Estima-se
que 261 mil agricultores sejam afetados pela estiagem, prevendo-se que
as chuvas continuem abaixo do normal no sul e centro do país.
Maputo - Decorre desde esta segunda-feira em
Moçambique uma avaliação das necessidades causadas pela seca. O estudo
terá o apoio das Nações Unidas. O Instituto Nacional de Gestão de
Calamidades (Ingc) vai analisar o impacto da seca nas províncias
centrais de Sofala e Tete.
Um relatório do Gabinete da Coordenadora Residente das Nações Unidas
em Moçambique indica que 380 mil pessoas precisam de assistência devido à
seca. O número inclui residentes das províncias de Maputo, Gaza e
Inhambane, no sul.
Na pior das hipóteses 1,8 milhão de pessoas podem precisar de
assistência no período compreendido entre março e a próxima estação das
chuvas. A avaliação é do Secretariado Técnico de Segurança Alimentar e
Nutrição, Setsan.
O Plano de Contingência 2015/2016 está orçado em cerca de US$ 12,9
milhões para responder às necessidades imediatas que possam surgir
devido a inundações, secas e ventos fortes.
Várias agências das Nações Unidas em Moçambique contribuíram com US$
750 mil para responder aos efeitos da seca nas províncias de Maputo,
Inhambane, Gaza e Tete.
O Fundo da ONU para a Infância, Unicef, também apoiou ao governo com
US$ 300 mil para as áreas de saneamento e nutrição nas províncias de
Maputo, Gaza e Inhambane.
Entretanto, o Ministério da Economia e Finanças também libertou cerca
de US$ 4,9 milhões para responder às necessidades causadas pelo período
seco.
Estima-se que 261 mil agricultores sejam afetados pela estiagem,
prevendo-se que chuvas continuem abaixo do normal no sul e centro do
país. África 21
segunda-feira, 7 de março de 2016
Moçambique “Quantos milhões morreram na saga do colonialismo?”
Em Moçambique as opiniões sobre o racismo e as marcas do tempo colonial
podem mudar de acordo com a geração, de acordo com quem viveu o
apartheid e quem nasceu depois da independência. “Podemos dizer que
fomos colonizados por um país periférico — e isso dá uma mentalidade
periférica”
Na mesa de jantar da família Quelhas, há pratos de várias origens: bebinca (uma sobremesa goesa), doce de mandioca e coco e matapa (pratos típicos de Moçambique), chamuças (especialidade indiana). Há também mandioca frita, beringela, mangas e papaias.
Celisa Quelhas (n. 1953) é auditora e nasceu em Goa; o marido, António (n. 1947), é engenheiro e português; os filhos são moçambicanos e a nora Tasia também.
Na sala de estar há vários aperitivos, uma taça com desenhos do pintor moçambicano Malangatana destaca-se pelas suas cores vivas. “Fazemos uma grande mistura de pratos goeses, portugueses, moçambicanos”, explica Celisa, apontando para a mesa.
Normalmente, a reunião familiar dá-se em sua casa, ao domingo. Porém, hoje, uma noite de Maio, o encontro é em casa do filho, Nuno (n. 1978) gestor de uma empresa de investimento e pai de uma criança de meses.
É uma moradia que fica no Bairro do Triunfo, na Costa do Sol, um pouco a seguir ao famoso Mercado do Peixe, onde moçambicanos e estrangeiros comem peixe e marisco fresco. Situada na zona Sul, é considerada uma das zonas abastadas da cidade. É frequente ver seguranças à porta das casas que se seguem umas às outras em linha recta, a de Nuno Quelhas não é excepção.
Celisa e os irmãos nasceram em Goa, de onde saíram em 1962, depois de o território ser anexado pela Índia. Os pais eram enfermeiros, foram para Portugal e depois para Moçambique. A seguir à independência, a 25 de Junho de 1975, as famílias de Celisa e de António regressaram a Portugal mas os dois acabariam por ficar e casar um par de anos depois de se conhecerem, em 1973.
“A família do meu pai já é constituída por uma diversidade cultural grande, tem ascendência judaica e outras”, descreve Nuno a olhar para o pai. “Em Moçambique, encontra-se muita gente com esta influência multirracial, vem do tempo antes de Portugal chegar a Moçambique. A componente árabe já tinha prevalecido.”
Em 1973, a população branca de Moçambique era de 190 mil (2,3% da população), segundo um gráfico reproduzido pela investigadora Cláudia Castelo em Passagens para África — o Censo de 1970 indicava um total de 8 milhões de habitantes em Moçambique. Actualmente, 99% da população moçambicana é negra, diz o Censo de 2007, 0,4% de raça mista e 0,6% de outras raças.
Celisa e António nunca sofreram pressão social por serem um casal de diferentes origens, porque em Moçambique “havia muitas famílias mistas” — brancos com negros, brancos de diversas origens com africanos, asiáticos. “Nunca senti racismo e posso até dizer que nunca ouvi falar de raça na minha família. Em minha casa entravam pessoas de todas as classes”, sublinha Celisa. Lembra-se também de, em 1973, olhar para a placa do gabinete onde o pai trabalhava, ver escrito “consulta externa indígena” e perceber “que naquela consulta só havia pessoas negras”.
António Quelhas também nunca sentiu que houvesse diferenciação racial. Pertenceu à tropa local, onde havia “uma mescla de gente africana, goeses, negros, hindus, muçulmanos” e “um chefe que era eu, tinha formação superior”. “Nos empregos, havia alguma discriminação mas eram regras impostas pelo Governo; até certa altura, dizia-se que os brancos que estavam cá eram brancos de segunda.”
Da geração mais velha à mais nova, em casa da família Quelhas, a percepção é que no país há e houve uma harmonia racial. Nuno estudou na África do Sul, Suazilândia, Inglaterra e não hesita em afirmar que “Moçambique é o país mais multirracial” que conhece. “Já vivi em Londres, e existem leis que criam integração racial. Em Moçambique as pessoas convivem sem ter de haver nenhuma regra. Um partido como a Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique], que assumiu o poder depois de 1975, não teria conseguido um governo multirracial se isso não fosse intrínseco. Os países lusófonos são dos que mais miscelânea têm e Moçambique é onde acontece de maneira orgânica”, defende.
Tocam à campainha os amigos de Nuno e Tasia, moçambicanos negros. Vêm jantar, é sexta-feira.
O teatro está fechado mas o director do grupo Gungu, Gilberto Mendes (n. 1966), faz a visita guiada. Ele é uma estrela em Maputo, parando na rua para o cumprimentarem. No edifício, que tem o seu nome, bem no centro da cidade, acontecem também gravações de programas de televisão. Dramaturgo e encenador, autor de mais de 60 espectáculos, teve uma peça, O Julgamento, censurada por retratar um processo de corrupção moçambicano. Já por várias vezes abordou a questão racial nos seus espectáculos.
Uma das peças do Gungu faz a caricatura de uma mulher portuguesa, branca, que consegue, sem ter qualificação profissional para isso, ser contratada para trabalhar num hotel e obter mais uma tão almejada estrela para o estabelecimento. “A melhor maneira de passar exemplos é fazendo exemplos rácicos, não no sentido pejorativo mas de analogia”, explica Gilberto Mendes.
Uma das ideias de abordar a questão racial até surgiu por causa de um amigo português que decidiu viajar de Lisboa a Maputo de carro. A travessia demorou dois anos e quando ele chegou Gilberto Mendes gozou: “Isso é brincadeira de branco. Se fosse um preto a fazer uma viagem dessas, já tinha morrido há muito tempo.” Fez então um espectáculo que pegava “em coisas que, entre aspas, podem ser feitas por uns e não podem ser feitas por outros, que a gente olha e acha que pertencem a uma determinada raça”, explica.
E os espectáculos têm sucesso porque ainda há no inconsciente colectivo moçambicano um preconceito que se traduz em pequenos exemplos como o facto de, “se um negro abrir um restaurante, não ter tanto sucesso quanto se for um branco”, observa. “Se as pessoas não têm a formação para perceber estes clichés, acabam induzidas em erro e a respeitar uns e a não respeitar outros.”
Em 2013, segundo o Observatório da Emigração, havia pouco mais de 24 mil portugueses em Moçambique. É vulgar nas ruas de Maputo ver portugueses, e a imagem que permanece é que a maioria ocupa cargos de chefia.
No parque onde encontramos Calton Cadeado, que fica numa das zonas altas e nobres da cidade, vêem-se meninos com as suas amas, fardadas, a marcar de forma evidente a divisão de classes — algumas das fardas fazem lembrar o imaginário colonial e é, aliás, comum venderem-se nas ruas de Maputo no mercado paralelo. Calton Cadeado é chefe do departamento de Paz e Segurança do Instituto Superior de Relações Internacionais.
Nascido na Beira, tem centrado a sua investigação na população e dá-nos a leitura de alguns discursos sobre a questão racial, como a percepção de que há uma discriminação que privilegia os brancos, que vieram em maior número nos últimos anos por causa das riquezas naturais do país: “Ainda é muito cedo para dizer que os brancos vieram para controlar. Na teoria da conspiração, ninguém tira isso da cabeça dos moçambicanos”, considera. Mas não nota tensão racial em Moçambique — e se existir será nos espaços urbanos como Maputo, até porque as elites negras e brancas se misturam nos mesmos lugares, nos mesmos restaurantes, nos mesmos círculos intelectuais, defende.
Para ele, no discurso sobre as identidades, primeiro aparece a questão da etnia, depois da região e só em último a raça.
Em relação aos portugueses, poderá haver uma desconfiança e o fantasma de que voltaram para recuperar a propriedade perdida, diz — para mais, a ideia de que os portugueses foram obrigados a abandonar o país em 24h e a levar apenas 20 quilos com eles criou o sentimento de perda, sublinha. Calton Cadeado não acha que essa desconfiança seja significativa. Se eram vistos como os maus da fita, os portugueses seriam, mais tarde, “protegidos” pelo discurso insistente de Samora Machel (1933-1986) de que a luta tinha sido contra o sistema — Samora seria, aliás, criticado por ter demasiados brancos no seu governo, lembra.
A relação hoje entre portugueses e moçambicanos não é de igual para igual, há muitos que chegam a ganhar mais do que os nacionais, sobretudo nas empresas multinacionais, diz. “A explicação que arranjo para a diferenciação salarial é que quem financia dita as regras. A outra ideia é que há uma drenagem do capital, que vem e volta para o local de origem” — mas esta última ainda é só uma hipótese de investigação que está a aprofundar. Ler +
Na mesa de jantar da família Quelhas, há pratos de várias origens: bebinca (uma sobremesa goesa), doce de mandioca e coco e matapa (pratos típicos de Moçambique), chamuças (especialidade indiana). Há também mandioca frita, beringela, mangas e papaias.
Celisa Quelhas (n. 1953) é auditora e nasceu em Goa; o marido, António (n. 1947), é engenheiro e português; os filhos são moçambicanos e a nora Tasia também.
Na sala de estar há vários aperitivos, uma taça com desenhos do pintor moçambicano Malangatana destaca-se pelas suas cores vivas. “Fazemos uma grande mistura de pratos goeses, portugueses, moçambicanos”, explica Celisa, apontando para a mesa.
Normalmente, a reunião familiar dá-se em sua casa, ao domingo. Porém, hoje, uma noite de Maio, o encontro é em casa do filho, Nuno (n. 1978) gestor de uma empresa de investimento e pai de uma criança de meses.
É uma moradia que fica no Bairro do Triunfo, na Costa do Sol, um pouco a seguir ao famoso Mercado do Peixe, onde moçambicanos e estrangeiros comem peixe e marisco fresco. Situada na zona Sul, é considerada uma das zonas abastadas da cidade. É frequente ver seguranças à porta das casas que se seguem umas às outras em linha recta, a de Nuno Quelhas não é excepção.
Celisa e os irmãos nasceram em Goa, de onde saíram em 1962, depois de o território ser anexado pela Índia. Os pais eram enfermeiros, foram para Portugal e depois para Moçambique. A seguir à independência, a 25 de Junho de 1975, as famílias de Celisa e de António regressaram a Portugal mas os dois acabariam por ficar e casar um par de anos depois de se conhecerem, em 1973.
“A família do meu pai já é constituída por uma diversidade cultural grande, tem ascendência judaica e outras”, descreve Nuno a olhar para o pai. “Em Moçambique, encontra-se muita gente com esta influência multirracial, vem do tempo antes de Portugal chegar a Moçambique. A componente árabe já tinha prevalecido.”
Em 1973, a população branca de Moçambique era de 190 mil (2,3% da população), segundo um gráfico reproduzido pela investigadora Cláudia Castelo em Passagens para África — o Censo de 1970 indicava um total de 8 milhões de habitantes em Moçambique. Actualmente, 99% da população moçambicana é negra, diz o Censo de 2007, 0,4% de raça mista e 0,6% de outras raças.
Celisa e António nunca sofreram pressão social por serem um casal de diferentes origens, porque em Moçambique “havia muitas famílias mistas” — brancos com negros, brancos de diversas origens com africanos, asiáticos. “Nunca senti racismo e posso até dizer que nunca ouvi falar de raça na minha família. Em minha casa entravam pessoas de todas as classes”, sublinha Celisa. Lembra-se também de, em 1973, olhar para a placa do gabinete onde o pai trabalhava, ver escrito “consulta externa indígena” e perceber “que naquela consulta só havia pessoas negras”.
António Quelhas também nunca sentiu que houvesse diferenciação racial. Pertenceu à tropa local, onde havia “uma mescla de gente africana, goeses, negros, hindus, muçulmanos” e “um chefe que era eu, tinha formação superior”. “Nos empregos, havia alguma discriminação mas eram regras impostas pelo Governo; até certa altura, dizia-se que os brancos que estavam cá eram brancos de segunda.”
Da geração mais velha à mais nova, em casa da família Quelhas, a percepção é que no país há e houve uma harmonia racial. Nuno estudou na África do Sul, Suazilândia, Inglaterra e não hesita em afirmar que “Moçambique é o país mais multirracial” que conhece. “Já vivi em Londres, e existem leis que criam integração racial. Em Moçambique as pessoas convivem sem ter de haver nenhuma regra. Um partido como a Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique], que assumiu o poder depois de 1975, não teria conseguido um governo multirracial se isso não fosse intrínseco. Os países lusófonos são dos que mais miscelânea têm e Moçambique é onde acontece de maneira orgânica”, defende.
Tocam à campainha os amigos de Nuno e Tasia, moçambicanos negros. Vêm jantar, é sexta-feira.
A desconfiança sobre os portugueses
O teatro está fechado mas o director do grupo Gungu, Gilberto Mendes (n. 1966), faz a visita guiada. Ele é uma estrela em Maputo, parando na rua para o cumprimentarem. No edifício, que tem o seu nome, bem no centro da cidade, acontecem também gravações de programas de televisão. Dramaturgo e encenador, autor de mais de 60 espectáculos, teve uma peça, O Julgamento, censurada por retratar um processo de corrupção moçambicano. Já por várias vezes abordou a questão racial nos seus espectáculos.
Uma das peças do Gungu faz a caricatura de uma mulher portuguesa, branca, que consegue, sem ter qualificação profissional para isso, ser contratada para trabalhar num hotel e obter mais uma tão almejada estrela para o estabelecimento. “A melhor maneira de passar exemplos é fazendo exemplos rácicos, não no sentido pejorativo mas de analogia”, explica Gilberto Mendes.
Uma das ideias de abordar a questão racial até surgiu por causa de um amigo português que decidiu viajar de Lisboa a Maputo de carro. A travessia demorou dois anos e quando ele chegou Gilberto Mendes gozou: “Isso é brincadeira de branco. Se fosse um preto a fazer uma viagem dessas, já tinha morrido há muito tempo.” Fez então um espectáculo que pegava “em coisas que, entre aspas, podem ser feitas por uns e não podem ser feitas por outros, que a gente olha e acha que pertencem a uma determinada raça”, explica.
E os espectáculos têm sucesso porque ainda há no inconsciente colectivo moçambicano um preconceito que se traduz em pequenos exemplos como o facto de, “se um negro abrir um restaurante, não ter tanto sucesso quanto se for um branco”, observa. “Se as pessoas não têm a formação para perceber estes clichés, acabam induzidas em erro e a respeitar uns e a não respeitar outros.”
Em 2013, segundo o Observatório da Emigração, havia pouco mais de 24 mil portugueses em Moçambique. É vulgar nas ruas de Maputo ver portugueses, e a imagem que permanece é que a maioria ocupa cargos de chefia.
No parque onde encontramos Calton Cadeado, que fica numa das zonas altas e nobres da cidade, vêem-se meninos com as suas amas, fardadas, a marcar de forma evidente a divisão de classes — algumas das fardas fazem lembrar o imaginário colonial e é, aliás, comum venderem-se nas ruas de Maputo no mercado paralelo. Calton Cadeado é chefe do departamento de Paz e Segurança do Instituto Superior de Relações Internacionais.
Nascido na Beira, tem centrado a sua investigação na população e dá-nos a leitura de alguns discursos sobre a questão racial, como a percepção de que há uma discriminação que privilegia os brancos, que vieram em maior número nos últimos anos por causa das riquezas naturais do país: “Ainda é muito cedo para dizer que os brancos vieram para controlar. Na teoria da conspiração, ninguém tira isso da cabeça dos moçambicanos”, considera. Mas não nota tensão racial em Moçambique — e se existir será nos espaços urbanos como Maputo, até porque as elites negras e brancas se misturam nos mesmos lugares, nos mesmos restaurantes, nos mesmos círculos intelectuais, defende.
Para ele, no discurso sobre as identidades, primeiro aparece a questão da etnia, depois da região e só em último a raça.
Em relação aos portugueses, poderá haver uma desconfiança e o fantasma de que voltaram para recuperar a propriedade perdida, diz — para mais, a ideia de que os portugueses foram obrigados a abandonar o país em 24h e a levar apenas 20 quilos com eles criou o sentimento de perda, sublinha. Calton Cadeado não acha que essa desconfiança seja significativa. Se eram vistos como os maus da fita, os portugueses seriam, mais tarde, “protegidos” pelo discurso insistente de Samora Machel (1933-1986) de que a luta tinha sido contra o sistema — Samora seria, aliás, criticado por ter demasiados brancos no seu governo, lembra.
A relação hoje entre portugueses e moçambicanos não é de igual para igual, há muitos que chegam a ganhar mais do que os nacionais, sobretudo nas empresas multinacionais, diz. “A explicação que arranjo para a diferenciação salarial é que quem financia dita as regras. A outra ideia é que há uma drenagem do capital, que vem e volta para o local de origem” — mas esta última ainda é só uma hipótese de investigação que está a aprofundar. Ler +
domingo, 6 de março de 2016
Dois mortos em ataque contra autocarro em Moçambique
Um ataque de homens armados contra um
autocarro em Honde, província de Manica, centro de Moçambique, provocou,
este sábado, dois mortos e oito feridos.
"Um grupo de cinco a sete bandidos armados disparou contra um machimbombo [autocarro] que levava passageiros de Chimoio para Tete, da companhia transportadora Nagi Investiment. Atingiram com gravidade o motorista, que perdeu os sentidos, largou o volante e entrou pela mata dentro cerca de 200 metros", descreveu em conferência de imprensa o comandante provincial da Polícia da República de Moçambique (PRM) em Manica.
Segundo
Armando Mude, o ataque ocorreu entre as 8.30 e as 9 horas locais contra
um autocarro cheio, com entre 60 e 70 passageiros, no distrito de
Barue, na estrada N7, entre Honde e Chiuala, e um passageiro morreu, ao
qual se juntaria um segundo óbito, o do próprio motorista, que perdeu a
vida no centro de saúde de Catandica."Um grupo de cinco a sete bandidos armados disparou contra um machimbombo [autocarro] que levava passageiros de Chimoio para Tete, da companhia transportadora Nagi Investiment. Atingiram com gravidade o motorista, que perdeu os sentidos, largou o volante e entrou pela mata dentro cerca de 200 metros", descreveu em conferência de imprensa o comandante provincial da Polícia da República de Moçambique (PRM) em Manica.
Oito pessoas ficaram feridas, das quais seis já tiveram alta e duas permanecem hospitalizadas, mas, de acordo com o comandante da polícia, sem gravidade.
Uma testemunha ouvida pela Lusa confirmou o ataque, relatando que o autocarro não travou quando um homem na estrada fez um sinal de paragem e, logo depois, um segundo abriu fogo.
"O ataque foi onde os homens [da Renamo, Resistência Nacional Moçambicana] fizeram um controlo para vasculhar carros. O machimbombo não parou quando fizeram sinal e talvez isso criasse desconfiança para ser atacado", contou um morador, descrevendo que o autocarro se despistou e embateu numa árvore.
Armando Mude diz não ter dúvidas de que o ataque foi realizado por homens armados da Renamo, pelo "modus operandi", e também devido à ameaça do movimento de oposição de assumir o controlo de várias estradas no centro de Moçambique, incluindo a N7.
"São eles, não temos dúvidas quanto a isso", referiu o comandante da PRM, acrescentando que, logo após a emboscada, os atacantes "nem tiveram tempo de revistar o machimbombo ou fazer o saque da bagagem dos passageiros.
Dali, puseram-se em fuga e desapareceram pela montanha acima, relatou.
Armando Mude disse que, após o ataque, a situação ficou calma em Honde, até pela curta proximidade, cerca de dois quilómetros, de efetivos policiais, e decorria hoje à tarde uma operação de perseguição aos suspeitos.
"Há uma perseguição muito forte, as forças de defesa e segurança estão ao encalço, e, neste momento, é provável que estejam nas mãos da polícia muito deles [atacantes]", declarou Mude, assegurando que "um trabalho de fundo vai culminar com o desaparecimento deles naquele troço e vão desistir".
Este ataque acontece um dia depois de o Presidente moçambicano ter dirigido um convite ao líder da Renamo para a retoma do diálogo, pedindo ao maior partido de oposição "máxima urgência" na designação dos seus representantes para preparar um encontro ao mais alto nível.
A carta, segundo a nota da Presidência, decorre da reunião, a 24 de fevereiro, do Conselho Nacional de Defesa e Segurança, que determinou a continuação dos esforços do chefe de Estado para a retoma do diálogo com o líder do maior partido de oposição.
No mesmo dia, em comunicado enviado à Lusa, o gabinete do presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, acusou o Governo de ter mobilizado 4.500 membros das Forças de Defesa e Segurança para uma ofensiva em grande escala nas províncias de Manica e Sofala, centro do país, região de forte implantação do movimento.
Na mesma região de Honde, militares das forças governamentais moçambicanas ficaram feridos na sexta-feira em confrontos com homens armados da Renamo, disseram à Lusa vários moradores.
A Lusa testemunhou ao princípio da tarde a chegada de vários militares feridos ao hospital 1.º de Maio, na cidade de Chimoio, capital provincial de Manica, numa viatura da Unidade de Intervenção Rápida (UIR).
A Polícia em Manica não confirmou nem desmentiu à Lusa estes confrontos. Jornal de Notícias
Quase metade das raparigas moçambicanas casa-se antes dos 18 anos
A pobreza, os
altos índices do analfabetismo e os hábitos culturais são apontados
como as principais causas dos casamentos prematuros
Quarenta
e oito por cento das raparigas moçambicanas casam-se antes dos 18 anos,
uma situação agravada pela ineficiente implementação da legislação,
disse à Lusa a oficial de programa no Fórum da Sociedade Civil para os
Diretos Criança.
"Esta situação é
lastimável e este dado revela que são necessárias medidas urgentes para
combater este mal", defendeu Mwema Uaciquete, apontando a pobreza, os
altos índices do analfabetismo e os hábitos culturais como as principais
causas dos casamentos prematuros em Moçambique.
Nas
zonas mais recônditas, a participação da mulher nos processos
decisórios ainda é um desafio em Moçambique e o Governo tem adotado
políticas de inclusão como forma de responder à situação, facilitando,
por exemplo, o seu acesso à educação.
Mas
os costumes, em muitos casos, tem legitimado os casamentos prematuros,
na medida em que, em algumas províncias, antes mesmo do nascimento, a
rapariga é prometida a um homem por vários motivos, entre os quais o
pagamento de uma dívida ou como preço por serviços prestados por um
médico tradicional.
Para Mwema
Uaciquete, a realidade das zonas mais isoladas demonstra que as
raparigas sem acesso à educação são as mais propensas aos casamentos
prematuros, uma situação que, segundo a ativista, exige do Governo
dinamismo nas políticas de expansão do ensino pelos distritos.
"A situação é muito mais complexa nas zonas rurais", lamentou Mwema
Uaciquete, referindo que, devido à gravidade da situação, organizações
da sociedade civil criaram uma coligação designada CECAP (Coligação para
Eliminação dos Casamentos Prematuros), composta por mais 40
associações.
Os dados avançados à Lusa
pela ativista moçambicana indicam que as províncias de Nampula, Cabo
Delgado, no norte do país, e Manica, no centro, são as mais afetadas
pelo problema, com 62%, 61% e 59% a casarem-se antes dos 18 anos,
respetivamente.
A aprovação, em
dezembro de 2015, da estratégia nacional de prevenção e combate aos
casamentos prematuros constitui um passo na luta contra este problema,
mas, entretanto, alerta Mwema Uaciquete, o Governo precisa garantir a
aplicação efetiva deste mecanismo.
"Nós
precisamos de garantir que efetivamente estas leis que lutam contra os
casamentos prematuros sejam aplicadas", concluiu a ativista moçambicana,
convidando mais organizações da sociedade civil a unirem-se para
combater o problema. Diário de Notícias
quinta-feira, 3 de março de 2016
Produtos mais baratos em Luanda com preços vigiados pelo Governo
Com a crise económica, as prateleiras de muitos supermercados ficaram
vazias e os produtos mais caros. Mas parecem estar a baixar desde que o
Governo começou a vigiar os preços. A DW África fez uma ronda por
Luanda.
Após a descida do preço do petróleo no mercado internacional, passaram a entrar menos divisas no país. Começaram então as dificuldades em importar produtos e alimentos básicos como arroz, feijão ou açúcar começaram a faltar.
Ao mesmo tempo, os preços dispararam. Entre janeiro e dezembro de 2015, os preços na capital, Luanda, subiram mais de 14%, em termos oficiais. Nos últimos meses, alguns produtos, sobretudo de bens alimentares, chegaram mesmo a duplicar de preço.
Em fevereiro, para travar a especulação de preços, o Governo angolano pôs 32 produtos, como arroz, leite, pão ou tarifas de transportes, numa lista de "preços vigiados". Também foram incluídos serviços como táxis, tarifas de passagem aérea, de transporte rodoviário, marítimo e ferroviário, de passageiros e carga.
Algumas semanas depois da implementação desta medida, já se paga menos por alguns bens alimentares como feijão, açúcar, arroz e farinha de milho. Como a DW África constatou em alguns estabelecimentos comerciais de Luanda, um saco de arroz de 25 quilos, pelo qual era preciso pagar 10 mil kwanzas (cerca de 57 euros), custa agora 5500 kwanzas (cerca de 31 euros). E um quilo de feijão passou a custar 800 kwanzas (4,60 euros).
"Os preços estão a baixar", confirma um dos vários populares encontrados à porta dos armazéns. Agora, esperam também que os produtos voltem a ser comercializados nos preços anteriores - como no tempo em que 2500 kwanzas (pouco mais de 14 euros) chegava para comprar 25 quilos de arroz.
Comerciantes punidos
No Huambo, quatro comerciantes supostamente encontrados a especular os preços dos produtos já estão a contas com a justiça, informaram a Direcção Provincial do Comércio e o Serviço de Investigação Criminal. "Já estão em fase de constituição os processos para que paguem as respetivas coimas ao Estado", disse o inspector do Ministério do Comércio naquela província, Diniz Muenho, aconselha a população a denunciar todos os atos de especulação.
O decreto executivo, assinado a 15 de fevereiro pelo ministro das Finanças, Armando Manuel, era aguardado desde 2011 para permitir a fiscalização policial e acabou por surgir numa altura de aumento generalizado dos preços e escassez de alguns produtos.
Durante um debate televisivo com sob tema "O custo de vida em Angola", o empresário angolano Carlos Cunha mostrou-se agastado com a medida tomada pelo Executivo. Disse ainda que o Governo não pode proibir os comerciantes de alterar os preços pelo facto de não serem eles os causadores da inflação no país. "Não me parece salutar nem recomendável este ataque que estão a fazer aos empresários. Não fomos nós que criamos a crise em Angola". Deutsche Welle
Após a descida do preço do petróleo no mercado internacional, passaram a entrar menos divisas no país. Começaram então as dificuldades em importar produtos e alimentos básicos como arroz, feijão ou açúcar começaram a faltar.
Ao mesmo tempo, os preços dispararam. Entre janeiro e dezembro de 2015, os preços na capital, Luanda, subiram mais de 14%, em termos oficiais. Nos últimos meses, alguns produtos, sobretudo de bens alimentares, chegaram mesmo a duplicar de preço.
Em fevereiro, para travar a especulação de preços, o Governo angolano pôs 32 produtos, como arroz, leite, pão ou tarifas de transportes, numa lista de "preços vigiados". Também foram incluídos serviços como táxis, tarifas de passagem aérea, de transporte rodoviário, marítimo e ferroviário, de passageiros e carga.
Algumas semanas depois da implementação desta medida, já se paga menos por alguns bens alimentares como feijão, açúcar, arroz e farinha de milho. Como a DW África constatou em alguns estabelecimentos comerciais de Luanda, um saco de arroz de 25 quilos, pelo qual era preciso pagar 10 mil kwanzas (cerca de 57 euros), custa agora 5500 kwanzas (cerca de 31 euros). E um quilo de feijão passou a custar 800 kwanzas (4,60 euros).
"Os preços estão a baixar", confirma um dos vários populares encontrados à porta dos armazéns. Agora, esperam também que os produtos voltem a ser comercializados nos preços anteriores - como no tempo em que 2500 kwanzas (pouco mais de 14 euros) chegava para comprar 25 quilos de arroz.
Comerciantes punidos
No Huambo, quatro comerciantes supostamente encontrados a especular os preços dos produtos já estão a contas com a justiça, informaram a Direcção Provincial do Comércio e o Serviço de Investigação Criminal. "Já estão em fase de constituição os processos para que paguem as respetivas coimas ao Estado", disse o inspector do Ministério do Comércio naquela província, Diniz Muenho, aconselha a população a denunciar todos os atos de especulação.
O decreto executivo, assinado a 15 de fevereiro pelo ministro das Finanças, Armando Manuel, era aguardado desde 2011 para permitir a fiscalização policial e acabou por surgir numa altura de aumento generalizado dos preços e escassez de alguns produtos.
Durante um debate televisivo com sob tema "O custo de vida em Angola", o empresário angolano Carlos Cunha mostrou-se agastado com a medida tomada pelo Executivo. Disse ainda que o Governo não pode proibir os comerciantes de alterar os preços pelo facto de não serem eles os causadores da inflação no país. "Não me parece salutar nem recomendável este ataque que estão a fazer aos empresários. Não fomos nós que criamos a crise em Angola". Deutsche Welle
quarta-feira, 2 de março de 2016
“Há uma banalização do Estado e das instituições em Angola”
São da geração pós-independência. Estudaram fenómenos como a imigração
ou os sistemas políticos. O angolano formado em Filosofia Paulo Faria é o
segundo dos cinco pensadores de países africanos de expressão
portuguesa entrevistados nesta série.
Fala pausadamente. Viveu fora de Angola durante vários anos, regressou há pouco tempo e dá aulas na Universidade Agostinho Neto. Escolheu um hotel no centro de Luanda para uma conversa que durou mais de uma hora. Natural de Malanje, Paulo C.J. Faria (n.1973) passou pelo seminário diocesano de Luanda, e chegou a fazer votos religiosos. Depois de viver em Moçambique e Portugal, onde fez o curso de Filosofia na Universidade Católica de Lisboa, decidiu, no segundo ano, que já não se sentia vocacionado para a vida religiosa. O também poeta e escritor estudou em Inglaterra, onde fez o mestrado e doutoramento na Universidade de Kent, ficando no Reino Unido durante cerca de dez anos. Cientista político, agora dá aulas nas áreas de Relações Internacionais e Ciência Política. Autor do livro The Post-War Angola Public Sphere, Political Regime and Democracy, onde traça o retrato do país nos últimos 13 anos, Paulo Faria é um crítico do regime.
Comentava que o caos do trânsito em Luanda era simbólico do que se passa em Angola: de que forma?
Luanda foi uma cidade planeada para um máximo de dois milhões de pessoas mas hoje vivem quase cinco milhões. Com um sistema deficitário de transportes públicos, ter um carro torna-se um dever: já imaginou uma casa com quatro pessoas activas, cada uma tem que ter um carro? A questão é a ausência de planificação e um crescimento desmesurado. Devia existir a descentralização dos serviços públicos. Outro aspecto é a falta de inclusão: as pessoas não são consultadas. O centro da decisão é mais impositor do que consultivo. E se não há este processo de consulta vamos viver num contexto de extrema repressão e imposição das vontades. Isto não é nada abonatório e põe em risco a paz. Põe também as pessoas num nível de humilhação moral: vai a casa, vem trabalhar, vai enfrentar engarrafamento, tem que acordar às 4h, chega muito cedo aqui e tem que dormir no carro. É uma humilhação e pressão psicológica muito grandes.
A separação entre a sociedade civil e o Estado em Angola é cosmética, afirma no seu livro. Porquê e como?
Vários autores reflectiram sobre a banalização do Estado e a fragilidade dos estados na África subsariana. Então a dinâmica que temos em Angola é a transferência de um determinado paradigma, de um determinado modo de pensar do poder colonial para as forças pós-coloniais que emergiram. Na perspectiva de Achille Mbembe e de outros que falam do processo de captura do estado para poder dar lugar a grupos dominantes reconstituídos à volta de uma única pessoa, temos um sistema corporificado num indivíduo forte e esse indivíduo forte vai querer construir uma rede, um sistema em que os seus interesses sejam protegidos e acautelados.
O estado tem que ser algo cosmético para eu puder manter-me no poder, exercer poder sobre os media, controlar e aceder aos recursos naturais, controlar o exército e usá-lo até como mecanismo de repressão ou forma de governamentalidade pós-colonial. Este poder precisa de força, de élan e este élan vem dar um processo de cosmética – um estado forte para poder dar lugar a um homem forte.
O que é que Portugal deixou em Angola?
Uma das heranças pesadas é o índice elevado de analfabetismo. Este era um dos grandes desafios, e também objecto de crítica à formação do homem novo [depois da descolonização] – mas quem é o homem novo? O homem novo tem que basear a sua fé na ciência, no marxismo científico que exclui a religião e outras formas que sejam alheias à ciência. O MPLA era constituído por elementos que tiveram a sua influência católica, o próprio Agostinho Neto pertencia à Igreja Metodista. A matriz religiosa esteve sempre na génese da constituição deste movimento, então a adopção de uma ideologia de forma acrítica vai fazer com que a forma de lidar com esta herança pesada da iliteracia seja mais desastrosa porque: que modelos de escolas vamos ter? Vamos ter uma escola que vai formar o homem novo, mas quem é o homem novo? À luz e imagem de quem? De Lenine, de Estaline. Mas quem são essas entidades para mim? Não me dizem nada. Então enxergou-se um elemento externo como tentativa de ultrapassar uma herança pesada.
Quem poderia ter sido o Lenine, Marx de Angola?
A preferência devia ser dada aos angolanos, os angolanos deviam ter podido escolher: queremos uma democracia liberal, com uma economia de mercado, com um sistema de inclusão social mais inclusivo e aberto, mais participativo – não queremos um sistema marxista e ateu, um sistema nivelador, naquele sistema de Orwell ‘todos os porcos são iguais mas uns são mais que outros’.
Portugal deixou algumas instituições, deixou a ideia de que o estado tem que estar organizado na base de procedimentos formais, tem que ter uma hierarquia e entre os vários órgãos que representam essa hierarquização exercem o poder de forma cooperativa. E depois era a questão de que tem que haver um maior encruzamento entre os sistemas de produção, a economia doméstica e a conexão com a economia global; o país tem de diversificar os mecanismos de produção. Foi aqui onde falhámos. Angola alimentava a metrópole. Mas há coisas que se foi descurando e a agricultura foi altamente prejudicada, até hoje. Isto é uma questão de preferências: a forma de enriquecimento é muito mais imediata ao passo que o desenvolvimento do sector agrícola vai requerer uma maior mecanização da indústria.
Voltando a Angola, diz que o Estado em África é diferente do Estado ocidental e que isso torna difícil aos cientistas políticos ocidentais compreenderem-no. Até que ponto estamos aqui perante o caso de um olhar ocidental que se tenta sobrepor ou por outro lado trata-se da inoperância de alguns estados que utilizam isso como desculpa para impor o seu poder?
Podemos ver nessas duas perspectivas. A questão neste país é das elites. Um dos argumentos de Moeletsi Mbeki, em The architects of poverty, é que as lideranças pós-coloniais em África têm uma configuração homogénea, partilhada. E a homogeneização destas características passa pelo facto que estas elites foram moldadas e são continuadoras de um sistema capitalista colonial.
Isso passa-se aqui?
Isto foi também bem sistematizado pelo Patrick Chabal que dizia que as elites pós coloniais são as mesmas elites do período colonial. Muitas dessas pessoas participavam também em forma de comércio esclavagista. Outro aspecto que ele menciona é a ausência de instituições indígenas capazes de promover a cooperação entre os vários povos.
Como é que isso se vê em Angola hoje e como é que o Paulo Faria olha para isso?
A meu ver existe uma continuação deste modelo e este modelo reflecte-se na banalização dos procedimentos formais ou das instituições do estado que são esvaziadas, tornando-se cosméticas na sua operatividade e dando azo a estratégias informais.
Quais são os mecanismos de banalização do estado?
Há uma determinada estrutura que segue a lógica da prevalência do líder soberano que se reflecte em todas as coisas e todas as coisas reflectem-se nele. O que vai prevalecer é um contexto de extrema imprevisibilidade. Num sistema normal há um sistema formal lógico em que determinada acção pode ser condenada à luz da lei. Num sistema de banalização das instituições o que vamos ter é escolhas e preferências de indivíduos, mesmo que produzam resultados nefastos – corrupção, fuga constante dos dinheiros dos cofres do estado. Ninguém pode justificar que isso acontece por causa da ausência da lei, por causa da ausência de órgãos formais capazes de responsabilizar os detentores do poder; acontece porque nesse sistema a lógica que prevalece é que a vontade de um indivíduo prevalece à vontade das instituições. O outro aspecto relacionado com isto tem a ver com a constelação de opinion makers que participam neste culto. Essas pessoas emitem e são promotoras de ideias e conceitos para justificar a banalização do estado e das instituições em favor da vontade totalitária de uma única pessoa. E assim temos um contexto em que o estado é cosmético, banal, uma concha vazia. Entretanto, temos indivíduos fortes e um esquema arquitectado para acomodar interesses que são premiados e satisfeitos dentro dessa lógica da lealdade: sou leal ao líder soberano, pese embora subverta as instituições, e é desta lealdade que vou ter a satisfação imediata dos meus interesses, não dos interesses nacionais da maioria e do bem comum. As consequências são nefastas para o desenvolvimento de um sistema da esfera pública autónomo independente e racional. Ler +
Fala pausadamente. Viveu fora de Angola durante vários anos, regressou há pouco tempo e dá aulas na Universidade Agostinho Neto. Escolheu um hotel no centro de Luanda para uma conversa que durou mais de uma hora. Natural de Malanje, Paulo C.J. Faria (n.1973) passou pelo seminário diocesano de Luanda, e chegou a fazer votos religiosos. Depois de viver em Moçambique e Portugal, onde fez o curso de Filosofia na Universidade Católica de Lisboa, decidiu, no segundo ano, que já não se sentia vocacionado para a vida religiosa. O também poeta e escritor estudou em Inglaterra, onde fez o mestrado e doutoramento na Universidade de Kent, ficando no Reino Unido durante cerca de dez anos. Cientista político, agora dá aulas nas áreas de Relações Internacionais e Ciência Política. Autor do livro The Post-War Angola Public Sphere, Political Regime and Democracy, onde traça o retrato do país nos últimos 13 anos, Paulo Faria é um crítico do regime.
Comentava que o caos do trânsito em Luanda era simbólico do que se passa em Angola: de que forma?
Luanda foi uma cidade planeada para um máximo de dois milhões de pessoas mas hoje vivem quase cinco milhões. Com um sistema deficitário de transportes públicos, ter um carro torna-se um dever: já imaginou uma casa com quatro pessoas activas, cada uma tem que ter um carro? A questão é a ausência de planificação e um crescimento desmesurado. Devia existir a descentralização dos serviços públicos. Outro aspecto é a falta de inclusão: as pessoas não são consultadas. O centro da decisão é mais impositor do que consultivo. E se não há este processo de consulta vamos viver num contexto de extrema repressão e imposição das vontades. Isto não é nada abonatório e põe em risco a paz. Põe também as pessoas num nível de humilhação moral: vai a casa, vem trabalhar, vai enfrentar engarrafamento, tem que acordar às 4h, chega muito cedo aqui e tem que dormir no carro. É uma humilhação e pressão psicológica muito grandes.
A separação entre a sociedade civil e o Estado em Angola é cosmética, afirma no seu livro. Porquê e como?
Vários autores reflectiram sobre a banalização do Estado e a fragilidade dos estados na África subsariana. Então a dinâmica que temos em Angola é a transferência de um determinado paradigma, de um determinado modo de pensar do poder colonial para as forças pós-coloniais que emergiram. Na perspectiva de Achille Mbembe e de outros que falam do processo de captura do estado para poder dar lugar a grupos dominantes reconstituídos à volta de uma única pessoa, temos um sistema corporificado num indivíduo forte e esse indivíduo forte vai querer construir uma rede, um sistema em que os seus interesses sejam protegidos e acautelados.
O estado tem que ser algo cosmético para eu puder manter-me no poder, exercer poder sobre os media, controlar e aceder aos recursos naturais, controlar o exército e usá-lo até como mecanismo de repressão ou forma de governamentalidade pós-colonial. Este poder precisa de força, de élan e este élan vem dar um processo de cosmética – um estado forte para poder dar lugar a um homem forte.
O que é que Portugal deixou em Angola?
Uma das heranças pesadas é o índice elevado de analfabetismo. Este era um dos grandes desafios, e também objecto de crítica à formação do homem novo [depois da descolonização] – mas quem é o homem novo? O homem novo tem que basear a sua fé na ciência, no marxismo científico que exclui a religião e outras formas que sejam alheias à ciência. O MPLA era constituído por elementos que tiveram a sua influência católica, o próprio Agostinho Neto pertencia à Igreja Metodista. A matriz religiosa esteve sempre na génese da constituição deste movimento, então a adopção de uma ideologia de forma acrítica vai fazer com que a forma de lidar com esta herança pesada da iliteracia seja mais desastrosa porque: que modelos de escolas vamos ter? Vamos ter uma escola que vai formar o homem novo, mas quem é o homem novo? À luz e imagem de quem? De Lenine, de Estaline. Mas quem são essas entidades para mim? Não me dizem nada. Então enxergou-se um elemento externo como tentativa de ultrapassar uma herança pesada.
Quem poderia ter sido o Lenine, Marx de Angola?
A preferência devia ser dada aos angolanos, os angolanos deviam ter podido escolher: queremos uma democracia liberal, com uma economia de mercado, com um sistema de inclusão social mais inclusivo e aberto, mais participativo – não queremos um sistema marxista e ateu, um sistema nivelador, naquele sistema de Orwell ‘todos os porcos são iguais mas uns são mais que outros’.
Portugal deixou algumas instituições, deixou a ideia de que o estado tem que estar organizado na base de procedimentos formais, tem que ter uma hierarquia e entre os vários órgãos que representam essa hierarquização exercem o poder de forma cooperativa. E depois era a questão de que tem que haver um maior encruzamento entre os sistemas de produção, a economia doméstica e a conexão com a economia global; o país tem de diversificar os mecanismos de produção. Foi aqui onde falhámos. Angola alimentava a metrópole. Mas há coisas que se foi descurando e a agricultura foi altamente prejudicada, até hoje. Isto é uma questão de preferências: a forma de enriquecimento é muito mais imediata ao passo que o desenvolvimento do sector agrícola vai requerer uma maior mecanização da indústria.
Voltando a Angola, diz que o Estado em África é diferente do Estado ocidental e que isso torna difícil aos cientistas políticos ocidentais compreenderem-no. Até que ponto estamos aqui perante o caso de um olhar ocidental que se tenta sobrepor ou por outro lado trata-se da inoperância de alguns estados que utilizam isso como desculpa para impor o seu poder?
Podemos ver nessas duas perspectivas. A questão neste país é das elites. Um dos argumentos de Moeletsi Mbeki, em The architects of poverty, é que as lideranças pós-coloniais em África têm uma configuração homogénea, partilhada. E a homogeneização destas características passa pelo facto que estas elites foram moldadas e são continuadoras de um sistema capitalista colonial.
Isso passa-se aqui?
Isto foi também bem sistematizado pelo Patrick Chabal que dizia que as elites pós coloniais são as mesmas elites do período colonial. Muitas dessas pessoas participavam também em forma de comércio esclavagista. Outro aspecto que ele menciona é a ausência de instituições indígenas capazes de promover a cooperação entre os vários povos.
Como é que isso se vê em Angola hoje e como é que o Paulo Faria olha para isso?
A meu ver existe uma continuação deste modelo e este modelo reflecte-se na banalização dos procedimentos formais ou das instituições do estado que são esvaziadas, tornando-se cosméticas na sua operatividade e dando azo a estratégias informais.
Quais são os mecanismos de banalização do estado?
Há uma determinada estrutura que segue a lógica da prevalência do líder soberano que se reflecte em todas as coisas e todas as coisas reflectem-se nele. O que vai prevalecer é um contexto de extrema imprevisibilidade. Num sistema normal há um sistema formal lógico em que determinada acção pode ser condenada à luz da lei. Num sistema de banalização das instituições o que vamos ter é escolhas e preferências de indivíduos, mesmo que produzam resultados nefastos – corrupção, fuga constante dos dinheiros dos cofres do estado. Ninguém pode justificar que isso acontece por causa da ausência da lei, por causa da ausência de órgãos formais capazes de responsabilizar os detentores do poder; acontece porque nesse sistema a lógica que prevalece é que a vontade de um indivíduo prevalece à vontade das instituições. O outro aspecto relacionado com isto tem a ver com a constelação de opinion makers que participam neste culto. Essas pessoas emitem e são promotoras de ideias e conceitos para justificar a banalização do estado e das instituições em favor da vontade totalitária de uma única pessoa. E assim temos um contexto em que o estado é cosmético, banal, uma concha vazia. Entretanto, temos indivíduos fortes e um esquema arquitectado para acomodar interesses que são premiados e satisfeitos dentro dessa lógica da lealdade: sou leal ao líder soberano, pese embora subverta as instituições, e é desta lealdade que vou ter a satisfação imediata dos meus interesses, não dos interesses nacionais da maioria e do bem comum. As consequências são nefastas para o desenvolvimento de um sistema da esfera pública autónomo independente e racional. Ler +
International Crisis Group coloca Moçambique em "alerta de risco de conflito"
Organização International Crisis Group colocou Moçambique na lista de
países ou regiões em "alerta de risco de conflito", após a situação
política e militar se ter agravado em fevereiro com registo de vários
incidentes.
A organização International Crisis Group colocou Moçambique na lista de países ou regiões em "alerta de risco de conflito", após a situação política e militar se ter agravado em fevereiro com registo de vários incidentes.
Segundo o relatório mensal da International Crisis Group (ICG), com sede em Bruxelas, Moçambique figura ao lado do Afeganistão, Chade, Somália, Turquia, Venezuela e Zimbabué, bem como a região da península da Coreia.
Para a ICG, os acontecimentos ao longo de fevereiro "justificaram" o agravamento da situação, que começou logo no início do mês, quando a Renamo, oposição, rejeitou conversações com o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi.
As razões da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), partido que reclama vitória em seis províncias do centro e norte do país nas eleições de 2015, prendem-se com a ausência de garantias de segurança para o respetivo líder, Afonso Dhlakama.
A 8 desse mês, sustenta o ICG, a RENAMO bloqueou estradas na província de Sofala (litoral/centro), tendo atacado alguns veículos civis, provocando vários mortos e feridos, o que levou as forças de segurança moçambicanas a retomar as escoltas armadas ao longo de um troço de cerca de 100 quilómetros da Estrada Nacional 1, na mesma região.
A organização não-governamental, que promove a prevenção e a resolução de conflitos letais, adianta também que elementos afetos à RENAMO abateram a tiro Manecas da Silva, juiz e secretário da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO, no poder) em Sofala.
Refugiados moçambicanos no vizinho Malawi
Por outro lado, a organização International Crisis Group destaca ainda as operações militares para desarmar "militantes" da RENAMO na província de Tete, que provocaram um êxodo de refugiados para o vizinho Malawi, estimados em cerca de 6.000, com a existência de vários pedidos para investigar queixas de alegadas execuções e abusos sexuais por parte das forças de segurança.
As análises mensais da ICG têm por base as alterações políticas e/ou militares internas de cada país, não havendo a intenção de fazer comparações com outros Estados.
O "alerta de risco de conflito" é atribuído a um país onde a violência tem ocorrido e que se espera que continue no mês seguinte. O indicador é definido apenas quando se regista e receia uma nova ou uma significativa escalada de violência.
ICG existe desde 1995
A ONG International Crisis Group foi fundada em 1995 por um coletivo de personalidades que lamenta o fracasso da comunidade internacional em antecipar e responder eficazmente às tragédias ocorridas no início da década de 1990 na Somália, Ruanda e Bósnia.
Entre os fundadores contam-se Morton Abramowitz, antigo embaixador dos Estados Unidos na Turquia e Tailândia e, depois, presidente da instituição Legado de Carnegie para a Paz Internacional, e Mark Malloch-Brown, antigo presidente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e, mais tarde, secretário-geral adjunto da ONU e ministro no Reino Unido.
Segundo os fundadores, a ideia foi criar uma nova organização com funcionários altamente profissionais, "agindo como olhos e ouvidos do mundo", para analisar e prevenir conflitos e com poder internacional suficiente para conseguir mobilizar a comunidade internacional nos diferentes processos.
Atualmente, a International Crisis Group é reconhecida como líder mundial de fontes de informação e análises, bem como conselheira de políticas de prevenção e resolução de conflitos letais. Deutsche Welle
A organização International Crisis Group colocou Moçambique na lista de países ou regiões em "alerta de risco de conflito", após a situação política e militar se ter agravado em fevereiro com registo de vários incidentes.
Segundo o relatório mensal da International Crisis Group (ICG), com sede em Bruxelas, Moçambique figura ao lado do Afeganistão, Chade, Somália, Turquia, Venezuela e Zimbabué, bem como a região da península da Coreia.
Para a ICG, os acontecimentos ao longo de fevereiro "justificaram" o agravamento da situação, que começou logo no início do mês, quando a Renamo, oposição, rejeitou conversações com o Presidente moçambicano, Filipe Nyusi.
As razões da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), partido que reclama vitória em seis províncias do centro e norte do país nas eleições de 2015, prendem-se com a ausência de garantias de segurança para o respetivo líder, Afonso Dhlakama.
A 8 desse mês, sustenta o ICG, a RENAMO bloqueou estradas na província de Sofala (litoral/centro), tendo atacado alguns veículos civis, provocando vários mortos e feridos, o que levou as forças de segurança moçambicanas a retomar as escoltas armadas ao longo de um troço de cerca de 100 quilómetros da Estrada Nacional 1, na mesma região.
A organização não-governamental, que promove a prevenção e a resolução de conflitos letais, adianta também que elementos afetos à RENAMO abateram a tiro Manecas da Silva, juiz e secretário da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO, no poder) em Sofala.
Refugiados moçambicanos no vizinho Malawi
Por outro lado, a organização International Crisis Group destaca ainda as operações militares para desarmar "militantes" da RENAMO na província de Tete, que provocaram um êxodo de refugiados para o vizinho Malawi, estimados em cerca de 6.000, com a existência de vários pedidos para investigar queixas de alegadas execuções e abusos sexuais por parte das forças de segurança.
As análises mensais da ICG têm por base as alterações políticas e/ou militares internas de cada país, não havendo a intenção de fazer comparações com outros Estados.
O "alerta de risco de conflito" é atribuído a um país onde a violência tem ocorrido e que se espera que continue no mês seguinte. O indicador é definido apenas quando se regista e receia uma nova ou uma significativa escalada de violência.
ICG existe desde 1995
A ONG International Crisis Group foi fundada em 1995 por um coletivo de personalidades que lamenta o fracasso da comunidade internacional em antecipar e responder eficazmente às tragédias ocorridas no início da década de 1990 na Somália, Ruanda e Bósnia.
Entre os fundadores contam-se Morton Abramowitz, antigo embaixador dos Estados Unidos na Turquia e Tailândia e, depois, presidente da instituição Legado de Carnegie para a Paz Internacional, e Mark Malloch-Brown, antigo presidente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e, mais tarde, secretário-geral adjunto da ONU e ministro no Reino Unido.
Segundo os fundadores, a ideia foi criar uma nova organização com funcionários altamente profissionais, "agindo como olhos e ouvidos do mundo", para analisar e prevenir conflitos e com poder internacional suficiente para conseguir mobilizar a comunidade internacional nos diferentes processos.
Atualmente, a International Crisis Group é reconhecida como líder mundial de fontes de informação e análises, bem como conselheira de políticas de prevenção e resolução de conflitos letais. Deutsche Welle
Moçambique em “guerra de baixa intensidade”
Conselho de Estado que deverá acontecer esta semana é visto com grande
expectativa: sairá uma plataforma de diálogo entre Frelimo ou Renamo?
No dia em que foi anunciado que a Renamo iria começar a governar à força as províncias onde obteve a maioria nas eleições gerais de 2014, o presidente do partido, Afonso Dhlakama, emitiu um comunicado a afirmar que “reitera a sua disponibilidade para negociar com o governo da Frelimo uma solução definitiva para a actual crise político-militar”.
O presidente da Renamo repete, porém, que a partir de Março irá iniciar a sua governação nas seis províncias do centro e norte do país (Sofala, Manica, Tete, Zambézia, Nampula e Niassa) num processo que é “irreversível”. O líder da Renamo desde 1979 acusa as Forças Armadas “de movimentação de armamento pesado do sul para o centro e norte do país” e diz ter conhecimento de “treinamento de militares moçambicanos para inviabilizar a governação da Renamo”.
Fala ainda de “incursões militares, dos raptos e dos assassinatos de membros” do partido “e da destruição de habitações e celeiros de cidadãos moçambicanos, principalmente nas províncias centrais de Manica e Tete, perpetrados pelas Forças Armadas”.
Na semana passada, organização de direitos humanos Human Rigths Watch (HRW) denunciou que pelo menos seis mil pessoas fugiram de Moçambique para o Malawi desde meados do ano passado e que isso “é uma consequência das operações do exército moçambicano para desarmar as milícias ligadas à Renamo”. A HRW fala de alegadas execuções sumárias, abusos sexuais e maus-tratos da parte das forças armadas na província de Tete, zona central de Moçambique e um reduto da Renamo.Governo e Renamo estão “a esticar a corda”, analisa ao telefone a partir de Maputo Francisco Carmona, director executivo do semanário Savana que entrevistou várias vezes Dhlakama: a Renamo diz que dialoga com a Frelimo depois de governar as províncias; a Frelimo diz que dialoga sem pré-condições. “O nível de desconfiança é extremamente alto”, acrescenta. “Não estou a ver o presidente da Renamo a viajar para Maputo para se encontrar com o Presidente Filipe Nyusi sem que a Frelimo ceda”, acrescenta.
Nyusi convocou para esta semana um conselho de estado onde analisará a reivindicação de Dhlakama e onde participam os antigos presidentes Joaquim Chissano e Armando Guebuza. Guebuza foi o representante da Frelimo no Acordo Geral de Paz (AGP) de 1992. A expectativa sobre o que sairá daqui é grande.
Raul Domingos, antigo negociador chefe pela Renamo do AGP, prevê: ou se encontra uma plataforma de diálogo para chegar à paz e isso assenta no acordo de 1992 ou, o pior cenário, faz-se declaração de guerra, diz ao PÚBLICO por telefone. “Reivindicando este acordo e implementando-o temos todos os elementos para chegar a uma paz duradoura”, acredita. “É preciso lembrar que certos sectores da Frelimo consideraram o acordo como caduco. Havia uma tendência de retorno ao monipartidarismo. Por causa disso, porque havia exclusão política, ausência de diálogo e de reconciliação reivindicou-se o acordo” – e chegou-se a um movimento que culminou com o conflito entre 2012 e 2014, levando Dhlakama a regressar à antiga base do partido na zona da Gorongosa e a anunciar o fim do AGP.Depois disso, houve as eleições gerais mas a Renamo declarou-as como fraudulentas. A Frelimo nega que as eleições tenham tido irregularidades, e acusa a oposição de violar a Constituição mantendo homens armados.
Segundo Raul Domingos, como a lei eleitoral “não consegue expressar a vontade do povo moçambicano” pois está feita de forma a que “quem ganha, ganha tudo”, a Renamo fez uma proposta para criar autarquias nas províncias onde teve o maior número de votos – esta proposta é um dos pontos de discórdia.
Para o jornalista Francisco Carmona, a Frelimo não vai ceder à reivindicação de a Renamo governar nas províncias onde ganhou, mas “tem que fazer propostas concretas”. Deve mostrar alguma abertura. Agora, a “Renamo acha que é o momento do ‘tudo ou nada’. O bolo não está bem dividido” – e a Renamo está disposta ao conflito. “Vivemos numa guerra de baixa intensidade”, continua.
Por agora a expectativa é também saber se a Renamo, que se tem mantido no centro e norte, “desce” para o sul e para a capital para “pressionar ainda mais”, pois é aí que estão “os grandes interesses de grupo da Frelimo”. “A percepção é que o sector radical da Frelimo quer o afastamento de Dhlakama e pressiona o presidente Nyusi”, continua o jornalista.
Por outro lado, o politólogo Jaime Macuane analisa por email: “A questão do retorno ou não à guerra parece mais uma discussão semântica do que substantiva. Os actores já se comportam como se estivessem em guerra, com confrontos militares, relatos de violência selectiva contra membros da Renamo e da Frelimo e vítimas civis. Também os efeitos típicos "de" guerra já se fazem sentir, como escoltas militares nas estradas, refugiados no Malawi, etc.” Para Macuane, agora “a questão é apenas a intensidade”. Importa resolver esta crise – “infelizmente, há uma radicalização de posições de ambas as partes que faz pender a balança para o lado da escalada do conflito”, diz. E alerta: “Os apelos e suposta vontade de diálogo não são suficientes a reverter a caminhada insana para o conflito.” Público
No dia em que foi anunciado que a Renamo iria começar a governar à força as províncias onde obteve a maioria nas eleições gerais de 2014, o presidente do partido, Afonso Dhlakama, emitiu um comunicado a afirmar que “reitera a sua disponibilidade para negociar com o governo da Frelimo uma solução definitiva para a actual crise político-militar”.
O presidente da Renamo repete, porém, que a partir de Março irá iniciar a sua governação nas seis províncias do centro e norte do país (Sofala, Manica, Tete, Zambézia, Nampula e Niassa) num processo que é “irreversível”. O líder da Renamo desde 1979 acusa as Forças Armadas “de movimentação de armamento pesado do sul para o centro e norte do país” e diz ter conhecimento de “treinamento de militares moçambicanos para inviabilizar a governação da Renamo”.
Fala ainda de “incursões militares, dos raptos e dos assassinatos de membros” do partido “e da destruição de habitações e celeiros de cidadãos moçambicanos, principalmente nas províncias centrais de Manica e Tete, perpetrados pelas Forças Armadas”.
Na semana passada, organização de direitos humanos Human Rigths Watch (HRW) denunciou que pelo menos seis mil pessoas fugiram de Moçambique para o Malawi desde meados do ano passado e que isso “é uma consequência das operações do exército moçambicano para desarmar as milícias ligadas à Renamo”. A HRW fala de alegadas execuções sumárias, abusos sexuais e maus-tratos da parte das forças armadas na província de Tete, zona central de Moçambique e um reduto da Renamo.Governo e Renamo estão “a esticar a corda”, analisa ao telefone a partir de Maputo Francisco Carmona, director executivo do semanário Savana que entrevistou várias vezes Dhlakama: a Renamo diz que dialoga com a Frelimo depois de governar as províncias; a Frelimo diz que dialoga sem pré-condições. “O nível de desconfiança é extremamente alto”, acrescenta. “Não estou a ver o presidente da Renamo a viajar para Maputo para se encontrar com o Presidente Filipe Nyusi sem que a Frelimo ceda”, acrescenta.
Nyusi convocou para esta semana um conselho de estado onde analisará a reivindicação de Dhlakama e onde participam os antigos presidentes Joaquim Chissano e Armando Guebuza. Guebuza foi o representante da Frelimo no Acordo Geral de Paz (AGP) de 1992. A expectativa sobre o que sairá daqui é grande.
Raul Domingos, antigo negociador chefe pela Renamo do AGP, prevê: ou se encontra uma plataforma de diálogo para chegar à paz e isso assenta no acordo de 1992 ou, o pior cenário, faz-se declaração de guerra, diz ao PÚBLICO por telefone. “Reivindicando este acordo e implementando-o temos todos os elementos para chegar a uma paz duradoura”, acredita. “É preciso lembrar que certos sectores da Frelimo consideraram o acordo como caduco. Havia uma tendência de retorno ao monipartidarismo. Por causa disso, porque havia exclusão política, ausência de diálogo e de reconciliação reivindicou-se o acordo” – e chegou-se a um movimento que culminou com o conflito entre 2012 e 2014, levando Dhlakama a regressar à antiga base do partido na zona da Gorongosa e a anunciar o fim do AGP.Depois disso, houve as eleições gerais mas a Renamo declarou-as como fraudulentas. A Frelimo nega que as eleições tenham tido irregularidades, e acusa a oposição de violar a Constituição mantendo homens armados.
Segundo Raul Domingos, como a lei eleitoral “não consegue expressar a vontade do povo moçambicano” pois está feita de forma a que “quem ganha, ganha tudo”, a Renamo fez uma proposta para criar autarquias nas províncias onde teve o maior número de votos – esta proposta é um dos pontos de discórdia.
Para o jornalista Francisco Carmona, a Frelimo não vai ceder à reivindicação de a Renamo governar nas províncias onde ganhou, mas “tem que fazer propostas concretas”. Deve mostrar alguma abertura. Agora, a “Renamo acha que é o momento do ‘tudo ou nada’. O bolo não está bem dividido” – e a Renamo está disposta ao conflito. “Vivemos numa guerra de baixa intensidade”, continua.
Por agora a expectativa é também saber se a Renamo, que se tem mantido no centro e norte, “desce” para o sul e para a capital para “pressionar ainda mais”, pois é aí que estão “os grandes interesses de grupo da Frelimo”. “A percepção é que o sector radical da Frelimo quer o afastamento de Dhlakama e pressiona o presidente Nyusi”, continua o jornalista.
Por outro lado, o politólogo Jaime Macuane analisa por email: “A questão do retorno ou não à guerra parece mais uma discussão semântica do que substantiva. Os actores já se comportam como se estivessem em guerra, com confrontos militares, relatos de violência selectiva contra membros da Renamo e da Frelimo e vítimas civis. Também os efeitos típicos "de" guerra já se fazem sentir, como escoltas militares nas estradas, refugiados no Malawi, etc.” Para Macuane, agora “a questão é apenas a intensidade”. Importa resolver esta crise – “infelizmente, há uma radicalização de posições de ambas as partes que faz pender a balança para o lado da escalada do conflito”, diz. E alerta: “Os apelos e suposta vontade de diálogo não são suficientes a reverter a caminhada insana para o conflito.” Público
terça-feira, 1 de março de 2016
Dhlakama: combater, sobreviver e andar de moto na Gorongosa
Foi líder de guerrilha aos 27 anos. Soube depor as armas. Hoje, diz-se sem paciência e quer o poder em metade do país.
Um
quarto de século após o Acordo de Roma, Afonso Dhlakama está de volta
ao mato. Com a promessa de tomar o poder nas seis províncias (num total
nacional de 11) onde a Renamo obteve maioria nas legislativas de 2014,
correspondentes às regiões de influência histórica do movimento que
combateu a Frelimo de armas na mão entre 1977 até 1992, quando foram
assinados o acordo de paz na capital italiana. "Eu anunciei a formação
do nosso governo, vai entrar em vigor em março, pode ser dia 1, 15 ou
30, mas (...) vamos governar", disse este mês na Gorongosa.
A
reivindicação de Dhlakama e suas consequências serão analisadas esta
semana no primeiro Conselho de Estado que o presidente Filipe Nyusi
convoca desde que chegou ao poder em 2014.
As
críticas atuais de Dhlakama não são senão o eco de outras feitas desde
1994, e remetem para situações de intolerância política, discriminação,
ausência de equilíbrio e independência na Administração Pública e
questões conexas. Um jornalista moçambicano, falando no final da semana
numa conferência em Maputo, sintetizou a situação: "Este é um dos únicos
países (...) em que não temos nenhum dirigente a nível de uma
associação desportiva ou de camponeses que não seja do partido no
poder", disse Salomão Maiane, citado pela Lusa.
Quando assumiu a direção da Renamo, o
atual líder tinha 27 anos e coube-lhe suceder, após morte em combate, a
André Matsangaíssa, um ex-militante da Frelimo que rompeu com esta, tal
como Dhlakama. A Renamo chamava-se Resistência Nacional Moçambicana
(RNM), abrigava-se na Gorongosa, no centro do país, onde Dhlakama volta
sempre que se diz em perigo.
A primeira
geração de combatentes da Renamo recebeu formação da Rodésia (atual
Zimbabwe) e nas suas fileiras havia de tudo: os que tinham vestido o
uniforme português, ex-guerrilheiros da Frelimo, sem partido
descontentes com o regime de Maputo.
Já
com Dhlakama na liderança, será a África do Sul a assumir
responsabilidades na preparação militar e apoio político até ao início
do processo de transição do apartheid para o governo da maioria negra.
Mas Dhlakama sempre recusou a ideia de ter sido a Renamo criação ou
instrumento de Pretória.
Deslocações de motorizada
A
natureza do conflito e a escassez de recursos obrigam os guerrilheiros e
seu líder a longas caminhadas no mato, uma prática que, desde o
regresso das tensões entre Renamo e Frelimo, Dhlakama diz-se forçado a
recorrer para escapar a alegadas emboscadas de forças governamentais.
Mas as motorizadas parecem ocupar um lugar importante no seu percurso,
embora ele negue veracidade a algumas histórias, como aquela posta a
circular pela Frelimo que, num assalto à base onde se encontrava, teria
escapado num veículo de duas rodas. Mas existem relatos sobre esta
faceta, documentada em vídeo e fotografia. Como contou à Lusa o
arcebispo emérito da Beira, Jaime Gonçalves, recordando que, no primeiro
encontro com Dhlakama numa base da Renamo, este apareceu de moto e o
transportou ele próprio até ao local da reunião.
Afonso
Dhlakama nasceu a 1 de janeiro de 1953 na localidade de Mangunde, numa
família onde o pai era régulo - fator a não descurar na política
africana. Não teve grande educação formal. No entanto, nunca desistiu de
se cultivar e de ter formação, quer da África do Sul quer de diferentes
círculos europeus (entre os quais portugueses) e americanos que apoiam a
Renamo. Portugal será, aliás, uma plataforma do movimento, tendo sido
palco do assassínio do secretário-geral Evo Fernandes em abril de 1988.
Morte atribuída aos serviços secretos de Maputo. No ano seguinte, em
julho, começariam as negociações de paz. Raul Domingos representava a
Renamo, Armando Guebuza a Frelimo. O Acordo Geral de Paz é assinado a 4
de outubro de 1992.
Casado desde 1980 e pai de oito filhos, Dhlakama vai viver em abril de
1993 para Maputo. Nas primeiras presidenciais, em 1994, tem 33,7 % dos
votos; Chissano ganhou com 53,3%. Nas legislativas, a Frelimo somou
44,3%, a Renamo 37,7. No ciclo eleitoral de 1999, Chissano obteve 52,2% e
Dhlakama 47,7%. O padrão dos resultados repete-se até 2014, com a
Renamo a acusar a Frelimo de fraude. Em 2012, Dhlakama deixou a capital
com o argumento de ter a vida em perigo. Seguiu-se um conflito de baixa
intensidade entre a Renamo e o governo, com aquele a só reaparecer em
2014 para a assinatura de um acordo de cessação de hostilidades, a 5 de
setembro, com o então presidente Armando Guebuza. Mas pouco após as
eleições de outubro daquele ano, abandonou Maputo. Agora, diz-se "mais
legal que [o atual presidente Filipe] Nyusi. Pelo menos quero governar
onde os editais confirmam que Dhlakama e a Renamo tiveram maioria". Diário de Notícias
"Falta de diálogo em Moçambique acentua polarização"
Em entrevista à DW África, professora da Universidade Leiden, na
Holanda, diz que retorno à guerra civil é improvável, mas conflitos
entre RENAMO e FRELIMO fragilizam o longo processo de paz.
Os efeitos do Acordo Geral de Paz de 1992, que selou o fim dos 16 anos de guerra civil em Moçambique, perde cada vez mais força. A intensificação dos conflitos entre RENAMO e FRELIMO nos últimos meses têm acentuado a polarização e a desigualdade social no país.
Para Corinna Jentzsch, professora assistente de Relações Internacionais da Universidade Leiden, na Holanda, a falta de reconciliação nacional e falhas na reintegração de ex-combatentes são os principais responsáveis pela instabilidade política atual.
"A polarização social persiste ao longo dos anos desde o acordo de paz. O país permanece dividido entre simpatizantes da RENAMO e da FRELIMO, entre o Norte e o Sul", explica a especialista que fez pesquisas de campo sobre a guerra civil e o processo de paz em Moçambique.
"Apoiadores da RENAMO reclamam de falta de acesso a postos de trabalho e de discriminação. E agora o país enfrenta um crescimento acentuado da desigualdade social, o que significa que nem todos têm acesso aos lucros gerados pelos recursos naturais."
Num comunicado divulgado na semana passada, a RENAMO informou que só vai dialogar com o Governo de Filipe Nyusi se o partido governar as seis províncias onde reivindica a vitória nas eleições gerais de 2014.
Corinna analisa que o posicionamento da RENAMO, que mantém fileiras armadas, deve-se à incapacidade do líder do partido, Afonso Dhlakama, de inserir-se num ambiente político democrático. Segundo a especialista, Dhlakama mantém uma mentalidade de guerrilha. Por sua vez, a FRELIMO acentua as rivalidades.
“A repressão está aumentando. A FRELIMO propõe a ideia de união nacional ao ponto de silenciar a oposição. Nunca houve um processo de reconciliação a nível nacional. A guerra continuou não puramente com violência, mas com palavras. Todos os problemas sociais de Moçambique são entendidos hoje sob o espectro do conflito entre a RENAMO e a FRELIMO. Essas diferenças nunca foram superadas, então a rivalidade da guerra civil continua", analisa.
Solução ainda é o diálogo
Os últimos meses têm sido marcados por ataques, raptos e assassinatos, com trocas de acusações entre a RENAMO e a FRELIMO. Apesar disso, Corinna diz que um retorno à guerra civil é pouco provável.
"A violência atual está concentrada em regiões específicas e ainda não se espalhou por todo o país. Apesar de a RENAMO provocar o Governo com ataques, continua a ser um partido fraco. A questão é se o partido vai conseguir apoio adicional da população para se tornar uma ameaça real ao Governo", diz Corinna.
Diversos setores têm se oferecido para mediar o conflito. O envolvimento da Igreja Católica e do presidente da África do Sul, Jacob Zuma, podem ter um efeito positivo, mas segundo a professora da Universidade Leiden, o diálogo entre a RENAMO e FRELIMO ainda é a solução mais eficaz para um acordo permanente.
"No longo prazo, é preciso superar o discurso de 'nós contra eles', usados pelos dois lados. E isso requer um processo mais amplo que envolva mais do que tentativas de reuniões." Deutsche Welle
Os efeitos do Acordo Geral de Paz de 1992, que selou o fim dos 16 anos de guerra civil em Moçambique, perde cada vez mais força. A intensificação dos conflitos entre RENAMO e FRELIMO nos últimos meses têm acentuado a polarização e a desigualdade social no país.
Para Corinna Jentzsch, professora assistente de Relações Internacionais da Universidade Leiden, na Holanda, a falta de reconciliação nacional e falhas na reintegração de ex-combatentes são os principais responsáveis pela instabilidade política atual.
"A polarização social persiste ao longo dos anos desde o acordo de paz. O país permanece dividido entre simpatizantes da RENAMO e da FRELIMO, entre o Norte e o Sul", explica a especialista que fez pesquisas de campo sobre a guerra civil e o processo de paz em Moçambique.
"Apoiadores da RENAMO reclamam de falta de acesso a postos de trabalho e de discriminação. E agora o país enfrenta um crescimento acentuado da desigualdade social, o que significa que nem todos têm acesso aos lucros gerados pelos recursos naturais."
Num comunicado divulgado na semana passada, a RENAMO informou que só vai dialogar com o Governo de Filipe Nyusi se o partido governar as seis províncias onde reivindica a vitória nas eleições gerais de 2014.
Corinna analisa que o posicionamento da RENAMO, que mantém fileiras armadas, deve-se à incapacidade do líder do partido, Afonso Dhlakama, de inserir-se num ambiente político democrático. Segundo a especialista, Dhlakama mantém uma mentalidade de guerrilha. Por sua vez, a FRELIMO acentua as rivalidades.
“A repressão está aumentando. A FRELIMO propõe a ideia de união nacional ao ponto de silenciar a oposição. Nunca houve um processo de reconciliação a nível nacional. A guerra continuou não puramente com violência, mas com palavras. Todos os problemas sociais de Moçambique são entendidos hoje sob o espectro do conflito entre a RENAMO e a FRELIMO. Essas diferenças nunca foram superadas, então a rivalidade da guerra civil continua", analisa.
Solução ainda é o diálogo
Os últimos meses têm sido marcados por ataques, raptos e assassinatos, com trocas de acusações entre a RENAMO e a FRELIMO. Apesar disso, Corinna diz que um retorno à guerra civil é pouco provável.
"A violência atual está concentrada em regiões específicas e ainda não se espalhou por todo o país. Apesar de a RENAMO provocar o Governo com ataques, continua a ser um partido fraco. A questão é se o partido vai conseguir apoio adicional da população para se tornar uma ameaça real ao Governo", diz Corinna.
Diversos setores têm se oferecido para mediar o conflito. O envolvimento da Igreja Católica e do presidente da África do Sul, Jacob Zuma, podem ter um efeito positivo, mas segundo a professora da Universidade Leiden, o diálogo entre a RENAMO e FRELIMO ainda é a solução mais eficaz para um acordo permanente.
"No longo prazo, é preciso superar o discurso de 'nós contra eles', usados pelos dois lados. E isso requer um processo mais amplo que envolva mais do que tentativas de reuniões." Deutsche Welle
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