro foram exigidas em resgates. Voz da América

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

José Eduardo dos Santos: O Rei Sol angolano

O homem que domina a política angolana quase há 36 anos está a caminho de dar mais um golpe de mestre. Invocando as circunstâncias excecionais que o país enfrenta, como já o fez em várias outras ocasiões, prepara-se para ficar no palácio presidencial até 2022, quando tiver 80 anos. Nessa altura terá talvez a tentação de proceder a uma sucessão dinástica. Ou então, quem sabe, fazer uma nova alteração da Constituição, como tem ocorrido em vários países africanos, que lhe permita eternizar-se no poder até à morte 

José Eduardo dos Santos controla grande parte das peças do tabuleiro onde se joga a política angolana. Mas nem ele, que tem vindo a cimentar o seu poder por formas “tão sábias, tão subtis e tão peritas que não podem ser bem descritas”, como escreveu Sophia de Mello Breyner, consegue dominar todas as variáveis. E a primeira que não controla é a evolução do preço do petróleo. Em 2008, quando o MPLA venceu as eleições legislativas com mais de 80 por cento dos votos e o país registava taxas de crescimento médio de 17 por cento ao ano, tudo parecia correr bem ao Presidente, sem contestação interna visível, depois da morte de Jonas Savimbi em 2002 e do fim da guerra civil que se arrastava desde 1975, e com uma crescente complacência externa face aos múltiplos negócios que a abertura e a pujança da economia angolana permitiam aos investidores internacionais.
Nessa altura, as previsões para os preços do petróleo apontavam para que continuaria a evoluir em alta, ao redor dos 100 dólares, mas que poderia vir mesmo a atingir em não muitos anos os 200 dólares por barril. Nenhum especialista previu que a revolução do shale oil (petróleo de xisto) nos Estados Unidos da América traria de forma dramática e rápida o barril para os 40 dólares como aconteceu em 2014, oscilando agora na casa dos 60 dólares. O golpe foi tão rápido e avassalador que o Orçamento do Estado de Angola para 2015, que estava calculado na base de um barril a 81 dólares (que já representava uma queda de 18 por cento face ao ano anterior), teve de ser revisto para os 40 dólares, provocando uma quebra estimada de 22 mil milhões de dólares nas receitas previstas para este ano. Ora, como os rendimentos petrolíferos representam 42 por cento do PIB, 90 por cento das exportações e 75 por cento das receitas do Estado, percebe-se facilmente o efeito devastador que esta quebra dos preços do crude provoca na economia angolana, mas também na elite que vive na intimidade do palácio presidencial.
“A situação de Angola alterou-se radicalmente por causa da queda do preço do petróleo, mas o efeito mais nocivo é político”, considera Xavier de Figueiredo. Para este especialista em questões africanas, as receitas do petróleo são fundamentais para o funcionamento do sistema em que assenta o regime político angolano, nomeadamente, para garantir um conjunto de lealdades das elites políticas, económicas e militares ao Presidente. Sem esses montantes — o Banco Mundial estimou que 32 mil milhões de dólares provenientes das exportações petrolíferas não entram nos canais legais, servindo precisamente para manter estas elites satisfeitas, coniventes e cúmplices do palácio presidencial —, a situação política complica-se seriamente. “Muitas das lealdades de que depende o regime são interesseiras”, diz, pelo que a quebra de receitas começa a colocá-las em causa.
Só para se ter uma ideia de como o problema é assustador para uma economia que não se conseguiu diversificar, assinale-se que as receitas totais de Angola, de capital e correntes, atingiram em maio 485 milhões de dólares contra os 3,2 mil milhões no mesmo período do ano passado, uma quebra de 85 por cento, como admite o Ministério angolano das Finanças, no relatório de execução orçamental divulgado a semana passada. “Esta quebra de receitas apanhou os dirigentes angolanos em contramão e evidenciou um país cheio de fragilidades. Não há uma economia alternativa ao petróleo. Criou-se essa aparência mas ela não existe”, sustenta Xavier de Figueiredo.
Ora, esta quebra de receitas não é possível compensar através de empréstimos que não tenham objetivos muito claros. “As autoridades angolanas andam a bater a todas as portas”, assinala Manuel Ennes Ferreira, professor universitário e perito em assuntos africanos. E como não os conseguem obter junto dos Estados Unidos ou de outros países onde tais financiamentos são cada vez mais escrutinados, Luanda teve de se virar para outras paragens. A prova de que a situação é dramática foi a viagem de José Eduardo dos Santos à China no início de junho, durante a qual terá conseguido (embora as negociações tenham sido secretas) uma moratória no pagamento da dívida de Luanda a Pequim, a par de um novo empréstimo na casa dos 25 mil milhões de dólares, tendo dado como garantia de 30 por cento do empréstimo 500 mil hectares de terra arável e com água na província de Cuando-Cubango a empresas chinesas que ali se queiram instalar. Desde há quatro anos que investidores chineses mantêm uma forte presença naquela província, ocupando cerca de 15 mil hectares num projeto experimental de plantação de arroz.

Contestação social aumenta 

Devido ao secretismo da operação, o Presidente tem sido alvo de fortíssimas críticas por parte da oposição, de juristas e de elementos ligados à defesa dos direitos humanos, tanto mais que os camponeses que vivem naquela região ficaram sem pastagens para alimentar o gado devido ao aparecimento dos campos de arroz. E esta é a segunda variável que José Eduardo dos Santos não controla: a contestação social. Um dos casos dramáticos terá acontecido em maio, quando fiéis da seita A Luz do Mundo se reuniram no Monte Sumi, no Huambo, para esperar o fim do mundo, anunciado pelo seu líder Julino Kalupeteka para dezembro. A crescente afluência inquietou as autoridades do distrito, que terão enviado uma força policial para prender Kalupeteka e dispersar a multidão. A iniciativa acabou mal, com quatro agentes policiais mortos. No entanto, a polícia regressou e terá feito um massacre, cujos números são completamente díspares: as autoridades falam em 13 mortos entre os fiéis, há relatórios que apontam para centenas e a oposição contabiliza 1008 vítimas. Face a isto, o escritório do alto comissariado da ONU para os Direitos Humanos em Genebra pediu que fosse nomeada uma comissão independente, pretensão que caiu mal no seio do Governo angolano e foi prontamente rejeitada.
Mais surpreendente foi a detenção, a 21 de junho, de 15 jovens acusados de preparem um ato de rebelião e atentado contra o Presidente da República. Os jovens são conhecidos por organizarem manifestações pacíficas desde 2011, exigindo a demissão de José Eduardo dos Santos e participaram numa série de três debates baseados no livro “Da Ditadura à Democracia: Uma Abordagem Conceptual para a Libertação”, de Gene Sharp, académico pacifista norte-americano, que propõe um manual de instrução para estratégias de luta não-violenta contra ditaduras no mundo. A evocação de um novo 27 de maio, que, em 1977, resultou numa tentativa de golpe de Estado para derrubar o então Presidente Agostinho Neto, provocando depois a retaliação milhares de mortos de cidadãos angolanos, parece neste caso manifestamente excessiva, quer pela forma como estes ativistas se têm vindo a manifestar quer por não contarem com qualquer apoio de forças militares ou militarizadas, ao contrário do que aconteceu naquele evento, onde Nito Alves era um dos mais populares comandantes militares do MPLA. Na prática, os jovens estão a ser usados para passar o aviso, sobretudo em Luanda, para os que eventualmente querem e podem fazer um golpe de Estado. Mas isso pressupõe medo — medo de que algo possa acontecer. Quando ao caso Kalupeteka, destina-se a avisar os umbundos, a maior etnia do país, que vive no planalto central e foi durante muitos anos o principal bastião da UNITA e de Jonas Savimbi.
No ano passado, o MPLA desencadeou também uma operação mediática em editoriais e artigos publicados em jornais e revistas, mas também em intervenções televisivas, tentando colar a UNITA ao seu passado, quando era dirigida por Jonas Savimbi. Além disso, tem havido numerosos casos de violência contra as casas do partido do galo negro espalhadas pelo território. “Estão assustados e nervosos e reagem assim.” A criação de inimigos do regime, reais ou imaginários, e de situações de tensão faz parte de uma clara orientação do partido no poder em Angola para manter a unidade dos seus apoiantes e estarem sempre na mó de cima no combate político. “Os dirigentes do MPLA pensam a prazo. Só que não estão a pensar no país, mas na forma de se continuarem a manter no poder”, diz um analista da realidade angolana, que pede para não ser identificado.
Tudo isto ocorre tendo como pano de fundo uma situação económica que se está a deteriorar rapidamente. A inflação disparou, o custo de vida aumentou significativamente, há salários em atraso na Função Pública, bolsas para estudantes no estrangeiro que deixaram de ser pagas e milhares de pequenas empresas, que têm negócios com a administração central e local e não recebem o que lhes é devido, estão a entrar em colapso. É que o Governo, para responder à brutal quebra das receitas petrolíferas, cortou em um terço todas as despesas públicas contempladas no Orçamento do Estado do ano em curso. “Nunca vi os dirigentes angolanos numa situação de aflição tão grande como agora. Antes, a pressão vinha de fora e uniam-se. Mas agora, está lá dentro”, assinala Xavier de Figueiredo. O escritor João Melo, num artigo publicado este mês no “África 21”, corrobora a situação: “Os ministérios, por exemplo, apenas têm recebido, praticamente, verbas para salários, estando sem capacidade para honrarem os compromissos que mantiveram com as empresas, depois dos cortes do início do ano. Sendo o Estado o maior cliente do país, imagine-se o efeito que isso tem. Em todo o país, há empresas a despedir pessoal e até a fechar. Não há diversificação económica que aguente.” Os resultados também se sentem nas relações com Portugal. O “Jornal de Notícias” dava conta, no final de junho, de que a queda do preço do petróleo e o travão no sector da construção naquele país africano já levaram ao regresso de mais de 3000 portugueses ao nosso país. E o presidente do Sindicato da Construção, Albano Ribeiro, admite que “muitos mais trabalhadores se seguirão”. Em abril, o sindicato já tinha avisado que havia milhares de trabalhadores em Angola com salários em atraso. “As empresas não têm condições para se manterem e os trabalhadores estão a regressar”, disse.
João Melo junta outro exemplo e denuncia que ainda recentemente o ministro da Saúde conseguiu impedir, in extremis, a saída em bloco de vários diretores de hospitais que queriam demitir-se por causa da escassez de medicamentos. Mas depois estranha que isto esteja a acontecer, quando o preço do petróleo até está acima dos 40 dólares estimados no Orçamento revisto. “A imagem que está a ser passada é a de um Estado aparentemente falido. Ora, o Estado angolano não está falido. O país tem dinheiro. Onde está?” Ler +

sábado, 2 de janeiro de 2016

Controlo de redes sociais: "Presidente angolano será derrotado nessa batalha"

O chefe de Estado angolano defende que é preciso legislação para regular as redes sociais. O ativista Rafael Marques acusa-o de tentar "controlar desesperadamente" o último reduto da luta pela liberdade de expressão. 

Segundo o chefe de Estado angolano, é preciso "alterar o atual clima moral que predomina nas relações sociais, influenciadas pelo impacto das novas tecnologias de informação e comunicação".
Na sua mensagem de Ano Novo, José Eduardo dos Santos defendeu que Angola "deve dispor o mais depressa possível de legislação adequada para orientar a sociedade e as instituições" no uso das redes sociais, de forma a "reprovar ou prevenir" práticas "inaceitáveis".
A intenção foi criticada pelo ativista angolano dos direitos humanos Rafael Marques, que acusa o Presidente de tentar "controlar desesperadamente" o último reduto da luta pela liberdade de expressão e pelo fim dos seus 36 anos de poder. A DW África conversou com o jornalista sobre o assunto.

DW África: Um dos dilemas que a maioria dos países enfrenta atualmente é a falta de legislação que reja as redes sociais. Como Angola pode criar essa legislação sem que a sociedade se sinta ainda mais censurada?

Rafael Marques (RM): Primeiro, é preciso ter em atenção que em 2011 a Assembleia Nacional aprovou, na generalidade, a proposta de Lei de Combate à Criminalidade no Domínio das Tecnologias de Informação e Comunicação e dos Serviços da Sociedade de Informação. E por que é que essa lei não entrou logo em vigor e ainda não foi aprovada na especialidade? Porque o tipo de medidas que procura introduzir para o controlo da internet são um atentado à liberdade de expressão e são impraticáveis. Por exemplo, inviabiliza partilhas e proíbe que alguém publique uma fotografia no Facebook sem autorização da pessoa que esteja na fotografia. Todas essas medidas têm um objetivo central: os textos não podem mencionar uma terceira pessoa sem autorização expressa por escrito dessa pessoa.
Essa proposta de lei exclui os dirigentes, as instituições do Estado e os órgãos de informação estatais do seu cumprimento. Colocam-se acima da lei. Isso permite que qualquer pessoa que, por exemplo, publique uma fotografia do Presidente na internet possa ser processada por isso se o Presidente não gostar. A lei diz claramente que basta que o ofendido accione a queixa para que um indivíduo possa ser condenado de dois a oito anos de prisão. Obviamente, com o controlo da Procuradoria-Geral da República pelo Presidente da República, só ele e a sua família e os dirigentes do MPLA (Movimento pela Libertação de Angola, no poder) teriam condições de apresentar queixa contra os cidadãos que os criticam nas redes sociais. Até porque a lei já é clara: exclui os órgãos de informação do Estado e as instituições do Estado do seu cumprimento.

DW África: Este projeto sobrepõe-se a outras leis já existentes, como a Lei de Imprensa e até a Constituição? 

Rafael Marques (RM): Este projeto viola claramente a Constituição e a Lei de Imprensa. É uma medida desesperada do Presidente em controlar aquele que é o último reduto na luta pela liberdade de expressão e, sobretudo, na luta pelo fim do seu poder de 36 anos. Na internet, de facto, o Presidente é uma figura extremamente impopular nas redes sociais.
Apesar de o MPLA ter feito um grande esforço e de ter feito investimentos no sentido de controlar e de ter muitas páginas no Facebook, tem também grande acesso nas redes sociais, contratou muitas empresas. E tem aquilo que nós chamamos a "brigada online", para fazer comentários favoráveis ao regime. Tem ainda as páginas da comunicação social do Estado na internet.
Mas não há como ganhar popularidade, nem o próprio MPLA. De modo que se esta liberdade da internet se transpuser no seio da sociedade, no quotidiano, então o Presidente terá os seus dias contados. Daí esse desespero, esta obsessão de tentar controlar as redes sociais e a internet da mesma forma que controla o Jornal de Angola e outros órgãos de informação do Estado e de uma maneira geral a imprensa privada que está sob controlo de indivíduos ligados ao poder.

DW África: O facto de esta proposta de lei não prever procedimento criminal para casos concretos não abre também espaço para arbitrariedades?

Rafael Marques (RM): A forma como a própria proposta de lei é apresentada é para permitir que os órgãos judiciais possam processar qualquer crítico sem necessidade de recurso a provas ou a grandes tratados de jurisprudência. Bastará que tenham vontade de condenar alguém.

DW África: Caso realmente seja limitada a liberdade de expressão nas redes sociais em Angola, que outras alternativas restariam ao cidadão, que já se queixa de falta de liberdade de manifestação, direitos previstos pela Constituição?

Rafael Marques (RM): É aqui que traçamos a grande linha de batalha e dizemos ao Presidente que será derrotado nessa batalha, porque há um ponto em que a ditadura não pode avançar mais. Já retirou tudo aos cidadãos, explora-os, rouba-os, mata-os, ignora o seu dever de servir o povo e ainda quer tirar a internet. Então, aí diremos ao Presidente: vamos combatê-lo também nas redes sociais e essa será a batalha definitiva. O Presidente sairá derrotado desse seu esforço, porque não vai conseguir censurar a internet como quer. Estaremos aqui para dar-lhe luta. E é assim que defendermos este espaço de liberdade. Deutsche Welle

Estudo aponta consequências do empobrecimento da classe média angolana

A pesquisadora Rebecca Engebretsen, da Universidade de Oxford, considera que se a classe média em Angola continuar a perder poder de compra isso pode desencadear perturbações sociais e políticas como aconteceu em vários países na Primavera Árabe.

Londres - A pesquisadora Rebecca Engebretsen, da Universidade de Oxford, considera que se a classe média em Angola continuar a perder poder de compra isso pode desencadear perturbações sociais e políticas como aconteceu em vários países na Primavera Árabe.
"Um decréscimo no poder de compra do grupo que detém o poder em Luanda pode desencadear perturbações sociais e políticas, como aconteceu noutros países durante a Primavera Árabe", escreveu a investigadora Rebecca Engebretsen numa análise publicada na AllAfrica Global Media, citada pela agência Lusa.
Para esta doutoranda em Oxford, o Governo angolano, assim com a classe dirigente, "no ambiente de preços baixos, enfrenta um dilema delicado", que consiste em apostar na diversificação económica a sério, mas isso implica que a classe média e a elite dirigente perca os benefícios da oligarquia que foi criando.
"Por um lado, os decisores políticos estão cientes que defender o valor da moeda é cada vez mais oneroso, e a sua capacidade para o fazerem está a diminuir porque as reservas externas continuam a ser usadas", escreve Rebecca Engebretsen, acrescentando que, "ao mesmo tempo, estão também cientes que a desvalorização pode ser boa para promover outras partes da economia que há muito sofrem de falta de competitividade".
Aumentar a atratividade dos setores não petrolíferos "é crucial se Angola quiser acabar com os ciclos de crescimento-empobrecimento" que surgem da exposição excessiva à variação dos preços do petróleo.
Aumentar a diversificação económica tem, no entanto, desvantagens: "Por outro lado, aumentar a competição pode colocar em perigo os interesses da classe dirigente que pode perder as suas posições oligárquicas, até porque se as importações se tornarem mais caras, a classe média cada vez maior de Angola pode ter dificuldade de acesso aos bens internacionais que se habituou a ter, e os decisores políticos em Luanda estão bem cientes que uma diminuição no poder de compra do grupo que detém o poder pode desencadear perturbações sociais e políticas, como aconteceu noutros países durante a Primavera Árabe".
Para já, as grandes reservas internacionais têm permitido a 'quadratura do círculo', estando a ser usadas "pelo Governo para defender o valor do kwanza e apoiar as necessidades de importação em vez de qualquer transformação real da economia"
Só que, conclui Rebecca Engebretsen, "se os preços do petróleo continuarem baixos, é questionável quanto tempo este modelo pode realisticamente ser mantido".
Na análise, a investigadora lembra que entre 2002 e 2014 Angola recebeu 468 mil milhões de dólares em receitas do petróleo, que vale 95% das exportações e mais de 75% das receitas fiscais.
A queda do preço do petróleo fez descer as receitas fiscais em mais de 50% face ao ano passado e cortou todas as previsões de crescimento da economia para 2016, que não deve passar dos 4%. África 21