José Agualusa é um escritor a favor do derrube de fronteiras no campo
literário e ao mesmo tempo defende a preservação de identidades. Para o
escritor angolano a condição humana explica esse paradoxo.
Aqui na Alemanha, na cidade de Frankfurt, José Eduardo Agualusa falou à
DW África sobre a sua escrita e da literatura em Angola, incluindo as
desigualdades gritantes relativamente a projeção dos escritores. Também
manifestou a sua preocupação em relação à ausência de incentivos a
leitura no seu país, principalmente no seio das crianças.
DW África: Na sua escrita costuma estabelecer pontes entre
Angola e outros países que também falam português, principalmente com
Brasil e Portugal. Não acredita em algo que se possa chamar de
angolanidade?
José Agualusa (JA): Acredito que existem tantas formas
de ser angolano quanto há angolanos, mais de 20 milhões de ser angolano e
todas elas são legítimas. No meu caso essas pontes ocorrem, por um
lado, porque eu próprio vivo nesse trânsito, e por outro, enquanto
escritor interessa-me trabalhar não só com o português de Angola, mas
com o português global, com todas as suas variantes. Acho que a minha
língua é essa língua mais ampla, não é uma língua restrita na geografia.
DW África: A tendência hoje é de se universalizar cada vez mais
coisas, valores, como a literatura, quebrarem fronteiras e de se
agregarem fatores também mais inclusivos. Vê inconvenientes no que diz
respeito a literatura?
JA: Não, pelo contrário. Não sei se será uma nova
tendência, acho que a literatura, de alguma maneira, sempre fez isso,
mesmo que ela parta de uma realidade local. Se um livro for realmente
bom, esse livro vai tocar pessoas em todo o mundo, sobretudo porque as
pessoas não são tão diferentes assim, as suas aspirações, os seus
anseios, os seus medos são iguais em toda a parte. Não são as fronteiras
políticas que as fazem diferentes.
DW África: E como vê o fator identidade neste contexto?
JA: Acho que é possível, por um lado, preservar uma
cultura, uma identidade cultural, e ao mesmo tempo exaltar essa
comunhão. Todos nós somos humanos, acho que todo o Homem tem direito a
todo o mundo, não deve haver fronteiras, qualquer pessoa tem direito a
transitar pelo mundo, sou pela abolição definitiva das fronteiras, mas
ao mesmo tempo sou também a favor das identidades locais. Acho que é
perfeitamente possível preservar uma identidade e fazer com que esse
grupo cultural se expanda na sua cultura e, simultaneamente, exaltar
essa humanidade global.
DW África: O Agualusa escreve também para crianças. Em Angola há
um incentivo a leitura no contexto familiar ou por parte do Governo
através do sistema de educação?
JA: Acho que infelizmente ao longo desses anos todos,
desde a independência, se tem apostado muito pouco na educação e na
cultura. A guerra já terminou há tantos anos e o orçamento para a defesa
ainda é muito superior que o orçamento para a educação. Eu só acredito
que o Governo esteja realmente interessado em alfabetizar a população e
as nossas crianças quando essa situação se alterar. Acho que o orçamento
de um Estado, de um país como Angola, deve investir em primeiro lugar
na educação básica, média e na saúde das populações. Estas deviam ser as
prioridades, nem sequer o ensino superior, este vem mais tarde. E em
determinada altura gastava-se mais com o ensino superior do que com o
básico. Precisamos é de formar professores, devem ser bem formados,
precisam de ganhar bem, precisam de condições para o seu trabalho, tem
de haver escolas em condições enquanto tivermos crianças que estudem,
mas não têm se quer onde se sentar. E todos outros dramas que se vive em
Angola na educação é difícl o país avançar.
DW África: Os escritores angolanos com maior visibilidade a
nível internacional e mais premiados são principalmente brancos e
mestiços. Este facto é motivo de descontentamente no meio literário do
seu país?
JA: Não sei se há descontentamento, mas acho que é algo
que deve ser analisado, compreendido e percebido. Acho que existem
razões que explicam isso, há que investir na educação, na cultura para
que isso se altere, porque é evidente que isso é sinal de que alguma
coisa vai mal. Num país onde a esmagadora maioria das pessoas é negra, o
facto de você ter escritores com mais projeção internacional, com
melhor crítica, etc, serem escritores de origem europeia é sinal de que
algo vai mal em todo o sistema do país. Em primeiro lugar tem a ver com a
educação, com a falta de investimento. O que acontece é que esses
escritores são privilegiados no sentido de terem crescido dentro da
língua portuguesa, por um lado, e por outro, com algum poder económico e
tiveram a possibilidade de estudar. Foi o meu caso, eu cresci no meio
de livros. Acho que para formar um escritor, em primeiro lugar, é
preciso formar leitores, um escritor antes de mais é um grande leitor.
Então, se você não cresce no meio de livros dificilmente você se torna
leitor, ainda que você tenha um potencial grande, ainda que tenha muitas
histórias para contar. Uma coisa que sempre me magoou muito em Angola é
perceber que há tantas histórias para serem contadas, tanta gente
extraordinária, inclusive grandes contadores de histórias, mas não lhes
foi dado instrumentos para transportar essa sua capacidade para o livro.
Portanto, a primeira coisa a ser feita é esse investimento na cultura e
na educação. Haverá também uma razão mais psicológica que seria
interessante explorar, acho que pessoas em situação minoritária num país
qualquer têm muitas vezes essa necessidade de afirmação identitária
através das artes. Daí que você encontre, por exemplo nos Estados
Unidos, tantos escritores de origem judia ou gays, pessoas que estão em
situação minoritária e que tendem a afirmar-se através da arte. E muita
vezes tem a ver com essa afirmação identitária, vejo isso por mim, pelo
Mia Couto, pelo Luandino Vieira... Você percebe que há escritores que
utilizam a literatura, por um lado, como forma de entender e pensar a
sua própria inserção no país, de afirmação identitária, e de serem
aceites pelos outros. Eu sei que hoje isso acontece comigo, eu em Angola
não preciso muitas vezes de explicar quem sou, as pessoas conhecem-me
pelos livros. Se eu fosse muito bom a jogar futebol, mas sou um
desastre, teria feito isso através do futebol, mas nunca fui bom
jogador.
DW África: África tem esta veia da oralidade muito mais forte do
que a escrita. Será este um factor que inibe os africanos de
escreverem?
JA: Não sei se há descontentamento, mas acho que é algo
que deve ser analisado, compreendido e percebido. Acho que existem
razões que explicam isso, há que investir na educação, na cultura para
que isso se altere, porque é evidente que isso é sinal de que alguma
coisa vai mal. Num país onde a esmagadora maioria das pessoas é negra, o
facto de você ter escritores com mais projeção internacional, com
melhor crítica, etc, serem escritores de origem europeia é sinal de que
algo vai mal em todo o sistema do país. Em primeiro lugar tem a ver com a
educação, com a falta de investimento. O que acontece é que esses
escritores são privilegiados no sentido de terem crescido dentro da
língua portuguesa, por um lado, e por outro, com algum poder económico e
tiveram a possibilidade de estudar. Foi o meu caso, eu cresci no meio
de livros. Acho que para formar um escritor, em primeiro lugar, é
preciso formar leitores, um escritor antes de mais é um grande leitor.
Então, se você não cresce no meio de livros dificilmente você se torna
leitor, ainda que você tenha um potencial grande, ainda que tenha muitas
histórias para contar. Uma coisa que sempre me magoou muito em Angola é
perceber que há tantas histórias para serem contadas, tanta gente
extraordinária, inclusive grandes contadores de histórias, mas não lhes
foi dado instrumentos para transportar essa sua capacidade para o livro.
Portanto, a primeira coisa a ser feita é esse investimento na cultura e
na educação. Haverá também uma razão mais psicológica que seria
interessante explorar, acho que pessoas em situação minoritária num país
qualquer têm muitas vezes essa necessidade de afirmação identitária
através das artes. Daí que você encontre, por exemplo nos Estados
Unidos, tantos escritores de origem judia ou gays, pessoas que estão em
situação minoritária e que tendem a afirmar-se através da arte. E muita
vezes tem a ver com essa afirmação identitária, vejo isso por mim, pelo
Mia Couto, pelo Luandino Vieira... Você percebe que há escritores que
utilizam a literatura, por um lado, como forma de entender e pensar a
sua própria inserção no país, de afirmação identitária, e de serem
aceites pelos outros. Eu sei que hoje isso acontece comigo, eu em Angola
não preciso muitas vezes de explicar quem sou, as pessoas conhecem-me
pelos livros. Se eu fosse muito bom a jogar futebol, mas sou um
desastre, teria feito isso através do futebol, mas nunca fui bom
jogador.
JA: Como eu disse antes, tem a ver com a educação,
porque a arte de contar histórias e as histórias estão lá, somos um país
produtor de histórias, devido a história conflituosas dos últimos anos,
a movimentação de pessoas, num país com pessoas de proveniências muito
diversas culturalmente, etc, portanto, tudo isso são geradores de
histórias. Angola é um país cheio de histórias, fabuloso para qualquer
escritor, porque você sai a rua e as pessoas contam histórias incríveis.
E também há essa arte que você falou de saber contar, porque realmente
há uma arte de saber contar. Cresci um pouco nesse meio, lembro-me
disso, de ter amigos e colegas que eram grandes contadores de histórias.
Agora, uma coisa é você saber contar uma história e outra é saber
transferir, transportar isso para o papel. Para isso é necessário uma
técnica, e essa técnica ensina-se na escola, então, passa por aí. É a
diferença quando você compara com a música, em Angola, Cabo Verde... a
maior parte dos países africanos são grandes produtores de música,
enfim, a música hoje no munddo é essencialmente de origem africana.
Porque há uma cultura musical não quer dizer que sejam geneticamente
programadas para saber dançar, não é isso, é porque há uma cultura
musical, as pessoas nascem dentro de uma cultura musical. Você vai a
Cabo Verde praticamente todo o mundo sabe tocar um instrumento, mesmo em
Luanda há essa tradição de música, isso passa de pais para filhos,
aprendem a cantar e a dançar, mas ninguém as ensina a escrever, ninguém
lhes dão instrumentos para que possam escrever. Essencialmente é isso,
isto vai demorar muito tempo, porque para formar um escritor são
precisos muitos anos, o que é preciso, primeiro, é formar leitores. É
preciso formar milhões de leitores para gerar um leitor, é um trabalho
muito grande.
DW África: Quer nos contar um pocuo sobre o seu processo criativo?
JA: Eu escrevo quando posso, porque viajo muito.
Escrevo nos intervalos, quando posso, nos aeroportos, nos aviões, na
viagem é maravilhoso escrever porque você levanta a mão e pede um café e
vem logo alguém trazer, se eu fizer isso em minha casa ninguém me vem
trazer café. Então, os aviões são maravilhosos para escrever. Eu tenho
um processo, talvez um pouco estranho, eu sonho muito e uso muito os
sonhos, histórias muitas vezes surgem quando estou a sonhar e às vezes
não sei como vai terminar um romance, uma história, deito-me e sonho com
o fim do romance. Então, posso dizer que mesmo a dormir estou a
trabalhar, dormir faz parte da minha prática enquanto escritor.
DW África: Tem uma ligação com a Alemanha, passou um tempo em
Berlim com uma bolsa da DAAD e também as suas obras tem grande aceitação
aqui. Quer nos falar um pouco dessa sua relação com a Alemanha?
JA: Tive esse convite, acho que é uma bolsa muito boa, é
uma das melhores bolsas de criação literária que existe no mundo. E foi
um período muito bom para mim e guardo muito boas recordações. Por um
lado trabalhava muito, estava muito frio lá fora, mas também fiz bons
amigos, descobri um universo lusófono em Berlim, brasileiros,
angolanos... muitos angolanos na época, e alemães que falavam português
porque tinham estado em Angola, no Brasil... então para mim foi uma
surpresa essa descoberta. Foram anos muito bons, fiz amizades com
escritores latino-americanos que estavam na casa na época, foi um bom
período. Eu sou completamente a favor desse tipo de residências
literárias.
Deutsche Welle